Mês: março 2017

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O PSDB está na maior saia justa. Enfurecido pela derrota na eleição presidencial de 2014, entrou com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a cassação, por abuso do poder econômico, entre outros crimes eleitorais, da chapa reeleita: Dilma Rousseff (PT – RS) e o seu vice de então, Michel Temer (PMDB – SP).
A ação do PSDB no TSE foi apelidada pelo grupo politico que apoiava Dilma como “Terceiro Turno”. Argumentava que o então candidato tucano derrotado, o senador Aécio Neves, havia perdido as eleições nas urnas e, agora, queria ganhar no tapetão – na Justiça. Além da ação, os tucanos também pediram uma auditoria na votação, sob alegação de desconfiança no processo eletrônico. No final, concluíram que não houve fraude.
Uma sucessão de fatos políticos fez a ação contra a chapa ficar fora dos holofotes da mídia. A administração da então presidente Dilma começava a naufragar em problemas econômicos. E o grupo político do seu então vice-presidente, Temer, iniciava uma conspiração para derrubar a presidente. Os problemas econômicos do governo foram turbinados pelas “pautas bomba” do então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB- SP), hoje cassado e cumprindo prisão preventiva em Curitiba (PR), por ser suspeito de estar envolvido em crimes de corrupção que foram apurados pela força-tarefa da Operação Lava Jato. Antes de ser cassado, Cunha instaurou o processo de impeachment de Dilma.
O PSDB participava de maneira discreta do processo de conspiração do grupo político de Temer. Em parte, porque existia um forte debate interno no partido, onde líderes históricos da legenda se posicionavam contra o processo de impeachment. Foram vencidos, e o partido entrou de cabeça na articulação política que resultou na cassação da presidente e na subida ao poder de Temer. Hoje, o partido é da base política do governo e também ocupa cargos na administração.
Enquanto tudo isso acontecia, o processo do PSDB contra a chapa Dilma – Temer continuava tramitando no TSE. A tese de defesa de Temer é que ele não participou da montagem da sustentação econômica da campanha. Nas suas alegações finais no processo, o PSDB fortaleceu a tese do atual presidente. O fato é que, na próxima semana, o TSE vai começar a decidir o destino da chapa Dilma – Temer. Pelo cenário que está se esboçando, a tendência é que o processo seja empurrado com a barriga até o final do mandato em 2018.
Independentemente do resultado do processo, o PSDB criou um constrangimento para o governo do qual faz parte. Imagine a imensa dificuldade que um analista político estrangeiro tem para entender essa história. Agora, nós, repórteres, temos a obrigação de esmiuçar todo o episódio e explicá-lo aos nossos leitores. Lembro, principalmente aos jovens repórteres, que as disputas pelo poder entre os grupos políticos – que podem pertencer ao mesmo partido ou não – são travadas como se fossem batalhas. Para entender o que aconteceu, eu conversei demoradamente com fundadores do PSDB, do PT e do PMDB. E o que aconteceu é bem definido por um provérbio que há muitos anos circula pelo mundo, entre parlamentares e diplomatas, e serve como uma espécie de bússola para fazer as alianças políticas. Ele diz o seguinte: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”.
Esta é a situação. Aécio Neves e seus apoiadores no PSDB são inimigos mortais do grupo político do PT ao qual pertence o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, mentor e criador da candidatura de Dilma. O grupo político de Temer no PMDB sempre travou uma luta acirrada contra o PT por prestígio e cargos no governo. Assim que o governo do PT começou a agonizar, o grupo de Temer buscou uma aliança com o PSDB. O sucesso da aliança tornou Temer o presidente do Brasil. E, aos tucanos, trouxe a incumbência de explicar para a história o processo que tramita no TSE.

Baixada a poeira das manifestações de apoio à Operação Lava Jato no fim de semana, é a hora de o repórter olhar com profundidade o que aconteceu. O movimento não teve como alvo principal proteger o trabalho do juiz federal Sérgio Moro e a força-tarefa que conduz as investigações. Até porque a operação avança de maneira muito sólida. O que nós vimos foi um teste para saber a eficiência do uso da Lava Jato como ferramenta de propaganda política de massa nas eleições de 2018.
O experimento começou a ser montado há uns dois meses. Por estar envolvido na busca de informações sobre as mudanças no cotidiano das redações, eu estou lendo, ouvindo e vendo tudo o que é publicado sobre os grandes assuntos nacionais do momento. E, nos últimos dois meses, tenho observado uma frase sendo publicada e falada aqui e ali, principalmente entre os comentaristas políticos:
– Onde estão as pessoas que batiam panelas nas ruas?
