Mês: dezembro 2016

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Como se fossem cavaleiros do apocalipse, dois personagens foram trazidos ao convívio de inúmeras famílias gaúchas pela crise econômica que assola o Brasil, em particular o Rio Grande do Sul: o agiota e o cobrador de contas.

Por serem crias da periferia do caos da economia, eles raramente frequentam os noticiários, que são dominados por governo, empresários, sindicalistas, consultores e professores da academia. O agiota e o cobrador giram ao redor das famílias, principalmente as de baixa renda. O desafio para o jovem repórter é encontrar esses personagens anônimos da crise e mostrar o cotidiano deles.
Como jornalista, esta não é a primeira crise que estou vendo: tenho 66 anos, 40 como repórter estradeiro. Mas é a primeira que estou vivendo fora da redação de um jornal, portanto sem a pressão de precisar escrever apressadamente a reportagem e publicá-la.
Isso tem me dado mais tempo para conversar com muitas pessoas. Sem me identificar, tenho me alongado nestas conversas. E o que tenho ouvido não tem comparação com o que aconteceu em outras crises.

Por exemplo: o atraso no pagamento dos salários dos funcionários públicos do Estado criou um ambiente totalmente novo na categoria. Na semana passada, encontrei no supermercado um velho professor de história do ensino médio público. Homem de saber invejável, conversa interessante e bom tomador de cerveja, nós falamos durante mais de uma hora. Ele resumiu a situação dele:
– O salário vem fatiado, as contas, não. Para pagá-las, primeiro gastei a poupança, depois peguei dinheiro emprestado com amigos e parentes. E agora busquei aos agiotas.

Liguei para um conhecido, um oficial da P2 – serviço de inteligência da Brigada Militar (BM) – e acertamos uma cerveja com batatinha frita no final da tarde. Depois de uma conversa fiada, perguntei-lhe sobre os efeitos do salário fatiado nas tropas da BM.
– A merda não é maior porque a tropa tem o bico (serviço extra) e o agiota para pegar dinheiro – resumiu.

Como herança dos tempos de redação, conheço vários agiotas – eles são boas fontes. Liguei para três deles e conversamos sobre o momento atual. Contaram que os negócios estão em alta. Mas, diferentemente de outras crises, os riscos são grandes devido ao enorme endividamento dos seus clientes.

Os juros que o agiota cobra não tem tabela – pode ir de 20% a 40% ao mês. Um dos agiotas, um homem velho que opera em escritório nos arredores da estação rodoviária de Porto Alegre, disse uma coisa interessante. Ele cobra um juro menor dos seus clientes de longa data – pessoas que vez ou outra pegam dinheiro para pagar uma eventualidade.

Uma cena a que tenho assistindo diversas vezes durante o mês: clientes com o limite do cartão de crédito estourando na hora do pagamento das compras no caixa do supermercado. Na semana passada, uma senhora não conseguiu esconder as lágrimas quando precisou retirar alguns produtos do rancho para adequar a despesa ao saldo do cartão. Ela olhou para mim, eu comecei a mexer no celular para mostrar que não estava interessado no assunto.

Estou procurando um caminhonete para comprar e, atento aos anúncios, esbarrei em um que me chamou a atenção. Um revendedor “picareta” prometia comprar e pagar à vista carros com dívida. Liguei para ele e o que ouvi me fez cair os butiás dos bolsos, como costuma dizer o repórter Nilson Mariano. Ele quita o carro com o banco e não reembolsa as prestações já pagas pelo proprietário. Baita negócio, para o picareta.

Andei conversando com os cobradores de contas – conheço alguns que são minhas fontes. Aqueles vinculados a escritórios de advocacia estão ganhando dinheiro atuando no setor de veículos e outros bens retomados. Os autônomos têm bastante trabalhando buscando os clientes dos mercadinhos que estão em atraso com suas contas. Quem ganha dinheiro com a crise é uma boa matéria.

Há uma pergunta que temos que responder para a opinião pública. Como evitar que, no futuro, parlamentares e empreiteiros descubram uma nova maneira de se associarem para cometer crimes?

Uma das alternativa é a regulamentação da profissão de lobista. (Recomendo aos jovens repórteres que pesquise o assunto).

Vejamos. Pelas notícias que estão circulando, podemos observar dois crimes sendo cometidos. O primeiro, e mais antigo, é o financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro sujo – que é obtido pela supervalorização do preço das obras contratadas com o Estado. Vários casos estão sendo exaustivamente investigados e explicados na Operação Lava-Jato.

O segundo tipo de crime é a “compra”, pelas empresas, de parlamentares para defenderem os seus interesses no plenário do Congresso – acompanhando a votação de leis – e na confecção de editais de concorrência com cláusulas amigáveis ao pleito das empreiteiras.

Aqui chamo atenção do jovem repórter. O primeiro crime que descrevi é caso para a Política Federal (PF) investigar e a Justiça Federal julgar. O segundo crime é o mais grave, pois atinge um direito que todas as organizações – trabalhadores, empresas (de todos os portes) e grupos de defesa dos direitos civis – têm de vender o seu peixe para os parlamentares. Trata-se de uma atividade que precisa ser feita de maneira transparente e obedecendo a regras. Nos Estados Unidos e em alguns países da União Europeia, os lobistas fazem esse trabalho. Os americanos regularizaram atividade de lobby em 1947 e atualizaram as leis em 1995.

