Os casos com Aécio e Palocci marcam o fim do ciclo político da Nova República

Qual é a relação que existe entre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de afastar pelo envolvimento em corrupção do seu mandato o senador Aécio Neves (PSDB – MG) e decretar que fique confinado na sua casa durante a noite e a carta enviada pelo ex-ministro Antonio Palocci pedindo a desfiliação do PT, onde declara que foi testemunha ocular da decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT – SP) de pedir propinas?

Os dois casos têm relação com a Operação Lava Jato. Mas a resposta correta para essa pergunta não está no presente. Mas no passado. Os dois fatos decretaram o fim da geração dos políticos da Nova República, que foi um ciclo na história política brasileira iniciado em 1985, com a saída do poder dos militares (1964 a 1985). Foi o período que consolidou as bases do atual estilo de vida dos brasileiros com e edição da nova Constituição, em 1988, quando ela garantiu os atuais direitos sociais e políticos. Do Plano Real, que estabilizou a economia em 1994 e gerou uma década de prosperidade de pleno emprego.  No período, houve seis presidentes, sendo que dois foram  cassados: Fernando Collor (PRN – AL), em 1992, e Dilma Rousseff (PT –  RS), em 2016. Collor foi substituído pelo seu vice, Itamar Franco (PPS – MG), falecido em 2011, que foi o  responsável pelo Plano Real. Dilma pelo seu vice, Michel Temer (PMDB – SP), que, atualmente, é o primeiro presidente da 

República do Brasil denunciado duas vezes por corrupção pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

A geração de políticos da Nova República foi gerada por um pacto que trouxe nas suas entranhas um vírus letal: a indústria da corrupção. Antes de seguir com a história, eu gostaria de refletir com os meus colegas repórteres velhos e chamar a atenção dos novatos na reportagem. Em 1985, eu estava no início da minha carreira de repórter na redação de Zero Hora. O meu foco era a cobertura de conflitos agrários – sem-terra e índios. Os dois assuntos chamavam a atenção de repórteres de todos os cantos do Brasil e do mundo. Portanto, eu convivia com gente de várias redações e sempre estava muito atento à conjuntura política nacional. Lembro que a questão da corrupção nas grandes obras do período militar – entre elas, a Hidroelétrica de Itaipu (1975 a 1982) e a Rodovia Transamazônica (1969 a 1974) – pipocavam na chamada Imprensa Alternativa, formada por jornais e revistas como o Coojornal (Porto Alegre) e o Pasquim (Rio de Janeiro).

 

A questão da corrupção não foi o cimento que consolidou o pacto da Nova República. A liga usada para a formação do pacto foi questões políticas, entre elas a anistia ampla e irrestrita, que envolveu o perdão aos torturadores. Páginas de jornal foram escritas sobre o assunto. A corrupção foi considerada uma questão menor e foi varrida para debaixo do tapete. Lembro que os personagens envolvidos na formação do pacto tinham duas origens: os velhos, entre eles Leonel Brizola, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, que tinham raízes políticas consolidadas antes do golpe militar de 1964. Eram “putas velhas”, como se dizia nos jargões das redações nos anos 80. E os novos políticos que tinham sido formados durante o período militar, entre eles Temer, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Palocci, Lula e Aécio. Aqui, eu quero chamar a atenção dos meus colegas para o seguinte: na época, uma garantia de ser eleito era ser contra os militares, Como hoje é ser do “show business” ou âncora de noticiário.

Em linhas gerais, é essa conjuntura que gerou os políticos da Nova República. E a ironia dessa história é que foram as liberdades constitucionais implantadas por eles e consolidadas ao longo dos últimos anos que fortaleceram as instituições (tipo o Ministério Público Federal) que se tornaram esteio da Lava Jato. Não estou contando novidade. Lula, Aécio e Palocci já falaram sobre isso. O perfil da nova geração de políticos que vem aí, ninguém sabe. O que já se nota no horizonte é um contingente formado pelos sobreviventes da geração da Nova República misturados

 

com tecnocratas – travestidos de políticos. Para o bem, ou para o mal, eles vão concorrer nas eleições de 2018. O perfil do novo político, eu creio, deverá ser moldado no decorrer de uma década. Os movimentos sociais, as instituições, a imprensa e as redes têm musculatura suficiente para garantir essa transição.

E sobre a corrupção, uma olhada na história do mundo. Nós podemos ver que ela já andava pela terra na época dos dinossauros, como brincou comigo um professor de história durante uma cervejada no Boteco do Alemão. Se bem me lembro, os dinossauros foram extintos. É impossível, em qualquer parte do mundo, terminar com a corrupção. Mas ela pode ser controlada. No Brasil, a Operação Lava Jato não é o meteorito que irá extinguir a corrupção como o que dizimou os dinossauros. O que irá ajudar a controlar a indústria da corrupção será mudanças das leis, como a que termina com o foro privilegiado para crimes comuns de parlamentares é ministros. Talvez o destino da geração dos políticos da Nova República fosse outra, se não existisse o foro privilegiado para crimes comuns. Talvez.

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