Categoria: Lava Jato

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Até as pedras das ruas do Brasil sabem duas verdades que há muitos anos correm de boca em boca entre o povo. O jogo do bicho é ilegal. Mas as apostas podem ser feitas em qualquer esquina, graças a um sistema de corrupção de autoridades, principalmente de policiais, que os bicheiros montaram. As obras públicas são caras, demoradas e, muitas, malfeitas, porque os empreiteiros superfaturam o serviço para pagar propina aos políticos. A história dos bicheiros é mais antiga e conhecida do que a dos parlamentares. Eu conheço bem por ter feito várias reportagens investigativas sobre o assunto em Zero Hora. A primeira foi no início dos anos 90, “Os senhores do jogo do bicho”, e mostrava quem eram os bicheiros, o território que dominavam e os policiais que corrompiam no Rio Grande do Sul. Os maiores e mais poderosos bicheiros se concentram no eixo Rio/São Paulo, onde financiam o Carnaval, entre outras coisas. No último século, os bicheiros não só sobreviveram como se adaptaram aos novos tempos e, agora, operam jogos de azar virtuais e ganham milhões diariamente. A longevidade é garantida pela corrupção policial e por o jogo do bicho ser considerado contravenção – um delito de menor pena. Muito embora os bicheiros resolvam suas disputas na bala, os jornais têm documentado os confrontos. A legalização seria uma saída para resolver o problema.
O sistema de corrupção de parlamentares operado pelos empreiteiros nunca teve o mesmo glamor que o dos bicheiros. Mas tem a mesma eficiência. Basta dar uma olhada nas informações levantadas pela força-tarefa da Operação Lava Jato. A lista de Janot – procurador-geral da República, Rodrigo Janot –, que pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para investigar e abrir inquérito contra uma centena de atuais e ex-parlamentares, é uma prova disso. Ontem, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, determinou a abertura dos inquéritos e das investigações. É a primeira vez na história brasileira que as entranhas da corrupção de parlamentares por empreiteiros vem a público com tantos detalhes. Mas uma coisa é certa: como o fato de ser considerado uma contravenção – delito de menor potencial – tem assegurado a longevidade do jogo do bicho, o foro privilegiado, direito que parlamentes e ministros têm de só serem julgados pelo STF, vai assegurando a sobrevivência desse tipo de corrupção. Os julgamentos no STF levam muito mais tempo para acontecer do que na Justiça Federal. Os parlamentares apostam nisso.
Vamos olhar o futuro. Desafio meus colegas repórteres, principalmente os novatos. Mesmo que a força-tarefa consiga desmontar a máquina de corrupção das empreiteiras que corrompe parlamentares. Tudo indica que isso acontecerá. Se parlamentares e ministros continuarem com foro privilegiado, é certo que consigam outra maneira de arrumar dinheiro ilegal. Certa vez, ouvi de um agente da Polícia Federal (PF), em um lugar esquecido por Deus, na fronteira do Brasil com o Paraguai, a seguinte frase:
– Quando a gente descobre um sistema que está sendo usado pelos quadrilheiros para nos enganar, eles inventam outro mais aperfeiçoado.
Quem pode garantir que já não inventaram outro sistema de financiar ilegalmente a eleição?

Baixada a poeira das manifestações de apoio à Operação Lava Jato no fim de semana, é a hora de o repórter olhar com profundidade o que aconteceu. O movimento não teve como alvo principal proteger o trabalho do juiz federal Sérgio Moro e a força-tarefa que conduz as investigações. Até porque a operação avança de maneira muito sólida. O que nós vimos foi um teste para saber a eficiência do uso da Lava Jato como ferramenta de propaganda política de massa nas eleições de 2018.
O experimento começou a ser montado há uns dois meses. Por estar envolvido na busca de informações sobre as mudanças no cotidiano das redações, eu estou lendo, ouvindo e vendo tudo o que é publicado sobre os grandes assuntos nacionais do momento. E, nos últimos dois meses, tenho observado uma frase sendo publicada e falada aqui e ali, principalmente entre os comentaristas políticos:
– Onde estão as pessoas que batiam panelas nas ruas?
