De dentro de uma cela, no Complexo Médico-Penal de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) está conseguindo nomear seus aliados políticos para cargos no governo do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP). A influência de Cunha foi denunciada pelo senador Renan Calheiro (PMDB-AL), que teve uma conversa de uma hora e meia com Temer sobre o assunto.
Renan foi muito contundente em sua denúncia e levou uma lista dos aliados de Cunha, que foi amplamente divulgada na imprensa – entre eles o atual ministro da Justiça, o deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR). Como repórter, nós temos que ver onde ninguém enxerga. Em outubro do ano passado, o juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, decretou a prisão preventiva de Cunha. Alegou o juiz que, mesmo tendo o seu mandato cassado, o ex-deputado continuava articulando contra a Lava Jato. Pelo relato do senador Renan, os muros da penitenciária não detiveram o poder de Cunha.
Ao continuar operando dentro da cadeia, Cunha está agindo como fazem os grandes chefes de quadrilha. Pessoas como como Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, cabeça do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, figura poderosa do Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro. Marcola e Beira-Mar usam uma rede de pessoas – parentes, amigos e advogados – para mandar ordens aos seus gestores, bandidos que cuidam dos negócios das facções – tráfico de drogas, guerras por território e demonstrações de força perante o estado.
Renan não comparou Cunha a Beira-Mar e Marcola. Mas, ao falar que ele está agindo de dentro da cadeia, a imagem que vem na cabeça do grande público é a dos chefes de facções dando ordens de dentro das penitenciárias para os seus cúmplices: matar, incendiar ônibus e liquidar os seus inimigos, como foi o caso do confronto entre o PCC e o CV nos presídios de Manaus (AM) e Boa Vista (RR), que resultou em 150 mortos, muitos decapitados. Se Cunha, mesmo encarcerado, continua praticando o crime pelo qual foi decretada a sua preventiva, o juiz Moro vai agir. Lembramos que o juiz já impediu que Cunha constrangesse Temer com perguntas – que seriam feitas durante o depoimento do presidente como testemunha de defesa do ex-parlamentar.
Aqui convoco os meus colegas repórteres, principalmente os jovens, a uma reflexão. O senador é um dos políticos mais astutos em atividade, responde a processos e investigações e continua navegando no mar bravo da política. Se Cunha for condenado e colocado em um regime de prisão isolado, ele deixa um espólio político – senadores e deputados federais – considerável. Segundo algumas fontes, somaria mais de 100 parlamentares. Renan está de olho no espólio de Cunha. A briga pelo espólio do ex-parlamentar segue a lógica do mundo de Beira-Mar e Marcola, onde, quando um chefe de quadrilha morre, seu rival assume o lugar.

Imagine-se a bordo de um navio em alto mar, navegando em meio a uma severa tempestade. Você entra na cabine de comando e não encontra ninguém no leme. Essa é a imagem que o atual governador do RS, José Ivo Sartori (PMDB), passa para os gaúchos do seu governo. E essa sensação de que ninguém está no poder tem exercido uma influência forte na atual onda de violência que varre o Rio Grande do Sul, em especial a Região Metropolitana de Porto Alegre.
Sempre que o cidadão, o bandido e o policial olham para o Palácio Piratini e têm a sensação que o seu ocupante não sabe o que está fazendo na área de segurança pública, nas ruas instalasse um salve-se quem puder. Já aconteceu antes, basta vasculhar os registros na história do Estado. A situação do governador é complicada: não há dinheiro para pagar em dia os funcionários, nem para tocar as obras públicas. Na Assembleia Legislativa, tenta convencer os deputados a apoiar um pacote de medidas, na sua grande maioria, impopulares e de efeito duvidoso de seus resultados.
Essa é a conjuntura. Mas ela não pode ser o motivo de Sartori deixar a sensação de que não está no leme. Outros governadores, como Pedro Simon (PMDB), Olívio Dutra (PT) e Yeda Crusius (PSDB), enfrentaram crises muito semelhantes à de hoje, e não lembro de terem dado a sensação de estarem afastados dos problemas de segurança pública. Mais uma coisa: levando em conta todas as limitações que a situação econômica do Estado impõem ao atual governador, nada justifica as decisões erradas que tem tomado na condução dos assuntos da segurança. Como, por exemplo: a nomeação de Cezar Schirmer, ex-prefeito de Santa Maria.
