Categoria: repórteres

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Olhando a volatilidade da conjuntura política brasileira, não há como afirmar quem será o próximo presidente da República. Mas podemos afirmar, com certeza, que o PMDB fará parte do governo. E a estrada para o partido chegar lá está sendo pavimentada pelo senador Renan Calheiros (PMDB – AL), ao se posicionar contra o poderoso grupo político que apoia o presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP).
A habilidade com que Calheiros – 61 anos, a maioria deles fazendo política – tem defendido seus interesses – políticos, econômicos e pessoais – no cenário nacional tem assegurado a sua sobrevivência na carnificina que é a disputa parlamentar. A habilidade do senador se sobressai pela sua capacidade de enxergar o futuro.
Qual é o futuro que Calheiros está vendo? Desde a democratização do país, em 1985, o partido tem se mantido no poder, por ser necessário para a governabilidade dentro de uma realidade de enorme fragmentação partidária. A moeda cobrada tem sido cargos na administração federal. A essa realidade, soma-se um fato totalmente novo. O parlamentar enrolado com a Justiça, principalmente com a Operação Lava Jato, que ficar sem o foro privilegiado corre o risco real de ir para a cadeia. Está aí o caso do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB – RJ), que teve seu mandato cassado é está cumprindo pena em um presídio da Região Metropolitana de Curitiba (PR).
Aloja-se no PMDB a maioria dos parlamentares que correm o risco real de ir para a cadeia, se perderem o foro privilegiado. E há uma boa quantidade espalhada por outros partidos. Calheiros é o expoente máximo do grupo – responde a processos e inquéritos policiais. E, ao se posicionar contra o poderoso grupo político que apoia o presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), um dos governos mais impopulares da história do Brasil, o senador está fazendo dois movimentos: o primeiro é acumulando capital político para disputar à reeleição. O segundo, pavimentando caminho para futuras alianças com vista a um cargo com foro privilegiado no futuro governo, caso não seja reeleito.
A situação descrita é o futuro que o senador enxerga e organiza para sobreviver. Antes de finalizar a prosa, vou refletir com os meus colegas repórteres, principalmente os novatos na lida, sobre a votação das reformas da previdência. Se os deputados e senadores, enrolados com a Justiça e da base parlamentar de Temer, sentirem que a sua reeleição pode ser comprometida pelo seu voto, eles racham com o governo. Calheiros é o líder deles.