Elas apareceram, sem as panelas, no fim de semana. A pergunta aqui é: como essa frase foi parar no nosso meio? Como repórter, eu lembro o seguinte: nós somos muito vulneráveis a uma frase que sintetize ou questione um episódio. E elas são soltas nas mesas dos botecos, nos cafés e em outros locais que frequentamos. Nos meus 40 anos de repórter investigativo, boa parte deles foi fazendo cobertura de conflitos agrários nos sertões do Brasil. E não foi uma ou duas vezes. Mas, muitos vezes que estava sentado em um boteco com os colegas, depois da enviar a matéria para redação, do nada, na mesa ao lado, pessoas começavam a falar frases do nosso interesse. Muitas delas acabaram nas páginas dos jornais. E, depois que o jornal publica, a frase interessante vira um fato.
Essa técnica de infiltrar informações entre os jornalistas nasceu na Guerra Fria e foi muito usada contra os movimentos sociais nos anos 1980. Hoje, é muito usada para testar modelos de publicidade pelos marqueteiros políticos. Há uma conversa forte entre eles sobre a possibilidade de haver uma polarização na campanha presidencial entre o ex-presidente Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC – RJ). Se o Lula se mantiver como um candidato forte, seja Bolsonaro ou qualquer outro seu adversário, o certo é que os conteúdos da Lava Jato serão usados como projéteis contra a candidatura do ex-presidente.
Entre os marqueteiros políticos, hoje a Lava Jato é um produto que está sendo testado para calibrar o discurso dos clientes durante a campanha de 2018. Nós, os repórteres, temos que ficar atentos para saber separar a Lava Jato do juiz Moro e dos marqueteiros políticos. Não podemos dar uma de papagaio e sair por aí repetindo as bobagens do marketing político. Lembrar que uma pessoa está sendo investigada é uma coisa. Acusá-la de um crime sem condenação é outra coisa.

No terceiro aniversário da Operação Lava Jato, não devemos esquecer que, em maio, o Mensalão completa 12 anos. Além de serem informações preciosas para o leitor, esmiuçar o que existe em comum entre os dois fatos é um bom exercício para os jovens repórteres que estão peleando por espaços na profissão. Há muita coisa comum, e todas elas podem ser encontradas com facilidade nos noticiários armazenados na internet. Mas existem dois fatos comuns à Lava Jato e ao Mensalão que gostaria de refletir com meus colegas repórteres, especialmente os jovens.
Um dos fortes motivos de ter existido um Mensalão, existir uma Lava Jato e da existência de fortes indícios de que novos escândalos estão vindo por aí é o desvirtuamento do uso do foro privilegiado. E não legalização e a falta de regulamentação da profissão de lobista. Vamos esmiuçar estes dois motivos. Foro privilegiado – em linhas gerais, estabelece que os crimes envolvendo pessoas na execução de mandato popular ou no exercício de altos cargos no governo – sejam julgados por uma corte qualificada, que pode ser o Supremo Tribunal Federal (STF). O cerne do foro é proteger a liberdade de atuação do ocupante do cargo – mandato ou uma alta função pública. Ele existe em vários países do mundo.
Mas, no caso Brasil, senadores, deputados federais e ministros estão fazendo uso do foro privilegiado para escapar da punição de vários crimes, entre eles a corrupção. Como está sendo demonstrado pela força-tarefa e pelo juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato, e foi descrita com riqueza de detalhes no julgamento do Mensalão pelo relator, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Recentemente, o presidente, Michel Temer (PMDB-SP) tornou Moreira Franco ministro-chefe da Secretaria- Geral da Presidência da República. O envolvimento do ministro com propina é citado 34 vezes na delação premiada feita na Lava Jato por Cláudio Melo Filho, ex- presidente de Relações Institucionais da Odebrecht.
Moreira Franco, deputados federais e senadores sabem que ser julgado pelo STF não significa que serão inocentados (os condenado do Mensalão estão aí de prova). Mas que a tramitação dos seus processos será mais lenta do que na Justiça Federal, por exemplo. Portanto, é justamente “mais tempo” que eles procuram ou, usando o jargão dos repórteres: empurrar com a barriga. É natural que o STF demore mais devido à complexidade do seu funcionamento e à vasta quantidade de processos tramitando. O que não é natural é os parlamentares e ministros usarem o fora privilegiado para adiar o tempo de responder pelos seus crimes.