Não se trata da competência de Schirmer para tratar dos assuntos de segurança. Mas do fato de ter sido o prefeito de Santa Maria quando aconteceu a tragédia da Boate Kiss –na madrugada de 27 de janeiro de 2013, um incêndio matou 242 pessoas e feriu outras mais de 600. A nomeação de Schirmer para a segurança foi uma bofetada na cara dos gaúchos. Além de ele ter ficado marcado pela tragédia, ainda há o fato de hoje ser o chefe dos delegados que conduziram as investigações da Kiss e dos bombeiros que trabalharam no incêndio.
O governador poderia ter nomeado Schirmer para qualquer outro cargo, menos para secretário de Segurança, em substituição ao Wantuir Jacini, outra escolha errada do governador. Jacini foi secretário da segurança do Mato Grosso do Sul. Natural de São Gabriel, ele é delegado aposentado Polícia Federal (PF) e viveu a maior parte da sua vida fora do Estado. Portanto, longe dos nossos problemas. Mais uma coisa: logo que assumiu o governo, Sartori fez mudanças na Polícia Civil e na Brigada Militar (BM), que paralisaram investigações importantes. Esta paralisação deu tempo para os bandidos se reorganizarem. Um dos resultados da paralisação das investigações é o recrudescimento do roubo de carros e o arrombamento de caixas eletrônicos no interior do Estado.
Como repórteres, nós temos que analisar a onda de violência como quem procura as causas da queda de um avião, em que nunca existe um único fato, mas uma sequência de acontecimentos. Portanto, não podemos atirar o atual descontrole da segurança pública somente nas costas da crise econômica. Claro, ela é um dos motivos. Mas não é o único. Basta dizer que apesar de estarem com seus salários fatiados e muitas de suas viaturas caindo aos pedaços, os agentes da Polícia Civil, a BM e os outros órgãos da segurança estão trabalhando. Falta o governador botar a mão na massa.

O ministro licenciado da Casa Civil, Eliseu Padilha, 71 anos, não depende da sua volta ao cargo para permanecer operando como uma peça vital no sistema de sustentação política do governo do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP). Padilha, o senador Romero Jucá (PMDB – RR), ex-ministro do Planejamento, Geddel Vieira Lima, ex-ministro da Secretaria de Governo, e Moreira Franco, atual ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, são pessoas que discutem, planejam e executam as articulações políticas que sustentam Temer. Eles foram os organizadores da aliança das várias forças partidárias ao redor do então vice-presidente Temer no processo de impeachment da presidente da República, Dilma Rousseff (PT – RS).
Não é a gratidão que mantém Temer fiel aos quatro políticos. Aliás, gratidão e fidelidade são coisas que não existem no jogo político. Existem oportunidades geradas pela soma de fatos que formam a conjuntura política. E pelas ligações que os quatro mantêm com senadores, deputados federais e governadores, eles são fundamentais para agirem na conjuntura política e dar sustentação ao governo Temer. É isso que mantém o presidente da República ligado ao grupo. Para fazer esse trabalho, os quatro não precisam de cargos, apenas de telefone celular e mensageiros para fazer os contatos.
Padilha, Jucá, Geddel e Moreira Franco também não trabalham unidos por ideais patrióticos – eles têm problemas com a operação Lava Jato. Mas pela conveniência de somar forças políticas e tornarem-se indispensáveis para Temer manter o poder. Para nós, repórteres, principalmente os jovens, saber como opera esse grupo que sustenta Temer é fundamental para informar corretamente aos nossos leitores. Entre os quatro, Padilha não é o mais astuto. Mas é o mais organizado: ele tem uma rotina espartana de trabalho. Eu o conheci nos anos 1980, quando era advogado e empresário da construção civil em Tramandaí (RS), no Litoral Norte. Na época, eu era repórter especial de Zero Hora, que mantinha uma sucursal, durante o verão, em Tramandaí, onde ele foi prefeito pelo PMDB. A disputa política na cidade era feroz. Ele conseguiu influência política na região e se elegeu deputado federal.
Ele não tem amigos ou inimigos políticos. Padilha tem aliados de ocasião. Sua mestra na política é a conjuntura. Ele age conforme o rumo dos acontecimentos. No frigir dos ovos, como se fala no jargão dos repórteres, não é Padilha que precisa do Temer. É Temer quem precisa de Padilha.