O PSDB está na maior saia justa. Enfurecido pela derrota na eleição presidencial de 2014, entrou com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a cassação, por abuso do poder econômico, entre outros crimes eleitorais, da chapa reeleita: Dilma Rousseff (PT – RS) e o seu vice de então, Michel Temer (PMDB – SP).
A ação do PSDB no TSE foi apelidada pelo grupo politico que apoiava Dilma como “Terceiro Turno”. Argumentava que o então candidato tucano derrotado, o senador Aécio Neves, havia perdido as eleições nas urnas e, agora, queria ganhar no tapetão – na Justiça. Além da ação, os tucanos também pediram uma auditoria na votação, sob alegação de desconfiança no processo eletrônico. No final, concluíram que não houve fraude.
Uma sucessão de fatos políticos fez a ação contra a chapa ficar fora dos holofotes da mídia. A administração da então presidente Dilma começava a naufragar em problemas econômicos. E o grupo político do seu então vice-presidente, Temer, iniciava uma conspiração para derrubar a presidente. Os problemas econômicos do governo foram turbinados pelas “pautas bomba” do então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB- SP), hoje cassado e cumprindo prisão preventiva em Curitiba (PR), por ser suspeito de estar envolvido em crimes de corrupção que foram apurados pela força-tarefa da Operação Lava Jato. Antes de ser cassado, Cunha instaurou o processo de impeachment de Dilma.
O PSDB participava de maneira discreta do processo de conspiração do grupo político de Temer. Em parte, porque existia um forte debate interno no partido, onde líderes históricos da legenda se posicionavam contra o processo de impeachment. Foram vencidos, e o partido entrou de cabeça na articulação política que resultou na cassação da presidente e na subida ao poder de Temer. Hoje, o partido é da base política do governo e também ocupa cargos na administração.
Enquanto tudo isso acontecia, o processo do PSDB contra a chapa Dilma – Temer continuava tramitando no TSE. A tese de defesa de Temer é que ele não participou da montagem da sustentação econômica da campanha. Nas suas alegações finais no processo, o PSDB fortaleceu a tese do atual presidente. O fato é que, na próxima semana, o TSE vai começar a decidir o destino da chapa Dilma – Temer. Pelo cenário que está se esboçando, a tendência é que o processo seja empurrado com a barriga até o final do mandato em 2018.
Independentemente do resultado do processo, o PSDB criou um constrangimento para o governo do qual faz parte. Imagine a imensa dificuldade que um analista político estrangeiro tem para entender essa história. Agora, nós, repórteres, temos a obrigação de esmiuçar todo o episódio e explicá-lo aos nossos leitores. Lembro, principalmente aos jovens repórteres, que as disputas pelo poder entre os grupos políticos – que podem pertencer ao mesmo partido ou não – são travadas como se fossem batalhas. Para entender o que aconteceu, eu conversei demoradamente com fundadores do PSDB, do PT e do PMDB. E o que aconteceu é bem definido por um provérbio que há muitos anos circula pelo mundo, entre parlamentares e diplomatas, e serve como uma espécie de bússola para fazer as alianças políticas. Ele diz o seguinte: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”.
Esta é a situação. Aécio Neves e seus apoiadores no PSDB são inimigos mortais do grupo político do PT ao qual pertence o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, mentor e criador da candidatura de Dilma. O grupo político de Temer no PMDB sempre travou uma luta acirrada contra o PT por prestígio e cargos no governo. Assim que o governo do PT começou a agonizar, o grupo de Temer buscou uma aliança com o PSDB. O sucesso da aliança tornou Temer o presidente do Brasil. E, aos tucanos, trouxe a incumbência de explicar para a história o processo que tramita no TSE.