Elas apareceram, sem as panelas, no fim de semana. A pergunta aqui é: como essa frase foi parar no nosso meio? Como repórter, eu lembro o seguinte: nós somos muito vulneráveis a uma frase que sintetize ou questione um episódio. E elas são soltas nas mesas dos botecos, nos cafés e em outros locais que frequentamos. Nos meus 40 anos de repórter investigativo, boa parte deles foi fazendo cobertura de conflitos agrários nos sertões do Brasil. E não foi uma ou duas vezes. Mas, muitos vezes que estava sentado em um boteco com os colegas, depois da enviar a matéria para redação, do nada, na mesa ao lado, pessoas começavam a falar frases do nosso interesse. Muitas delas acabaram nas páginas dos jornais. E, depois que o jornal publica, a frase interessante vira um fato.
Essa técnica de infiltrar informações entre os jornalistas nasceu na Guerra Fria e foi muito usada contra os movimentos sociais nos anos 1980. Hoje, é muito usada para testar modelos de publicidade pelos marqueteiros políticos. Há uma conversa forte entre eles sobre a possibilidade de haver uma polarização na campanha presidencial entre o ex-presidente Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC – RJ). Se o Lula se mantiver como um candidato forte, seja Bolsonaro ou qualquer outro seu adversário, o certo é que os conteúdos da Lava Jato serão usados como projéteis contra a candidatura do ex-presidente.
Entre os marqueteiros políticos, hoje a Lava Jato é um produto que está sendo testado para calibrar o discurso dos clientes durante a campanha de 2018. Nós, os repórteres, temos que ficar atentos para saber separar a Lava Jato do juiz Moro e dos marqueteiros políticos. Não podemos dar uma de papagaio e sair por aí repetindo as bobagens do marketing político. Lembrar que uma pessoa está sendo investigada é uma coisa. Acusá-la de um crime sem condenação é outra coisa.

No terceiro aniversário da Operação Lava Jato, não devemos esquecer que, em maio, o Mensalão completa 12 anos. Além de serem informações preciosas para o leitor, esmiuçar o que existe em comum entre os dois fatos é um bom exercício para os jovens repórteres que estão peleando por espaços na profissão. Há muita coisa comum, e todas elas podem ser encontradas com facilidade nos noticiários armazenados na internet. Mas existem dois fatos comuns à Lava Jato e ao Mensalão que gostaria de refletir com meus colegas repórteres, especialmente os jovens.
Um dos fortes motivos de ter existido um Mensalão, existir uma Lava Jato e da existência de fortes indícios de que novos escândalos estão vindo por aí é o desvirtuamento do uso do foro privilegiado. E não legalização e a falta de regulamentação da profissão de lobista. Vamos esmiuçar estes dois motivos. Foro privilegiado – em linhas gerais, estabelece que os crimes envolvendo pessoas na execução de mandato popular ou no exercício de altos cargos no governo – sejam julgados por uma corte qualificada, que pode ser o Supremo Tribunal Federal (STF). O cerne do foro é proteger a liberdade de atuação do ocupante do cargo – mandato ou uma alta função pública. Ele existe em vários países do mundo.
Mas, no caso Brasil, senadores, deputados federais e ministros estão fazendo uso do foro privilegiado para escapar da punição de vários crimes, entre eles a corrupção. Como está sendo demonstrado pela força-tarefa e pelo juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato, e foi descrita com riqueza de detalhes no julgamento do Mensalão pelo relator, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Recentemente, o presidente, Michel Temer (PMDB-SP) tornou Moreira Franco ministro-chefe da Secretaria- Geral da Presidência da República. O envolvimento do ministro com propina é citado 34 vezes na delação premiada feita na Lava Jato por Cláudio Melo Filho, ex- presidente de Relações Institucionais da Odebrecht.
Moreira Franco, deputados federais e senadores sabem que ser julgado pelo STF não significa que serão inocentados (os condenado do Mensalão estão aí de prova). Mas que a tramitação dos seus processos será mais lenta do que na Justiça Federal, por exemplo. Portanto, é justamente “mais tempo” que eles procuram ou, usando o jargão dos repórteres: empurrar com a barriga. É natural que o STF demore mais devido à complexidade do seu funcionamento e à vasta quantidade de processos tramitando. O que não é natural é os parlamentares e ministros usarem o fora privilegiado para adiar o tempo de responder pelos seus crimes.