Primeiro, e com sucesso, o governo do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), vendeu a ideia de que as reformas econômicas propostas, entre elas cortes no orçamento e reestruturação da previdência social, seriam fundamentais para a retomada da economia e, com a ela, a volta do emprego. Depois, com maestria, blindou os seus ministros e a base parlamentar aliada contra as suspeitas do envolvimento em falcatruas denunciadas nas delações premiadas da Operação Lava Jato, por conta da necessidade de aprovar na Câmara Federal e no Senado as reformas. É comum ouvir, ler e ver nos noticiários, logo após a divulgação de uma notícia do conteúdo de uma delação premiada envolvendo alguém do governo em falcatruas, o comentário sobre se irá ou não prejudicar o andamento das reformas econômicas. O jornalista não tem como não fazer esse comentário. E a relevância da retomada do emprego – em um país com 25 milhões de desempregados, quase a população da Argentina – se encarrega de tornar a aprovação das reformas econômicas o centro da notícia. É assim, de escândalo em escândalo, que o governo Temer vai consolidando as suas reformas.
A estratégia do governo é inteligente. Gostaria de fazer uma reflexão com os meus colegas repórteres, principalmente com aqueles que estão começando a profissão, sobre essa estratégia. Ela não nasceu agora. Vamos vasculhar a história. Durante a Guerra do Vietnã (1965 a 1973), as Forças Armadas dos Estados Unidos permitiram que os repórteres tivessem acesso aos campos de batalha. No noticiário da noite, os americanos assistiam seus filhos sendo mortos pelos sul-vietnamitas. Logo se formou um movimento contrário à guerra que teve um papel decisivo na derrota das tropas americanas. O governo americano aprendeu a lição. Na Guerra do Golfo (1990 a 1991), quando os americanos lutaram com as tropas do Iraque, as Forças Armadas dos Estados Unidos não permitiram que os repórteres andassem livres pelos campos de batalha. A cobertura foi feita em coletivas de imprensa, onde os militares mostravam gráficos e desenhos. Daí nasceu a expressão “Guerra Cirúrgica”, onde só os alvos eram atingidos. Mais tarde, graças ao trabalho de repórteres, a verdade veio à tona e mostrou os efeitos colaterais dos bombardeios: centenas de civis mortos. Anos depois, as Forças Armadas dos Estados Unidos venderam para a opinião pública a justificativa que o Iraque tinha armas de destruição em massa para invadir o país. As armas não foram encontradas, e os americanos se enfiaram em mais um atoleiro.
No Brasil, não podemos deixar de esmiuçar para os nossos leitores o perfil dos homens que estão no governo, envolvidos com a Lava Jato, Eles são apontados como necessários para passar as reformas econômicas na Câmara e no Senado. Muitos deles estão fora da cadeia, graças ao fórum privilegiado por serem parlamentares. Eles não são Robin Hood – lendário bandido inglês que roubava dos ricos para dar aos pobres. São pessoas que precisam dar explicações para a Justiça.
Eu sei como é o louco cotidiano de uma redação, fiquei lá 30 e poucos anos como repórter especial. Também sei que o contexto atual tornou o repórter um cara que faz todas as mídias – significa trabalhar que nem um louco. Mas digo o seguinte: o momento é único na história do Brasil. Temas como a reforma da Previdência Social, que mexe com a vida de todo mundo, estão sendo tratados por pessoas que têm as mãos sujas pelo dinheiro alheio. Usando o jargão dos repórteres: Temer está usando a estratégia de colocar o bode na sala. Nós podemos mostrar que o problema não é o bode.

Nos últimos meses, não apenas as palavras “segurança” e “pública” foram incorporadas ao nome do Ministério da Justiça. Aconteceu de fato uma mudança no cotidiano do ocupante da cadeira. Hoje, seu trabalho se parece mais com a rotina de um delegado de polícia do que a de um ministro do Estado que conduz as políticas governamentais no vasto leque de assuntos da área da Justiça, entre elas: questão indígena, consumidor, imigração e anistia política.
O novo ministro, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), assume o cargo com restrições de mencionar qualquer comentário que seja entendido como contrário à Operação Lava Jato. Se falar mal, além de perder o cargo, ficará dando explicações para a mídia por muitos meses.
A Lava Jato não é o maior problema do ministro. É o crescimento da violência nas cidades brasileiras, inclusive nas pequenas, o que pode ser creditado à ação das facções criminosas. Nos últimos anos, essas organizações atingiram um grau de eficiência jamais visto. As duas maiores, o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, consolidaram suas posições nas fronteiras brasileiras com Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia.