No terceiro aniversário da Operação Lava Jato, não devemos esquecer que, em maio, o Mensalão completa 12 anos. Além de serem informações preciosas para o leitor, esmiuçar o que existe em comum entre os dois fatos é um bom exercício para os jovens repórteres que estão peleando por espaços na profissão. Há muita coisa comum, e todas elas podem ser encontradas com facilidade nos noticiários armazenados na internet. Mas existem dois fatos comuns à Lava Jato e ao Mensalão que gostaria de refletir com meus colegas repórteres, especialmente os jovens.
Um dos fortes motivos de ter existido um Mensalão, existir uma Lava Jato e da existência de fortes indícios de que novos escândalos estão vindo por aí é o desvirtuamento do uso do foro privilegiado. E não legalização e a falta de regulamentação da profissão de lobista. Vamos esmiuçar estes dois motivos. Foro privilegiado – em linhas gerais, estabelece que os crimes envolvendo pessoas na execução de mandato popular ou no exercício de altos cargos no governo – sejam julgados por uma corte qualificada, que pode ser o Supremo Tribunal Federal (STF). O cerne do foro é proteger a liberdade de atuação do ocupante do cargo – mandato ou uma alta função pública. Ele existe em vários países do mundo.
Mas, no caso Brasil, senadores, deputados federais e ministros estão fazendo uso do foro privilegiado para escapar da punição de vários crimes, entre eles a corrupção. Como está sendo demonstrado pela força-tarefa e pelo juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato, e foi descrita com riqueza de detalhes no julgamento do Mensalão pelo relator, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Recentemente, o presidente, Michel Temer (PMDB-SP) tornou Moreira Franco ministro-chefe da Secretaria- Geral da Presidência da República. O envolvimento do ministro com propina é citado 34 vezes na delação premiada feita na Lava Jato por Cláudio Melo Filho, ex- presidente de Relações Institucionais da Odebrecht.
Moreira Franco, deputados federais e senadores sabem que ser julgado pelo STF não significa que serão inocentados (os condenado do Mensalão estão aí de prova). Mas que a tramitação dos seus processos será mais lenta do que na Justiça Federal, por exemplo. Portanto, é justamente “mais tempo” que eles procuram ou, usando o jargão dos repórteres: empurrar com a barriga. É natural que o STF demore mais devido à complexidade do seu funcionamento e à vasta quantidade de processos tramitando. O que não é natural é os parlamentares e ministros usarem o fora privilegiado para adiar o tempo de responder pelos seus crimes.
E sem condenação, os parlamentares poderão se candidatarem nas próximas eleições – ficam fora da Lei da Ficha Limpa. Ou seja: segue o baile, como se fala na fronteira gaúcha.
A regulamentação da profissão de lobista também é fundamental para livrar o país dos escândalos. Uma empresa, um grupo político e uma organização não governamental têm o direito fazer lobby dos seus interesses junto aos parlamentares. Isso acontece em países como os Estados Unidos. Só que essa defesa tem que ser feita de maneira transparente e dentro da lei. No Brasil, os parlamentares não são convencidos a defender os interesses de grupos ou empresas. Eles são pagos para isso – como está fartamente documentado no Mensalão e na Lava Jato.
Não é a economia que impede o Brasil de ser um país desenvolvido. Mas coisas como o desvirtuamento do uso do foro privilegiado e a clandestinidade dos lobistas. Quem irá confiar em um país onde os parlamentares são corrompidos e seguem sendo reeleitos e o lobby é clandestino ? Nós, repórteres, temos que lembrar aos nossos leitores que esses dois problemas precisam serem resolvidos.