E sem condenação, os parlamentares poderão se candidatarem nas próximas eleições – ficam fora da Lei da Ficha Limpa. Ou seja: segue o baile, como se fala na fronteira gaúcha.
A regulamentação da profissão de lobista também é fundamental para livrar o país dos escândalos. Uma empresa, um grupo político e uma organização não governamental têm o direito fazer lobby dos seus interesses junto aos parlamentares. Isso acontece em países como os Estados Unidos. Só que essa defesa tem que ser feita de maneira transparente e dentro da lei. No Brasil, os parlamentares não são convencidos a defender os interesses de grupos ou empresas. Eles são pagos para isso – como está fartamente documentado no Mensalão e na Lava Jato.
Não é a economia que impede o Brasil de ser um país desenvolvido. Mas coisas como o desvirtuamento do uso do foro privilegiado e a clandestinidade dos lobistas. Quem irá confiar em um país onde os parlamentares são corrompidos e seguem sendo reeleitos e o lobby é clandestino ? Nós, repórteres, temos que lembrar aos nossos leitores que esses dois problemas precisam serem resolvidos.

De dentro de uma cela, no Complexo Médico-Penal de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) está conseguindo nomear seus aliados políticos para cargos no governo do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP). A influência de Cunha foi denunciada pelo senador Renan Calheiro (PMDB-AL), que teve uma conversa de uma hora e meia com Temer sobre o assunto.
Renan foi muito contundente em sua denúncia e levou uma lista dos aliados de Cunha, que foi amplamente divulgada na imprensa – entre eles o atual ministro da Justiça, o deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR). Como repórter, nós temos que ver onde ninguém enxerga. Em outubro do ano passado, o juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, decretou a prisão preventiva de Cunha. Alegou o juiz que, mesmo tendo o seu mandato cassado, o ex-deputado continuava articulando contra a Lava Jato. Pelo relato do senador Renan, os muros da penitenciária não detiveram o poder de Cunha.
Ao continuar operando dentro da cadeia, Cunha está agindo como fazem os grandes chefes de quadrilha. Pessoas como como Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, cabeça do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, figura poderosa do Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro. Marcola e Beira-Mar usam uma rede de pessoas – parentes, amigos e advogados – para mandar ordens aos seus gestores, bandidos que cuidam dos negócios das facções – tráfico de drogas, guerras por território e demonstrações de força perante o estado.
Renan não comparou Cunha a Beira-Mar e Marcola. Mas, ao falar que ele está agindo de dentro da cadeia, a imagem que vem na cabeça do grande público é a dos chefes de facções dando ordens de dentro das penitenciárias para os seus cúmplices: matar, incendiar ônibus e liquidar os seus inimigos, como foi o caso do confronto entre o PCC e o CV nos presídios de Manaus (AM) e Boa Vista (RR), que resultou em 150 mortos, muitos decapitados. Se Cunha, mesmo encarcerado, continua praticando o crime pelo qual foi decretada a sua preventiva, o juiz Moro vai agir. Lembramos que o juiz já impediu que Cunha constrangesse Temer com perguntas – que seriam feitas durante o depoimento do presidente como testemunha de defesa do ex-parlamentar.
Aqui convoco os meus colegas repórteres, principalmente os jovens, a uma reflexão. O senador é um dos políticos mais astutos em atividade, responde a processos e investigações e continua navegando no mar bravo da política. Se Cunha for condenado e colocado em um regime de prisão isolado, ele deixa um espólio político – senadores e deputados federais – considerável. Segundo algumas fontes, somaria mais de 100 parlamentares. Renan está de olho no espólio de Cunha. A briga pelo espólio do ex-parlamentar segue a lógica do mundo de Beira-Mar e Marcola, onde, quando um chefe de quadrilha morre, seu rival assume o lugar.

Imagine-se a bordo de um navio em alto mar, navegando em meio a uma severa tempestade. Você entra na cabine de comando e não encontra ninguém no leme. Essa é a imagem que o atual governador do RS, José Ivo Sartori (PMDB), passa para os gaúchos do seu governo. E essa sensação de que ninguém está no poder tem exercido uma influência forte na atual onda de violência que varre o Rio Grande do Sul, em especial a Região Metropolitana de Porto Alegre.