E sem condenação, os parlamentares poderão se candidatarem nas próximas eleições – ficam fora da Lei da Ficha Limpa. Ou seja: segue o baile, como se fala na fronteira gaúcha.
A regulamentação da profissão de lobista também é fundamental para livrar o país dos escândalos. Uma empresa, um grupo político e uma organização não governamental têm o direito fazer lobby dos seus interesses junto aos parlamentares. Isso acontece em países como os Estados Unidos. Só que essa defesa tem que ser feita de maneira transparente e dentro da lei. No Brasil, os parlamentares não são convencidos a defender os interesses de grupos ou empresas. Eles são pagos para isso – como está fartamente documentado no Mensalão e na Lava Jato.
Não é a economia que impede o Brasil de ser um país desenvolvido. Mas coisas como o desvirtuamento do uso do foro privilegiado e a clandestinidade dos lobistas. Quem irá confiar em um país onde os parlamentares são corrompidos e seguem sendo reeleitos e o lobby é clandestino ? Nós, repórteres, temos que lembrar aos nossos leitores que esses dois problemas precisam serem resolvidos.

Em vastas regiões do Brasil e entre as classes populares dos grandes centros urbanos, na disputa das eleições de 2018, principalmente para presidente, o peso da violência – crimes contra o patrimônio e a pessoa – vão ter mais peso que a operação Lava Jato, que apura a corrupção entre empresários, políticos e assessores.
Não estou comparando qual dos crimes é o mais importante. Estou comparando o poder da imagem divulgada para o público. A força-tarefa da Lava Jato mostra o seu trabalho em entrevista coletivas, com gráficos e áudios de interceptação telefônica entre os suspeitos e explicações técnicas da relação entre os fatos divulgados. O impacto fica por conta dos nomes dos políticos divulgados.
Mas, quando falamos em impacto a imagem não é páreo para as cenas de brutalidade dos massacres provocados pelo enfrentamento do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, com o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, nas cadeias de Manaus (AM) e Boa Vista (RR), onde empilharam 90 corpos, muitos sem cabeça. Ou para os relatos dos familiares martirizados pela morte de um dos seus nas centenas de roubos de veículos que acontecem diariamente no Brasil. Ou ainda para as lágrimas dos pais das muitas crianças que são mortas no fogo cruzado na troca de tiros entre a polícia e as quadrilhas.
Se eu fosse cientista social a minha avaliação deste quadro seria cientifica. Sou repórter, com 40 anos de estrada, portanto vou relatar o que vejo de imediato. Não é de hoje, mas já são velhos conhecidos dos brasileiros os crimes do colarinho branco apurados pela Lava Jato. O que chama atenção agora é o fato de eles estarem indo para a cadeia. Como também as barbaridades resultantes dos confrontos do PCC com o CV e da violência diária sofrida pela população. A diferença é o grau de crueldade dos bandidos.
As novas tecnologias e a popularização da internet tornaram consumidores de informações uma vasta fatia da população brasileira espalhada de norte a sul, de leste a oeste. Muito mais que as palavras escritas, as imagens dão uma mensagem curta, rasteira e impactante. Seja através do WhatsApp, do Facebook ou de outra mídia, os vídeos correm o país em uma velocidade espantosa, principalmente pelo celular. Só para se ter uma ideia: em 2014, quando a Dilma Rousseff (PT) foi reeleita para presidente do Brasil existia no país, em números redondos, 274 milhões de celulares. Em 2018, a previsão é de 350 milhões. A população do país é de 212 milhões de habitantes, portanto dá mais de um aparelho por pessoa.