Primeiro, e com sucesso, o governo do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), vendeu a ideia de que as reformas econômicas propostas, entre elas cortes no orçamento e reestruturação da previdência social, seriam fundamentais para a retomada da economia e, com a ela, a volta do emprego. Depois, com maestria, blindou os seus ministros e a base parlamentar aliada contra as suspeitas do envolvimento em falcatruas denunciadas nas delações premiadas da Operação Lava Jato, por conta da necessidade de aprovar na Câmara Federal e no Senado as reformas. É comum ouvir, ler e ver nos noticiários, logo após a divulgação de uma notícia do conteúdo de uma delação premiada envolvendo alguém do governo em falcatruas, o comentário sobre se irá ou não prejudicar o andamento das reformas econômicas. O jornalista não tem como não fazer esse comentário. E a relevância da retomada do emprego – em um país com 25 milhões de desempregados, quase a população da Argentina – se encarrega de tornar a aprovação das reformas econômicas o centro da notícia. É assim, de escândalo em escândalo, que o governo Temer vai consolidando as suas reformas.
A estratégia do governo é inteligente. Gostaria de fazer uma reflexão com os meus colegas repórteres, principalmente com aqueles que estão começando a profissão, sobre essa estratégia. Ela não nasceu agora. Vamos vasculhar a história. Durante a Guerra do Vietnã (1965 a 1973), as Forças Armadas dos Estados Unidos permitiram que os repórteres tivessem acesso aos campos de batalha. No noticiário da noite, os americanos assistiam seus filhos sendo mortos pelos sul-vietnamitas. Logo se formou um movimento contrário à guerra que teve um papel decisivo na derrota das tropas americanas. O governo americano aprendeu a lição. Na Guerra do Golfo (1990 a 1991), quando os americanos lutaram com as tropas do Iraque, as Forças Armadas dos Estados Unidos não permitiram que os repórteres andassem livres pelos campos de batalha. A cobertura foi feita em coletivas de imprensa, onde os militares mostravam gráficos e desenhos. Daí nasceu a expressão “Guerra Cirúrgica”, onde só os alvos eram atingidos. Mais tarde, graças ao trabalho de repórteres, a verdade veio à tona e mostrou os efeitos colaterais dos bombardeios: centenas de civis mortos. Anos depois, as Forças Armadas dos Estados Unidos venderam para a opinião pública a justificativa que o Iraque tinha armas de destruição em massa para invadir o país. As armas não foram encontradas, e os americanos se enfiaram em mais um atoleiro.
No Brasil, não podemos deixar de esmiuçar para os nossos leitores o perfil dos homens que estão no governo, envolvidos com a Lava Jato, Eles são apontados como necessários para passar as reformas econômicas na Câmara e no Senado. Muitos deles estão fora da cadeia, graças ao fórum privilegiado por serem parlamentares. Eles não são Robin Hood – lendário bandido inglês que roubava dos ricos para dar aos pobres. São pessoas que precisam dar explicações para a Justiça.
Eu sei como é o louco cotidiano de uma redação, fiquei lá 30 e poucos anos como repórter especial. Também sei que o contexto atual tornou o repórter um cara que faz todas as mídias – significa trabalhar que nem um louco. Mas digo o seguinte: o momento é único na história do Brasil. Temas como a reforma da Previdência Social, que mexe com a vida de todo mundo, estão sendo tratados por pessoas que têm as mãos sujas pelo dinheiro alheio. Usando o jargão dos repórteres: Temer está usando a estratégia de colocar o bode na sala. Nós podemos mostrar que o problema não é o bode.