Sempre que o cidadão, o bandido e o policial olham para o Palácio Piratini e têm a sensação que o seu ocupante não sabe o que está fazendo na área de segurança pública, nas ruas instalasse um salve-se quem puder. Já aconteceu antes, basta vasculhar os registros na história do Estado. A situação do governador é complicada: não há dinheiro para pagar em dia os funcionários, nem para tocar as obras públicas. Na Assembleia Legislativa, tenta convencer os deputados a apoiar um pacote de medidas, na sua grande maioria, impopulares e de efeito duvidoso de seus resultados.
Essa é a conjuntura. Mas ela não pode ser o motivo de Sartori deixar a sensação de que não está no leme. Outros governadores, como Pedro Simon (PMDB), Olívio Dutra (PT) e Yeda Crusius (PSDB), enfrentaram crises muito semelhantes à de hoje, e não lembro de terem dado a sensação de estarem afastados dos problemas de segurança pública. Mais uma coisa: levando em conta todas as limitações que a situação econômica do Estado impõem ao atual governador, nada justifica as decisões erradas que tem tomado na condução dos assuntos da segurança. Como, por exemplo: a nomeação de Cezar Schirmer, ex-prefeito de Santa Maria.
Não se trata da competência de Schirmer para tratar dos assuntos de segurança. Mas do fato de ter sido o prefeito de Santa Maria quando aconteceu a tragédia da Boate Kiss –na madrugada de 27 de janeiro de 2013, um incêndio matou 242 pessoas e feriu outras mais de 600. A nomeação de Schirmer para a segurança foi uma bofetada na cara dos gaúchos. Além de ele ter ficado marcado pela tragédia, ainda há o fato de hoje ser o chefe dos delegados que conduziram as investigações da Kiss e dos bombeiros que trabalharam no incêndio.
O governador poderia ter nomeado Schirmer para qualquer outro cargo, menos para secretário de Segurança, em substituição ao Wantuir Jacini, outra escolha errada do governador. Jacini foi secretário da segurança do Mato Grosso do Sul. Natural de São Gabriel, ele é delegado aposentado Polícia Federal (PF) e viveu a maior parte da sua vida fora do Estado. Portanto, longe dos nossos problemas. Mais uma coisa: logo que assumiu o governo, Sartori fez mudanças na Polícia Civil e na Brigada Militar (BM), que paralisaram investigações importantes. Esta paralisação deu tempo para os bandidos se reorganizarem. Um dos resultados da paralisação das investigações é o recrudescimento do roubo de carros e o arrombamento de caixas eletrônicos no interior do Estado.
Como repórteres, nós temos que analisar a onda de violência como quem procura as causas da queda de um avião, em que nunca existe um único fato, mas uma sequência de acontecimentos. Portanto, não podemos atirar o atual descontrole da segurança pública somente nas costas da crise econômica. Claro, ela é um dos motivos. Mas não é o único. Basta dizer que apesar de estarem com seus salários fatiados e muitas de suas viaturas caindo aos pedaços, os agentes da Polícia Civil, a BM e os outros órgãos da segurança estão trabalhando. Falta o governador botar a mão na massa.

O ministro licenciado da Casa Civil, Eliseu Padilha, 71 anos, não depende da sua volta ao cargo para permanecer operando como uma peça vital no sistema de sustentação política do governo do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP). Padilha, o senador Romero Jucá (PMDB – RR), ex-ministro do Planejamento, Geddel Vieira Lima, ex-ministro da Secretaria de Governo, e Moreira Franco, atual ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, são pessoas que discutem, planejam e executam as articulações políticas que sustentam Temer. Eles foram os organizadores da aliança das várias forças partidárias ao redor do então vice-presidente Temer no processo de impeachment da presidente da República, Dilma Rousseff (PT – RS).
Não é a gratidão que mantém Temer fiel aos quatro políticos. Aliás, gratidão e fidelidade são coisas que não existem no jogo político. Existem oportunidades geradas pela soma de fatos que formam a conjuntura política. E pelas ligações que os quatro mantêm com senadores, deputados federais e governadores, eles são fundamentais para agirem na conjuntura política e dar sustentação ao governo Temer. É isso que mantém o presidente da República ligado ao grupo. Para fazer esse trabalho, os quatro não precisam de cargos, apenas de telefone celular e mensageiros para fazer os contatos.