Como repórteres temos que ficar atentos aos discursos que vem por aí. Tem muito mais em jogo do que uma eleição. Não é a única explicação, mas o crescimento do deputado Jair Bolsonaro (PSC), nas últimas pesquisas da CNT/MDA precisa ser analisada de perto. Ele tem um discurso simples, agressivo e inconsequente, que entra como uma luva neste tipo de contexto. O governo federal já se deu conta e tem feito lançamento midiáticos de iniciativas, tipo Plano Nacional de Segurança, com um amontoado de boas intenções.

Ao indicar o ex-ministro da Justiça Alexandre de Moraes, 54 anos, para o Supremo Tribunal Federal (STF), o grupo político do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), 76 anos, deu visibilidade à estratégia que está usando para enfrentar a Operação Lava Jato. Eles estão corroendo a operação por dentro. É o mesmo modo operacional usado com sucesso e que resultou na queda da companheira da chapa de Temer, a então presidente da República, Dilma Rousseff (PT – RS), 69 anos,
A estratégia é simples é eficiente. Mas requer um grupo muito coeso e bem informado sobre o contexto para executá-la. É o caso das 10 pessoas de confiança que cercam Temer. Eles descobrem as vulnerabilidades do alvo e atacam. No caso de Dilma, existia uma lista enorme de contradições nas alianças políticas de sustentação do governo e na execução da economia. Na Lava Jato, é mais simples. Ela é executada por funcionários públicos federais – juiz, procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da Polícia federal (PF). Muito embora sejam ligados a poderes diferentes da União, a administração entre os poderes é interligada e tem padrões burocráticos de funcionamento, semelhantes em qualquer outro país do mundo. Um exemplo da vulnerabilidade da Lava Jato perante a máquina administrativa: uma inocente mudança de norma na tramitação de um pedido pode acarretar atrasos na liberação, por exemplo de uma diária de um policial federal. O atraso tem imenso potencial de fazer danos a uma investigação – que é um processo em que os acontecimentos têm a sua velocidade própria. Nos meus 40 anos como repórter investigativo, já vi isso acontecer. E não tem como saber se o atraso da diária foi por negligência ou dolo.
O fundamental desta estratégia é que ela não bate de frente com o alvo, no caso, a Operação Lava Jato, que tem imenso respaldo popular, graças ao trabalho de uma força-tarefa (formada por procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da PF) e do juiz federal Sérgio Moro. Dentro desta lógica de luta do grupo de Temer é que aconteceu a indicação do Moraes para ocupar a vaga no STF deixada pelo ministro Teori Zavascki, 69 anos, relator da Lava Jato, que morreu na queda de um bimotor em Paraty, no Rio de Janeiro. A indicação de Moraes ocupou enormes espaços nos noticiários, não poderia ser diferente. Além de ministro da Justiça, ele era quadro do PSDB e, se a sua indicação for aprovada pelo Senado, ele será ministro do STF e revisor dos processos relacionados à Operação Lava Jato no plenário da Corte. O grupo político de Temer sabe que a indicação não é garantia de que Moraes irá agir a favor deles. Por exemplo: Joaquim Barbosa, indicado pelo então presidente, Lula (PT), durante o julgamento do Escândalo do Mensalão – procure no Google – mandou, sem cerimônia, para a cadeia várias pessoas ligadas ao então governo. Há outras dezenas de exemplos. Mesmo se Moraes resolvesse contrariar, o que tem sido uma regra entre os indicados para o STF, a lentidão no andamento dos processos na Corte acabaria beneficiado os envolvidos os envolvidos na Lava Jato.
A grande contribuição que a indicação de Moraes trouxe no presente para o grupo político do Temer foi a de a mídia acreditar e espalhar que estava dando um tiro no pé. Não é por aí. Logo a seguir, espalhou-se que o substituto de Moraes, no Ministério da Justiça, poderia causar danos à Operação Lava Jato. Sempre é possível. Mas, se for descoberto, ele não dura 24 horas no cargo. Começo, profundamente, o modo de operar de cinco, dos 10 que fazem parte do núcleo do grupo político do Temer. São homens com larga experiência de agir nas sombras. Eles já fizeram uma queima de arquivo, livraram-se do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB – RJ), figura fundamental da queda de Dilma. Cunha perdeu o mandato e hoje cumpre prisão preventiva em Curitiba (PR). A próxima queima de arquivo será a do ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB – AL), homem astuto e bem articulado que jogou nos dois lados na queda da Dilma. Portanto, ele é aliado de quem vence. O que significa que amanhã pode se tornar um inimigo poderoso, ouvi de uma pessoa bem próxima a um dos 10 políticos do grupo do Temer.
