Os R$ 51 milhões de Geddel eram para financiar a campanha de 2018?

O ex-ministro Geddel Vieira Lima, 58 anos, vai matar no peito a bronca dos R$ 51 milhões encontrados pela Polícia Federal (PF) em um apartamento, em Salvador (BA)?  Não é do seu feitio. Se for trabalhado direitinho pela PF (interrogado), ele atira merda no ventilador.

A linguagem que usei acima é a usada nos plantões policiais das delegacias gaúchas. Ela é simples, direta e vastamente conhecida por bandidos, policiais e repórteres. E serve como uma luva para descrever a situação do amigo pessoal e ex-ministro do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP). Eu quero conversar com os meus colegas repórteres, especialmente os novatos, sobre a evolução do caso dos R$ 51 milhões. Há duas perguntas para serem respondidas: ele é o único dono da dinheirama? E de onde ela vem? Vamos começar a conversar respondendo a segunda pergunta. O dinheiro é sujo – caso contrário, não estaria escondido dentro de um apartamento. E a história de Geddel mostra que, nas últimas décadas, ele navegou de um escândalo a outro – tudo pode ser encontrado na internet. O mais significativo foi o dos Anões do Orçamento, em 1993 – na ocasião, uma gangue de parlamentares desviava dinheiro público.

Portanto, a conclusão de que a origem do dinheiro seja suja tem 99% de possibilidade de acerto. A outra pergunta: ele é o único dono? Aqui, é o seguinte. Geddel não é estúpido para armazenar o seu dinheiro dessa maneira. Todo repórter que trabalha com crime organizado sabe que existem muitas maneiras de lavar dinheiro. Portanto, é enorme a possibilidade que os milhões pertençam ao grupo político do ex-ministro. E que seriam usados para financiar a campanha política de 2018 nos noves estados da região do Nordeste, o terceiro colégio eleitoral do Brasil. Além de ser usado para financiar a estrutura da campanha – marqueteiro, publicidade etc. Há mais um detalhe nessa história.  Há um documentário mandado produzir por Antônio Carlos Magalhães (falecido em 2007), político baiano que dispensa apresentações. Foi feito em 2001, em uma disputa eleitoral na Bahia. O nome do documentário é “Geddel vai às Compras”, que mostra o enriquecimento ilícito da família do ex-ministro e como ele comprava os votos dos eleitores para eleger-se – o chamado voto de cabresto.

A Região do Nordeste é hoje um dos celeiros do Brasil do voto de cabresto, graças à miséria da população, que vem sendo aprofundada por políticos do tipo de Geddel. O grupo político do ex-ministro não tem um candidato presidencial. Mas quem ele apoiar tem chances de ganhar. Foi assim nas eleições dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT – SP) e Dilma Rousseff (PT – RS). Não interessa quem irá ganhar as próximas eleições presidenciais. Certo é que o PMDB vai estar no poder. Mais uma coisa: esta eleição será diferente das outras, porque quem ficar sem mandato ou cargo de ministro irá perder o foro privilegiado – só responde pelos crimes no Supremo Tribunal Federal (STF), que é bem mais lento do que a Justiça comum.

Esse é o quadro. Se Geddel falar que o dinheiro é só dele, salva o seu grupo político. Mas a história mostra que ele não tem o perfil de sacrificar-se pelos outros. Se falar que o dinheiro era para financiar a campanha de 2018, nós, repórteres, vamos ter uma nova fronteira para garimpar boas histórias. Lembro que vamos ter os eleitores ideológicos – aqueles que votam segundo suas convicções políticas; os que tiveram a sua a consciência tocada pela onda moralizadora da Operação Lava Jato – irão escolher o seu candidato com cuidado; e aqueles que irão trocar o seu voto por dinheiro. Vamos esperar para ver o que Geddel irá dizer no interrogatório da PF.

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