Padilha, Jucá, Geddel e Moreira Franco também não trabalham unidos por ideais patrióticos – eles têm problemas com a operação Lava Jato. Mas pela conveniência de somar forças políticas e tornarem-se indispensáveis para Temer manter o poder. Para nós, repórteres, principalmente os jovens, saber como opera esse grupo que sustenta Temer é fundamental para informar corretamente aos nossos leitores. Entre os quatro, Padilha não é o mais astuto. Mas é o mais organizado: ele tem uma rotina espartana de trabalho. Eu o conheci nos anos 1980, quando era advogado e empresário da construção civil em Tramandaí (RS), no Litoral Norte. Na época, eu era repórter especial de Zero Hora, que mantinha uma sucursal, durante o verão, em Tramandaí, onde ele foi prefeito pelo PMDB. A disputa política na cidade era feroz. Ele conseguiu influência política na região e se elegeu deputado federal.
Ele não tem amigos ou inimigos políticos. Padilha tem aliados de ocasião. Sua mestra na política é a conjuntura. Ele age conforme o rumo dos acontecimentos. No frigir dos ovos, como se fala no jargão dos repórteres, não é Padilha que precisa do Temer. É Temer quem precisa de Padilha.

Primeiro, e com sucesso, o governo do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), vendeu a ideia de que as reformas econômicas propostas, entre elas cortes no orçamento e reestruturação da previdência social, seriam fundamentais para a retomada da economia e, com a ela, a volta do emprego. Depois, com maestria, blindou os seus ministros e a base parlamentar aliada contra as suspeitas do envolvimento em falcatruas denunciadas nas delações premiadas da Operação Lava Jato, por conta da necessidade de aprovar na Câmara Federal e no Senado as reformas. É comum ouvir, ler e ver nos noticiários, logo após a divulgação de uma notícia do conteúdo de uma delação premiada envolvendo alguém do governo em falcatruas, o comentário sobre se irá ou não prejudicar o andamento das reformas econômicas. O jornalista não tem como não fazer esse comentário. E a relevância da retomada do emprego – em um país com 25 milhões de desempregados, quase a população da Argentina – se encarrega de tornar a aprovação das reformas econômicas o centro da notícia. É assim, de escândalo em escândalo, que o governo Temer vai consolidando as suas reformas.
A estratégia do governo é inteligente. Gostaria de fazer uma reflexão com os meus colegas repórteres, principalmente com aqueles que estão começando a profissão, sobre essa estratégia. Ela não nasceu agora. Vamos vasculhar a história. Durante a Guerra do Vietnã (1965 a 1973), as Forças Armadas dos Estados Unidos permitiram que os repórteres tivessem acesso aos campos de batalha. No noticiário da noite, os americanos assistiam seus filhos sendo mortos pelos sul-vietnamitas. Logo se formou um movimento contrário à guerra que teve um papel decisivo na derrota das tropas americanas. O governo americano aprendeu a lição. Na Guerra do Golfo (1990 a 1991), quando os americanos lutaram com as tropas do Iraque, as Forças Armadas dos Estados Unidos não permitiram que os repórteres andassem livres pelos campos de batalha. A cobertura foi feita em coletivas de imprensa, onde os militares mostravam gráficos e desenhos. Daí nasceu a expressão “Guerra Cirúrgica”, onde só os alvos eram atingidos. Mais tarde, graças ao trabalho de repórteres, a verdade veio à tona e mostrou os efeitos colaterais dos bombardeios: centenas de civis mortos. Anos depois, as Forças Armadas dos Estados Unidos venderam para a opinião pública a justificativa que o Iraque tinha armas de destruição em massa para invadir o país. As armas não foram encontradas, e os americanos se enfiaram em mais um atoleiro.
No Brasil, não podemos deixar de esmiuçar para os nossos leitores o perfil dos homens que estão no governo, envolvidos com a Lava Jato, Eles são apontados como necessários para passar as reformas econômicas na Câmara e no Senado. Muitos deles estão fora da cadeia, graças ao fórum privilegiado por serem parlamentares. Eles não são Robin Hood – lendário bandido inglês que roubava dos ricos para dar aos pobres. São pessoas que precisam dar explicações para a Justiça.
Eu sei como é o louco cotidiano de uma redação, fiquei lá 30 e poucos anos como repórter especial. Também sei que o contexto atual tornou o repórter um cara que faz todas as mídias – significa trabalhar que nem um louco. Mas digo o seguinte: o momento é único na história do Brasil. Temas como a reforma da Previdência Social, que mexe com a vida de todo mundo, estão sendo tratados por pessoas que têm as mãos sujas pelo dinheiro alheio. Usando o jargão dos repórteres: Temer está usando a estratégia de colocar o bode na sala. Nós podemos mostrar que o problema não é o bode.