Esse é o cenário da luta. Um desafio para o repórter acompanhar, porque está sendo travada entre quadro paredes.

No jargão dos repórteres que trabalham com investigação é classificado como “pesadelo” o caso da morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da Operação Lava-Jato, Teori Zavascki. Vejamos: a fila de suspeitos dá a volta em um quarteirão, todos engravatados, em um ambiente contaminado pela paixão política, onde impressiona o volume de informações duvidosas circulando nas redes sociais e nos noticiários. Soma-se a isso o enlouquecimento dos editores das redações trazido pela pressão dos concorrentes. O famoso bafo na nuca.
Este é o quadro. Nos 40 anos que faço matéria investigativa trabalhei diversas vezes em situações consideradas “pesadelo”. Aprendi alguns caminhos que vou compartilhar com os colegas. O primeiro mandamento: aumente grau de desconfiança com as informações vindas das “fontes confiáveis”, afinal elas também estão contaminadas pelo elevado volume de dados circulando.
Normalmente, o repórter começa a trabalhar apostando em mais de uma linha de investigação. Mas, neste tipo de caso o “bafo da nuca”, não pode se permitir a tal luxo. O caminho escolhido pelo repórter tem de garantir duas coisas: uma produção de novidades de curto prazo e um bom grau de confiabilidade da notícia que está publicando.
Dentro deste contexto, um dos caminhos é focar em aspectos já definidos na investigação, que ao seu entendimento seja fundamental na apuração dos fatos. No caso do ministro, um dos atores da cena do desastre é o avião – Prefixo: PR- SOM, modelo Hawker Beechft King Air C90. A linha de investigação aqui não é o resultado da perícia, que não pode ser esquecido, mas deve demorar. E sim a rotina da aeronave. Temos que tratar como se fosse uma pessoa. O que aconteceu com ela nos últimos 30 dias. Saber por onde e com quem a bordo andou. Quem são os mecânicos responsáveis pela sua manutenção e o pessoal da limpeza. Onde ela fica estacionada quando está fora de trabalho. Saber se o lugar tem segurança ou não. Dar uma olhada no histórico dos últimos abastecimentos de combustível – ficar atento a quebra de rotina.
Se o avião foi sabotado ou não, uma investigação na rotina da aeronave tem grandes chances de esclarecer o caso. A morte do ministro, e de mais quatro pessoas que estavam na aeronave, me lembrou um filme chamado Dossiê Pelicano, que trata do assassinato de juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos e dos candidatos que iriam substituí-los.
Segue o link para quem tiver o interesse de assisti-lo: https://www.youtube.com/watch?v=BrqugcBLttw.

A maneira como estamos informando os leitores dá a entender que são fatos isolados três acontecimentos que sacodem o Brasil: a guerra entre facções criminosas, envolvendo, de um lado, o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e, de outro, o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e seu aliado Família do Norte (FDN), de Manaus (AM), que empilham cadáveres decapitados e esquartejados pelos presídios e ruas do país; as articulações do grupo que conspirou e derrubou a presidente Dilma Rousseff (PT-RS); e o trabalho da força-tarefa formada por procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da Polícia Federal (PF) na Operação Lava Jato, cujo símbolo é o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba (PR).
Os fatos têm ligação. Basta fazer uma autópsia do contexto político do país e os pontos que os unem irão aparecer.
Um exemplo: a falta de pessoas qualificadas na área de segurança pública no governo federal é resultado da montagem de uma equipe feita às pressas pelos conspiradores. A consequência foram os massacres de presos em Manaus e Boa Vista(RR). Outro exemplo: sem conhecer o contexto do crime organizado do Rio do Janeiro, os investigadores da Lava Jato encarregados dos casos do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB) não levaram em conta que o Rio é território do CV, uma organização com muitas ramificações entre as instituições cariocas e entre os lavadores de dinheiro (eventualmente também conhecidos como doleiros).