Claro que para os parlamentares envolvidos com corrupção e os empresários corruptores o surgimento da atividade de lobista, devidamente regulamentada e fiscalizada, não interessa, porque irá tirar o lucro trazido pelas operações ilegais. É como se a droga fosse legalizada no Brasil, os traficantes iriam à falência. Por isso, a legalização do lobby é mais uma ferramenta de controle.

A discussão deste assunto não é nova. Mas é a primeira vez que pode ser debatida dentro do atual contexto político e econômico criado pela avalanche de denúncias de trapaças envolvendo parlamentares e empresários. É uma boa oportunidade para o jovem repórter mostrar trabalho.

Assim como é função do médico curar a doença e a do bombeiro é apagar incêndios, é tarefa do repórter entender e publicar as ligações existentes entre os fatos que determinam o cotidiano das pessoas. A arma mais poderosa que um leitor pode ter é o conhecimento dos fatos, o que irá orientá-lo a seguir o caminho que lhe interessar.

O enfrentamento que acontece entre o senador Renan Calheiros e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) é uma boa sala de aula para o jovem repórter. É um momento raro na política brasileira em que o bastidor do poder está exposto: podem ser vistas a olhos nus as articulações que estão sendo feitas para aprovar as reformas econômicas propostas pela Pec 241 – agora transformada no Senado em Pec 55.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, sabe que é figura chave nesta articulação que irá enfiar a Pec garganta abaixo dos brasileiros. Ao contrário do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha, um arrogante durante as 24 horas do dia, Renan tem a disciplina de um samurai, ele só vai para o enfrentamento na hora que considera ser a certa. Passa a maior parte do tempo recolhido ao seu canto do ringue, estudando o adversário, e só sai de lá quando tem certeza de que há uma boa chance de nocautear o opositor. E quando o derrota, ao contrário de Cunha, não o humilha. Transforma-o num aliado.

O atual momento é o auge do poder de Renan. Na próxima semana, a Pec irá para sua definitiva votação, na qual ele é figura importantíssima na articulação do governo Temer, que conseguiu convencer um bloco significativo de deputados federais e parte importante do Poder Judiciário de que as medidas irão salvar o Brasil.

Dentro desse contexto, Renan não teve a mínima cerimônia em mandar às favas uma ordem do STF de deixar o cargo. Perdeu os anéis, mas conservou os dedos. O STF o manteve no posto. Apenas o impediu que ocupar o cargo de Temer, em um eventual (e muito pouco provável) impedimento simultâneo do presidente da República e do presidente da Câmara dos Deputados, o primeiro na linha sucessória – com o impeachment de Dilma Rousseff e a posse de Temer, o Brasil não tem mais vice-presidente.

A história política de Renan é longa e interessante – há um vasto material no Tio Google. Aos 61 anos, o senador por Alagoas não pode ser descrito como mocinho ou bandido. A definição mais apropriada é equilibrista. Não há como saber quem será o próximo presidente do Brasil. Mas certamente o senador Renan será um dos que irá apoiá-lo.

Qual a relação entre a conspiração que derrubou Dilma e a continuada queda livre na economia na era Temer? Não estamos respondendo a esta pergunta ao nosso leitor. O caminho que o jovem repórter precisa percorrer para responder a pergunta começa com uma autópsia da situação. E uma boa e extensa leitura de conjuntura econômica atual.

A história mostra que não existe um modelo econômico 100% eficiente em uso em nenhum país do mundo. Todos eles têm o seu ponto frágil, que são identificados e usados para ganhar dinheiro pelos especuladores dos mercados. Foi o caminho dos especuladores que os conspiradores trilharam para derrubar Dilma. Era o caminho lógico. O governo tinha um forte apoio dos eleitores ancorado em uma série de políticas sociais, empregos em alta e salários em ascensão. Portanto, seria dar murros em ponta de faca tentar convencer o eleitor que ele estava errado em apoiar o governo.

Os conspiradores já tinham tentado no governo Lula e falharam. Mas a maioria das políticas sociais do governo eram financiadas por receitas temporárias, tipo valorização dos produtos exportados pelo país, como soja e outros. Houve uma queda nos mercados internacionais que exigia uma correção de rumo na economia brasileira. Foi aí que os conspiradores agiram: montaram uma aliança política que conseguiu barrar todas as medidas que o governo tentava para alinhar a economia nacional aos novos rumos dos mercados internacionais – um dos símbolos da época são as pautas bombas do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha.
No período de agonia do governo Dilma, os especuladores de mercados, principalmente do mercado financeiro, ganharam fortunas. Eles tinham vivido um período de vacas magras durante a estabilidade da economia.

Derrubada a Dilma, os conspiradores alojam-se no governo e elegem a recuperação da economia como seu objetivo principal. Como se o mundo fosse parar para o Brasil se ajustar. Claro, o mundo não parou. E a economia brasileira está pagando o preço por não ter feito os ajustes na hora que era necessário. Nós, repórteres, temos que fazer a conta de quanto custou a conspiração e informar à população. Cabe a ela saber que uso dará a informação.