Mês: outubro 2016

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Fechou uma semana sem que a polícia tenha encontrado o fio da meada que una, ou descarte, os três acontecimentos ocorridos em Porto Alegre entre a madrugada e tarde do último dia 18, uma segunda-feira: o atentado a tiros ao comitê do PSDB, o incêndio criminoso em uma sala do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) onde eram guardados documentos relativos a uma apuração de fraude, e a morte de Plínio Zalewski, coordenador da campanha do candidato do PMDB à prefeitura, encontrado morto na sede do próprio partido, um trágico episódio que a polícia trata como suicídio e que, como era de se esperar, causou comoção suficiente para paralisar por 24 horas a campanha eleitoral.

Porto Alegre tem uma das mais acirradas disputas eleitorais da sua história recente. E os três casos têm um enorme potencial de causar danos às duas candidaturas que chegaram ao segundo turno. Porém, a maneira como os policiais estão conduzindo as investigações dificilmente irá responder ao quesito sobre a existência, ou não, de vínculo entre os três acontecimentos. Essa resposta é fundamental para a opinião pública.

Por que a descrença no trabalho policial? Vejamos: a Polícia Civil tem três delegados, de delegacias diferentes, trabalhando nos casos: um investiga a morte de Zalewski, outro a invasão das redes sociais do coordenador e um terceiro apura o incêndio no DEP. Já a Polícia Federal (PF) destacou um delegado para investigar o atentado à sede do PSDB. Todo repórter policial experiente sabe da tremenda resistência que existe entre policiais para a circulação de informações sobre casos em apuração. Investigadores da mesma delegacia dificilmente trocam informações entre si. Imaginem se pertencem a quatro delegacias diferentes, sendo uma delas da PF, ligada a outra esfera da administração pública.

A falta de comunicação entre os policiais abre uma importante porta para o trabalho do repórter. No que chamo de “Terra de Ninguém”, o repórter encontra o que eu descrevo como um lugar povoado por personagens que guardam informações valiosas sobre os casos, mas não despertaram o interesse da polícia, envolvida com outro foco da investigação. O caminho para encontrar esses personagens, ou um fato, é voltar no tempo e estabelecer o cotidiano da figura principal da história. É no dia a dia dela que orbitam pessoas e fatos descartados pelos investigadores, mas que podem nos dar uma matéria exclusiva. Já me aconteceu de descobrir em uma conversa com o jornaleiro da esquina a pista para uma reportagem inédita.

Lembro o seguinte: pelo fluxo de opiniões e informações circulando sobre os três episódios nas redes sociais, vejo que há um enorme interesse das pessoas em saber o que aconteceu. E esse interesse não deve acabar com a eleição do próximo fim de semana. O que deverá diminuir com o fim da campanha é a pressão sobre o trabalho dos policiais envolvidos com as investigações, que passarão a dividir seu tempo e sua atenção com dezenas de outras diligências em curso. Inclusive a imprensa, por carência de pessoal e recursos, deverá reduzir o número de repórteres envolvidos na cobertura.

Frente a está conjuntura surge uma oportunidade de ouro para as agências de conteúdos. Que tal montar um pool e financiar uma equipe de jovens repórteres para esmiuçar esses casos? Se conseguirem esclarecê-los, farão história.

Que relação há entre os três episódios que aconteceram em Porto Alegre entre a madrugada e a tarde desta segunda-feira e paralisaram a campanha eleitoral para a prefeitura? O atentado a tiros ao comitê do PSDB, o incêndio criminoso em uma sala do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) onde eram guardados documentos relativos a uma apuração de fraude, e a morte violenta de um dos coordenadores da campanha do candidato do PMDB, na sede do próprio partido, se entrelaçam em um ambiente fértil para a disseminação de teorias conspiratórias que desafiam não apenas a polícia, mas também um bom repórter investigativo.

É um dever do repórter apurar cada um destes fatos e, à luz das informações apuradas e da razão, explicá-los aos seus leitores, mostrando ou afastando eventuais ligações que possam existir entre eles. Mesmo nadando contra a correnteza e resistindo à enorme pressão que existe em coberturas deste tipo, quando a correria já habitual das redações ganha redobrada velocidade devido à exigência (e urgência) na produção de conteúdos para abastecer os sites e outras mídias. Dentro deste contexto, quem pensar diferente é “patrolado” – lhe passam por cima. Geralmente, os conteúdos são informações oficiais.

É bom lembrar que esses três acontecimentos têm como pano de fundo uma disputada da eleição para prefeito entre o PMDB e o PSDB. Portanto, o trabalho do repórter acontece em um ambiente contaminado pela paixão, pela intriga, pela busca pelo poder e por muitas “verdades” absolutas. Mas no meio dessa confusão existe uma oportunidade de ouro para o repórter “se puxar” e conseguir a matéria exclusiva. Lembro que ela não é propriedade dos velhos reporteiros e do grande jornal. Muito pelo contrário. A exclusiva é democrática e qualquer um pode consegui-la e publicá-la nas dezenas de mídias que existem à disposição. Para os jovens repórteres digo que é uma ótima oportunidade de ocupar um lugar ao sol.