A greve da Polícia Militar do Espírito Santo está deixando um rastro de informações inéditas que precisam ser analisadas com profundidade pelos repórteres, que estão no meio do fogo cruzado entre uma população carregada de razões para reclamar da greve e os grevistas com igual quantidade de motivos para cruzarem os braços. Oficialmente, a greve acabou. Mas alguns batalhões ainda seguem parados. E o saldo deixado até agora pelo movimento impressiona: 127 homicídios, dezenas de saques no comércio e algumas centenas de outros crimes.
Primeiro, vamos ao lero-lero, como se fala no jargão dos repórteres sobre fatos conhecidos que precisam ser lembrados antes de começar a conversa séria. Vitória é uma cidade com 212 mil habitantes, capital do Estado, onde os moradores são conhecidos como capixabas. Ao longo dos anos, o município é usado como um esconderijo de chefes de grandes quadrilhas do Rio de Janeiro, especialmente criminosos ligados ao Comando Vermelho (CV). No final da década de 90, conversei longamente com agentes da Polícia Federal (PF) e da Polícia Civil do Espírito Santo sobre uma investigação que apurava se os quadrilheiros estavam pagando “pedágio” para se esconder na cidade. A apuração não foi concluída. Outro fato. O policial militar do Espírito Santo recebe o menor salário da categoria no Brasil. Isto o torna refém de outras fontes de renda, como a prestação de serviço de segurança no comércio, famoso bico. O salário está sendo pago em dia.
Agora, vamos à conjuntura atual. Assisti, li e escutei a maioria do que se noticiou sobre a greve. E recorri a várias fontes para entender o que não estava nos noticiários. O que foi noticiado dava a entender que as entidades de classe estavam usando as mulheres e os parentes de policiais militares para driblar a lei que proibe a categoria de fazer greve. Inclusive autoridades do governo classificaram a ação das mulheres e dos parentes como “teatro”. Perguntei a uma fonte minha sobre o assunto, e a resposta acrescentou informações novas:
– Os lideres do movimento são inexperientes e não souberam reagir às ameaças do governo. E, com isso, deixaram um vácuo na negociação que foi ocupado pelas mulheres e por outros familiares.
A organização das mulheres e familiares foi amparada por forças políticas locais e nacionais. Em 40 anos de repórter, já vi isso acontecer, o que descrevo como normal. Entre os apoiadores, merece destaque a atuação dos simpatizantes do deputado federal, Jair Bolsonaro (PSC-RJ). O deputado é pré-candidato a presidência da República em 2018. Ele não foi o único a usar o movimento como palco para vender suas idéias. Mas foi o que mais se destacou. Conversei com fontes no governo do Espírito Santo sobre um fato que me intrigou. Qual o motivo que levou as autoridades estaduais a insistirem na punição de praças e oficiais envolvidos na greve depois de fechado o acordo para pôr fim no movimento? Esse tipo de coisa, geralmente, é negociado durante o acordo. No caso do Espírito Santo, não só não foi negociado como a insistência pelo governo em punir virou manchete nos principais jornais do país. A resposta da minha fonte sobre o assunto foi curta:
– A decisão é política. Os fomentadores da greve (sem especificar quem) têm que saber que soubemos jogar duro.
Dois dias depois dessa conversa com a fonte, os jornais noticiaram que oito governadores, incluindo o do Rio Grande do Sul, e quatro vices, reuniram-se em Brasília. Em uma nota oficial, pediram ao governo federal e ao Congresso Nacional “que não seja aprovado qualquer tipo de anistia aos policiais militares que tiverem sido punidos pelos atos considerados inconstitucionais. Neste momento de instabilidade e insegurança, é preciso agir com firmeza para que situações semelhantes não se expandam para outras regiões do País”.
A pergunta que me veio à cabeça foi se o baixo salário que os policiais militares recebem no país e o fato de vários estados, incluindo o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, estarem pagando os salários com atraso seria o estopim para fazer pipocar paralisações pelo Brasil afora. Conversei sobre o assunto com uma fonte que é liderança nacional da categoria. A resposta me surpreendeu:
– O andamento do projeto do governo federal da reforma da previdência social.
Argumentei que o presidente da República, Michel Temer, havia retirado do projeto os policiais militares e os bombeiros, alegando que eles eram pagos pelos estados.
– Ele falou que iria tirar. Mas não tirou.
Nas últimas décadas, como repórter acompanhei várias greves – geralmente disfarçadas – de policiais militares. A maior de todas aconteceu em Minas Gerais, em 1997, quando o cabo Valério dos Santos Oliveira, 36 anos, foi atingido por uma bala perdida na cabeça. A que acontece no Espírito Santo é totalmente diferente das outras manifestações. Em parte, pelo inédito contexto político e econômico nacional. Na política, temos vários deputados federais e senadores sendo investigados por corrupção, o presidente da República é um dos mais impopulares da história e a campanha para as eleições de 2018 já começou. Na economia, vários estados estão quebrados, entre eles o Rio Grande do Sul. E o governo federal só concorda em ajudar se houver contrapartidas do tipo: corte de pessoal e salários. Para entendermos o que está acontecendo no Espírito Santo, nenhuma palavra dos envolvidos com a greve, dos seus apoiadores e dos governos do Estado e da União pode ser desprezada. Porque ali pode estar a chave para se entender a situação e, com isso, explicar aos nossos leitores a trilha que os acontecimentos estão percorrendo. Não é uma tarefa fácil. Mas é necessário amarrar as pontas, como se fala no jargão dos repórteres.

