Itamar X Temer: as diferenças e as semelhanças entre dois governos nascidos no impeachment

O topete de Itamar.

A mala do Temer.

Dois presidentes da República que assumiram o governo em situação semelhante tiveram destinos complemente diferentes: Itamar Franco (1992 a 1995) e Michel Temer, que é o atual ocupante do cargo. Itamar fez reformas que deram estabilidade econômica e política para o país, no caso do Plano Real. Temer está arrastando o país para um abismo econômico e político. Ele ostenta o título de ser o primeiro a ocupar o cargo denunciado por corrupção pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Antes de seguir o barco, eu chamo a atenção dos meus colegas repórteres, em especial dos novatos. Comparar os dois governos é uma maneira de facilitarmos ao nosso leitor o entendimento da complexidade da atual situação do Brasil, um país com 14 milhões de desempregados.

Os governos nasceram em berços semelhantes: no impeachment do presidente. Itamar Franco (falecido em 2011) era vice de Fernando Collor (PRN – AL) e o substituiu em 1992. Michel Temer era vice da Dilma Rousseff (PT – RS) e assumiu o cargo em 2016. Aqui começam as diferenças. Quando Itamar assumiu, havia uma unanimidade nacional, que era simbolizada pelo Movimento dos Caras-Pintadas, pela necessidade de afastar Collor e o seu grupo político do poder. Muito contribuiu para a unanimidade o envolvimento em falcatruas do tesoureiro da campanha do presidente Collor, o empresário Paulo César Farias, o PC Farias, assassinado em 1996, em uma praia de Alagoas. Até hoje não foi identificado o autor dos disparos. A denúncia das falcatruas foi feita pelo irmão do então presidente Pedro Collor (falecido em 1994).

Não há registro na história, pelo menos conhecido, de que Itamar Franco tenha conspirado contra Collor. O que existia era uma profunda diferença política entre os dois – Collor defendia as privatizações, e Itamar era contra, A diferença veio a público ainda durante a campanha. Por conta dessa diferença o fato de o então vice ter divulgado o seu ministério um mês antes de concluir o processo de impeachment foi considerado como normal dentro da conjuntura que existia entre os dois. A intenção de Itamar era formar um governo de coalizão com o  PMDB, o PSDB e o PT, partidos que formavam a oposição a Collor. No final, o PT ficou fora da coalizão.

No impeachment de Dilma, não houve unanimidade nacional: o país ficou dividido. A razão do impeachment foi o envolvimento do governo nas chamadas “pedaladas fiscais” – tomadas de empréstimo dos bancos estatais para tapar furos no orçamento sem autorização do Senado. E há fartos registros na história de conspiração.  Na ocasião, o grupo político de Temer viu a oportunidade de assumir o governo e conspirou contra a Dilma. Um dos pilares da conspiração foi um ataque contra a já combalida economia, com as famosas “pautas-bomba” – aprovação de projetos que aumentavam os gastos públicos – do então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB – RJ). Cunha foi cassado e hoje cumpre pena de 15 anos de cadeia, condenado pelo juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato.

Também havia unanimidade nacional ao redor da principal bandeira do governo Itamar, que era acabar com a inflação na casa de mais de 1200% ao ano. O Plano Real – uma série de medidas econômicas – conseguiu resolver o problema, sem causar grandes traumas na sociedade. Temer assume com a bandeira de recolocar a economia nos trilhos para resolver o problema do desemprego, que é uma aspiração nacional. Propõe como solução uma série de reformas, entre elas a da Previdência Social e das Leis Trabalhista. As propostas de mudanças apresentadas pelo governo são polêmicas, e a maioria delas não tem o apoio da população.

Aqui acontece uma grande diferença entre os dois governos. Na época em que o grupo político de Itamar foi à luta para aprovar medidas econômicas que serviriam de base para o Plano Real, não existia a Operação Lava Jato. Os parlamentares estavam focados na luta política com a oposição. O grupo político de Temer foi à batalha para aprovar as reformas na era da Lava Jato. Com vários dos seus ministros e senadores e deputados federais da base de apoio citados nas delações  premiadas feitas à força-tarefa da Lava Jato por empresários, burocratas do governo, ex-ministros e ex-parlamentares. Dentro dessa conjuntura, podemos afirmar que não foi a oposição que parou  a tropa de choque do Temer.  A tropa de choque foi parada pelas ações da Lava Jato.

Um fator comum entre os dois presidentes. Temer, hoje, corre o risco de perder o seu cargo, como aconteceu com Itamar em 1994. Temer por ter sido encurralado pela delação premiada à Lava Jato do empresário Joesley Batista, um dos donos do JBS, que gravou uma conversa com o presidente negociando propina. O episódio é um dos pilares da denúncia de Janot. A marca dessa situação é o vídeo feito pela Polícia Federal (PF) de um assessor do presidente, o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB – PR) correndo por uma rua de São Paulo puxando uma mala com R$ 500 mil de propina, paga pela JBS.

O motivo pelo qual Itamar quase perdeu o cargo causou impacto na época. Ele foi fotografado no carnaval, em um camarote da Marques do Sapucaí, no Rio de Janeiro, ao lado da atriz Lilian Ramos. Ela estava sem calcinha e com a genitália desnuda. Esse acontecido não marcou a administração de Itamar. A marca da sua administração, que lhe garantiu um lugar na história do Brasil, foi ter domado a inflação, o que significou um ciclo de desenvolvimento que durou duas décadas. Temer tem a ambição de ser classificado com um presidente reformista na história do Brasil. O que já garantiu foi o lugar de ser o primeiro a ser denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) no exercício do cargo. A marca pessoal de Itamar era o topete no cabelo. A de Temer, de usar mesóclise nas suas conversas.

7 thoughts on “Itamar X Temer: as diferenças e as semelhanças entre dois governos nascidos no impeachment”

  1. Além disso, afastou ministros sem vacilações por fortes indícios de corrupção e deu base de sustentação política para a inovação dos remédios genéricos. Realmente, um presidente rijo com o perdão do trocadalho.

  2. Wagner,

    uma análise com a qualidade de sempre, num texto preciso.
    Só não consigo concordar que o Itamar Franco esteve a ponto de ser impedido por causa do acontecimento no camarote durante o Carnaval. Considero que foi um fato que produziu não mais que folclore (no capítulo namoradas, relacionamentos), aliado a outras características do Presidente, como ser simples, monoglota, ligado à “República de Juiz de Fora”, etc.
    O que me impressiona, revisitando a história daquela época (li há pouco o texto do David Coimbra) é como Itamar Franco, com sua simplicidade, intuição acima de tudo, acertou no essencial:
    – entregou um país melhor do que recebeu (no final do mandato era aplaudido em público);
    – tomou um alto risco que fez toda a diferença na história, nomeando um sociólogo para o Ministério da Fazenda, que por sua vez montou uma equipe econômica blindada para fazer o trabalho de debelar a inflação; na prática, um Primeiro-Ministro, feito sucessor;
    – foi um período de ampla liberdade, personificada no Presidente;
    – não há notícias até hoje de malfeitos, parece ter morrido com um padrão de vida similar àquela que tinha antes de ser Presidente.

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