Uma das grandes escolas do estudo das técnicas de reportagens é a autópsia de um fato gerado em grandes acontecimentos, como é o caso do voto de protesto – marca do primeiro turno das eleições municipais de 2016.
O fato, por vezes, se torna um ícone, que é construído tendo como alicerce informações repetidas nos noticiários até se tornarem um sinônimo do que aconteceu.
Nos meus 40 anos de repórter – a maioria rodando pelas estradas em busca de boas histórias –, aprendi que uma autópsia de um ícone da verdade nos jornais é um importante exercício no aperfeiçoamento da nossa técnica de investigação. Lembre-se do seguinte: uma eleição é uma guerra entre candidatos pelo poder. E, numa guerra, a primeira a ser abatida é a verdade, como descreve Phillip Knightley no seu livro A Primeira Vítima, leitura obrigatória no nosso ramo.
A informação de que havia acontecido o voto de protesto começou a circular pela boca dos comentaristas políticos dos grandes noticiários. Ela foi absorvida e integrada pelos jovens repórteres em suas matérias com naturalidade.
A partir disso, vamos começar a nossa autópsia: quem são os grandes comentaristas políticos das mídias de hoje? São pessoas super atarefadas que escrevem e opinam em várias plataformas da mídia. Portanto, eles têm um escasso tempo para apurar os fatos e resolvem o problema pegando informações com fontes – pessoas ou organizações que defendem os seus interesses – que avaliaram o que aconteceu.
Para se ter uma ideia do que é ser comentarista político, recomendo a leitura do livro Todo Aquele Imenso Mar de Liberdade, sobre o mestre dos comentaristas políticos, Carlos Castello Branco.

A minha conclusão, depois de quebrar a cara várias vezes por tomar por verdade a opinião de comentaristas, é cautela.
Segue o barco. Vamos colocar na mesa da autópsia um fato ocorrido no nosso quintal, comparando o primeiro turno das eleições municipais de Porto Alegre de 2012 com o de 2016.
Houve um aumento de 2,03% no número de eleitores aptos para votar. Gente nova no pedaço? Não só isso. Nos dias atuais, os mortos continuam vivendo por um bom tempo nas redes sociais, tipo Facebook e em registros oficiais, como cartórios eleitorais, bancos e dívidas no comércio.
Fiz uma matéria sobre o assunto e digo que o processo da “morte na burocracia” é longo e complicado. Vamos examinar um dos pilares do voto de protesto: a abstenção. Houve um crescimento de 2012 para 2016 de 19,49%. A ligação feita por analistas foi direta: descontentes com as sacanagens dos políticos, os eleitores protestaram.
O fato é relevante. Daí, pergunto: foi realizada uma pesquisa para explicar o que aconteceu? Ao usar a imagem da sacanagem para explicar tudo, estamos vendendo aos nossos leitores um quadro definitivo que pode não ser totalmente verdadeiro.
Tem mais dois fatos que merecem a atenção do jovem repórter. O crescimento de 56% dos votos nulos de 2012 para 2016 e de 67% dos brancos. A autópsia revela o seguinte: em 2012, foram 4,82% de votos nulos e, em 2016, 8,88%. Os brancos foram 4,57% e 7,01%, respectivamente. Portanto, uma manchete do tipo “Metade dos eleitores de Porto Alegre anularam ou votaram em branco” não é errada, mas é estelionato jornalístico.
E a credibilidade é a carteira de identidade do repórter. Ela é difícil de ser alcançada, mas fácil de ser perdida.

Em tempo: se quiserem ver na íntegra os números que citei, procurem no site do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul – www.tre-rs.jus.br. Está tudo lá.

Para as gerações que estão vindo aí, eu sugiro aos repórteres um profundo mergulho nos resultados das eleições para vereadores e prefeito de Santa Maria em busca de ligações com a tragédia da Boate Kiss – um incêndio que matou 242 pessoas e feriu outras 680, a maioria universitários, na madrugada de 27 de janeiro de 2013. O caso é descrito pela enciclopédia Wikipédia: ” a segunda maior tragédia no Brasil em número de vítimas em um incêndio, sendo superado apenas pela tragédia do Gran Circus Norte-Americano, ocorrida em 1961, em Niterói, que vitimou 503 pessoas. E foi semelhante ao incêndio ocorrido na Argentina, em 2004, na discoteca República Cromañón. Classificou-se também como a quinta maior tragédia da história do Brasil, a maior do Rio Grande do Sul, a de maior número de mortos nos últimos cinquenta anos no Brasil e o terceiro maior desastre em casas noturnas no mundo.”
É uma tragédia grande demais para ter passada despercebida pelos eleitores, principalmente os parentes das vítimas que estão organizados e lutando para que se faça Justiça no caso – os quatro suspeitos pelo incêndio estão aguardando o julgamento em liberdade, o que é considerado uma afronta aos gaúchos. No mês passado, o prefeito da época trocou o cargo pelo de secretário da Segurança Pública do Rio Grande do Sul. Aos jovens repórteres, eu faço um relato particular. É importante documentar a influência de acontecimentos relevantes locais com o andamento da política. O resultado da apuração é para o pesquisador da história uma informação muito valiosa. E para as autoridades um lembrete: o caso faz parte da agenda dos reporteiros.