Sou um velho repórter que respeita o leitor. Em nome do respeito digo aos meus colegas que seria legal informar aos leitores o preço pago e a origem dos recursos usados pelo Geddel Vieira Lima para comprar o apartamento. Não estou levando nenhuma suspeita. Apenas falando em nome da exatidão da informação.

O ex-atacante do Grêmio e deputado estadual Mário Jardel não é um bandido do quilate do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, preso preventivamente pela Justiça Federal. Ele pode ser responsabilizado pelos crimes cometidos no exercício da vida parlamentar? Antes de decidir é necessário esclarecer se ele é uma pessoa sequelada pelo uso de drogas. Lembro que ser usuário não é crime no Brasil, é considerado doença.
Hoje, como se estivesse se esquivando com seus dribles dos zagueiros, Jardel tenta escapar do processo de cassação em andamento na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O cerco está se fechando, ele não conseguirá escapar da cassação.
Esta é a situação de Jardel. Não sou gremista. Sou colorado. Mas sou repórter e digo que cassá-lo sem esclarecer o seu vínculo com as droga é cometer uma injustiça, porque ele é uma vítima do sistema político brasileiro. Muito antes de se eleger deputado em 2014, Jardel admitiu, em um programa de TV, em 2008, que era usuário de cocaína. Sua ligação com as drogas era pública quando foi indicado para concorrer a deputado. Como repórter, aprendi uma coisa: ser drogado traz dois problemas. O primeiro são os danos na saúde. O segundo, mais grave, é que a droga, por ser ilegal, força o usuário a conviver com os fornecedores, que são bandidos. E essa convivência deixa sua marca.
A pergunta é pertinente. Ao indicar Jardel, seus padrinhos políticos não sabiam de seus problemas? Ou apostaram que, dando uma nova carreira para o ex-craque, estariam contribuindo para a sua recuperação?

Claro. Faltou acertar com Jardel. O cotidiano dele na Assembleia revelou o seu entendimento da situação: comportou-se como se tivesse sido contratado por um time que disputava um campeonato de várzea. Administrou o seu gabinete de maneira desastrada. Ninguém falou para ele. Mas, ao se eleger, ele passou a viver em um mundo diferente do vestiário, onde o craque é rei. Ele entrou no mundo dos cartolas, onde as aparências contam.

Como repórter não podemos sair escrevendo, ou falando, o que os comentaristas políticos estão dizendo  sobre Donald Trump  romper os seus compromissos de campanha contra as minorias para poder acalmar os mercados e governar em paz.  Mesmo sendo regra geral entre os candidatos mudarem de assunto depois de se elegerem, Trump não é um candidato tradicional. Para se fazer notar na disputa, ele audaciosamente elegeu bandeiras segregacionistas.
E ao elegê-las, ele se comprometeu com  as organizações da direita fundamentalistas dos Estados Unidos,  que hoje estão divididas em três grandes movimentos: o da supremacia branca, de anti-imigração e os que pregam a Islamofobia. Ao verem as suas principais bandeiras de luta serem defendidas, os racistas se atiraram de corpo e alma na campanha. Andei ligando para algumas pessoas e me convenci que esses grupos não ficarão de braços cruzados caso Trump rompa com seus compromissos. Esse
pessoal não costuma levar desaforos para casa. Eles têm organização, treinamento militar, armas e dinheiro para dar uma resposta. Um dos seus cartões de apresentação foi o atentado de Oklahoma City, em 19 de abril de 1995,
que teve como alvo o Edifício Federal Alfred P. Murrah que resultou em 168 mortos e mais de 500 feridos. O “Tio Google” é rico em informações sobre o  caso.
É consenso entre os especialistas que Trump não chega ao final do seu governo sem sofrer um atentado, se romper os seus compromissos de campanha com essa gente. O que escrevi não é uma opinião minha, mas uma conclusão que cheguei depois de falar com várias fontes. Lembro que, por escrever sobre conflitos agrários e crimes de fronteira ao longo dos meus 40 anos de repórter, eu sempre li muito, fiz fontes ao redor do mundo (entre cientistas sociais e gente dos serviços de inteligência) sobre movimentos e organizações. Aos jovens repórteres das redações alerto que é hora de começar a prestar atenção do que o Trump fala nas entrelinhas dos seus pronunciamentos. Têm coisas interessantes. Trump não tem palavra. Tem negócios.