Se cavar fundo nos acontecimentos é possível encontrar muita coisa comum entre alguns deles. Há um, em especial, que me preocupa enquanto repórter. Nos massacres de Manaus e Boa Vista, na conspiração para derrubar Dilma e na Lava Jato, o nosso trabalho deixou muito a desejar, tanto que colegas americanos se espantaram com a superficialidade da imprensa brasileira no caso de Dilma.
Justamente no momento que os leitores precisam de um maior volume de informações precisas, as redações estão sendo desmontadas por conta de erros estratégicos dos donos das empresas. Isso resultou em uma vulnerabilidade da apuração jamais vista. Cito como exemplo o seguinte: não se sabe exatamente quando e como o grupo do então vice-presidente Michel Temer decidiu desistir de salvar o mandato de Dilma e assumir o lugar dela. Esclarecer este ponto neste episódio é fundamental para entender o futuro do atual governo do presidente Temer.
No caso da Lava Jato, a cobertura jornalística está produzindo uma Escola de Base por dia, ou seja, um exemplo do que não se deve fazer em jornalismo (relembre o Caso Escola de Base em http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/caso-escola-base-rede-globo-e-condenada-pagar-r-135-milhao.html). Sem condições de fazer uma investigação própria, estamos publicando relatórios da força tarefa como se fossem verdades absolutas. Também fizemos manchetes de conteúdos de delação premiada que ainda não foram investigados.
Na questão das facções, estamos vendendo aos leitores a ideia de que PCC, CV e FDN são organizações formadas por criminosos violentos e ignorantes. A violência a que assistimos é a parte visível destas organizações que funcionam como se fossem grandes empresas administradas por gestores capacitados.
Para entender o que está acontecendo é preciso atar o nó do que está rolando. A história costuma ser cruel com quem publica o fato pela metade.

Até a denúncia apontando o ex-presidente Lula como o grande chefe de todos os desvios de verbas, a força-tarefa fazia uma investigação segura, sem deixar portas abertas para os suspeitos. Como se fala no jargão das redações: estava comendo a polenta quente pelas beiradas. Divulgava um elo da corrente por vez. Na acusação de agora, os investigadores preencheram pontos da apuração com generalizações. Frente a esse procedimento, o jovem repórter deve ficar com um pé atrás. Temos exemplos na história, como o episódio da Escola de Base, de São Paulo: em março de 1994, a imprensa publicou que seis pessoas estariam envolvidas em abuso sexual contra alunos. Proprietários e funcionários da escola foram hostilizados, perderam seus bens e, no final, constatou-se que tudo não passara de um grande equívoco de parte da investigação policial. Outro caso traumático: em 1994, o então forte candidato à Presidência da República, ex-deputado federal Ibsen Pinheiro, foi cassado devido a uma reportagem que transformara US$ 1 mil em US$ 1 milhão. O erro jornalístico só veio à tona em 2004. Os dois exemplos resultaram em processos judiciais, ganhos pelos prejudicados. Um jornalista sentenciado não paga a indenização, a qual recai sobre a empresa onde trabalha. No entanto, como ficam sua reputação e seu nome profissional? O reporteiro calejado sabe que a investigação é uma caminhada longa, cheia de detalhes e de muitas armadilhas. Vejamos a situação do ex-presidente Lula: mesmo que o juiz aceite a denúncia, que ele se transforme em réu e seja punido em todas as instâncias da Justiça, não há como prever se a condenação virá para todos os crimes listados na denúncia. Convém lembrar: denúncias do Ministério Público e relatórios de inquéritos da Polícia são peças que se montam tendo como ponto de partida indícios do que teria de fato acontecido. E o indício geralmente vem do depoimento de uma testemunha, o qual é descrito, por certos advogados, como a prostituta das provas – uma referência politicamente incorreta à mais antiga profissão. É do nosso ofício sermos arrojados e exatos no que publicamos. A desconfiança é nossa maior arma. Devemos evitar as cascas de banana sorrateiramente espalhadas ao longo de uma reportagem. Elas podem abreviar carreiras.