Para os repórteres, ao que parece, é coisa do passado a história dos vencedores e dos perdedores no segundo turno das eleições para prefeito em Porto Alegre. Mas falta contar o capítulo sobre como os dois candidatos chegaram lá. Ele aconteceu ao longo do dia 18, uma segunda-feira. Durante a madrugada, uma ventania, confundida com um atentado a tiros, quebrou vidros e espalhou pânico na sede do comitê do PSDB. Paralelamente, ocorreu um incêndio criminoso em uma sala do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), onde eram guardados documentos relativos a uma apuração de fraude. Na tarde do mesmo dia, foi encontrado morto Plínio Zalewski, coordenador da campanha do candidato do PMDB à prefeitura, na sede do próprio partido. Um episódio trágico que a polícia trata como suicídio e que, como era de se esperar, causou comoção suficiente para paralisar por 24 horas a campanha eleitoral.
O que aconteceu são fatos raros e intrigantes em uma acirrada disputa eleitoral, os quais semearam desconfiança entre os leitores. Cabe a nós esclarecer. E o que publicamos a respeito são notícias fragmentadas, que isolam qualquer tipo de ligação entre os três fatos. Se existe uma ligação, ou não, temos de esclarecer ao leitor. Há muita coisa solta no ar. Por exemplo: quando falaram que a ventania era um atentado a tiros, nós publicamos. Mas algum repórter foi até lá procurar marcas de bala nas paredes? Ou teria sido barrado à entrada do prédio e não contou isso? Nada sabemos.
E sobre o incêndio no DEP, a polícia já definiu uma linha de investigação? A respeito da morte de Zalewski, devemos explicar direitinho como alguém se degola, numa prática de suicídio esquisita, para se dizer o mínimo.
Nosso leitor exige saber o que ocorreu. E ele paga, muito caro, pela informação que consome. Não precisa ser gênio para dizer que a fuga de assinantes e de anunciantes dos jornais, sites e de outros noticiários tem a ver com a arrogância da indústria da comunicação.

Não somos deuses gregos, senhores. Somos repórteres, contadores de histórias. E sempre que publicamos alguma mal contada, ela se torna um fantasma a nos assombrar. Tenho fé de que os professores das faculdades de Jornalismo irão avaliar em sala de aula o que publicamos. Aliás, não existe melhor escola de jornalismo do que a autópsia do que escrevemos, falamos e das imagens que divulgamos sobre a vida das comunidades.

Encravada no meio do Rio Grande do Sul, a cidade universitária de Santa Maria hospeda um caso que não deve ser esquecido pela minha geração de repórteres e pelos jovens que hoje povoam as Redações. É uma reportagem inacabada. Assim defino a cobertura jornalística do incêndio que matou 242 pessoas e feriu outras 680 – a maioria de universitários -, na Boate Kiss, na madrugada de 27 de janeiro de 2013. A dimensão do fato está na Wikipédia: “É a segunda maior tragédia no Brasil em número de vítimas em um incêndio, sendo superada apenas pelo desastre no Gran Circus Norte-Americano, ocorrido em 1961, em Niterói, que abateu 503 pessoas. Foi semelhante ao sinistro que enlutou Buenos Aires, em 2004, na discoteca República Cromañón. Classifica-se também como a quinta maior tragédia na história do Brasil, a maior no Rio Grande do Sul e a terceiro maior em casas noturnas do mundo.”

É muita coisa para se deixar que o tempo desgaste a memória das pessoas. Perante a robustez do número de vítimas e de feridos, o fato de os quatro principais suspeitos pelo incêndio estarem aguardando o julgamento em liberdade é considerado uma afronta, e não só por familiares dos mortos. Recebo ligações de pessoas perguntando como é o cotidiano dos suspeitos. O que estão fazendo? Como vivem? Vivi quatro décadas dentro de uma Redação – saí em 2014 -, sei que é difícil manter um assunto por tanto tempo no noticiário, mesmo com esse impacto todo. Mas não é impossível. O assunto tem leitores, é uma fronteira a ser explorada pelas novas gerações de repórteres. Pistas podem ser encontradas nas redes sociais, onde sobram interrogações, questionamentos e protestos.