Como se fosse empresas, o PCC e o CV estão verticalizando suas atividades, tentando acrescentar o controle das fontes da produção de cocaína e maconha. Disputando os mesmos mercados e territórios, era inevitável que entrassem em conflito. Os últimos confrontos entre as duas, no início do ano, empilharam mais de 90 corpos, muitos deles decapitados, nos presídios de Manaus (AM) e Boa Vista (RR).
No norte do Brasil, o CV é aliado com Família do Norte (FDN). O PCC tem como sócios várias quadrilhas na fronteira do Paraguai. Aliás, de norte a sul do Brasil, nascem e se consolidam novas facções criminosas, com um alto grau de eficiência na administração dos seus negócios. Entre estas, estão a dos Manos e a dos Bala na Cara, ambas de Porto Alegre (RS).
Enquanto as facções crescem e se alastram pelas fronteiras, em vários Estados, inclusive no Rio Grande do Sul, aumenta o caos no sistema penitenciário, hoje o maior fornecedor de soldados para as organizações criminosas. Soma-se a isso a grande insatisfação existente nas policiais militares de todo o país. Recentemente aconteceu a greve dos PMs capixabas, em Vitória, no Espírito Santo. Atualmente, os PMs de Pernambuco estão ameaçando parar.
Este é o contexto. Totalmente diferente do que era o do Ministério da Justiça até bem pouco tempo atrás. Essa confusão é o cotidiano das delegacias de polícia – seja federais ou estaduais. Ali as coisas acontecem com uma incrível velocidade. Seria bom o novo ministro ter uma longa conversa com um delegado, principalmente com um que trabalha nas fronteiras do Brasil, para pegar algumas “dicas” de como administrar o caos. Fica a sugestão. Como um velho repórter estradeiro conheço bem a realidade das delegacias..

Em vastas regiões do Brasil e entre as classes populares dos grandes centros urbanos, na disputa das eleições de 2018, principalmente para presidente, o peso da violência – crimes contra o patrimônio e a pessoa – vão ter mais peso que a operação Lava Jato, que apura a corrupção entre empresários, políticos e assessores.
Não estou comparando qual dos crimes é o mais importante. Estou comparando o poder da imagem divulgada para o público. A força-tarefa da Lava Jato mostra o seu trabalho em entrevista coletivas, com gráficos e áudios de interceptação telefônica entre os suspeitos e explicações técnicas da relação entre os fatos divulgados. O impacto fica por conta dos nomes dos políticos divulgados.
Mas, quando falamos em impacto a imagem não é páreo para as cenas de brutalidade dos massacres provocados pelo enfrentamento do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, com o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, nas cadeias de Manaus (AM) e Boa Vista (RR), onde empilharam 90 corpos, muitos sem cabeça. Ou para os relatos dos familiares martirizados pela morte de um dos seus nas centenas de roubos de veículos que acontecem diariamente no Brasil. Ou ainda para as lágrimas dos pais das muitas crianças que são mortas no fogo cruzado na troca de tiros entre a polícia e as quadrilhas.
Se eu fosse cientista social a minha avaliação deste quadro seria cientifica. Sou repórter, com 40 anos de estrada, portanto vou relatar o que vejo de imediato. Não é de hoje, mas já são velhos conhecidos dos brasileiros os crimes do colarinho branco apurados pela Lava Jato. O que chama atenção agora é o fato de eles estarem indo para a cadeia. Como também as barbaridades resultantes dos confrontos do PCC com o CV e da violência diária sofrida pela população. A diferença é o grau de crueldade dos bandidos.
As novas tecnologias e a popularização da internet tornaram consumidores de informações uma vasta fatia da população brasileira espalhada de norte a sul, de leste a oeste. Muito mais que as palavras escritas, as imagens dão uma mensagem curta, rasteira e impactante. Seja através do WhatsApp, do Facebook ou de outra mídia, os vídeos correm o país em uma velocidade espantosa, principalmente pelo celular. Só para se ter uma ideia: em 2014, quando a Dilma Rousseff (PT) foi reeleita para presidente do Brasil existia no país, em números redondos, 274 milhões de celulares. Em 2018, a previsão é de 350 milhões. A população do país é de 212 milhões de habitantes, portanto dá mais de um aparelho por pessoa.
Como repórteres temos que ficar atentos aos discursos que vem por aí. Tem muito mais em jogo do que uma eleição. Não é a única explicação, mas o crescimento do deputado Jair Bolsonaro (PSC), nas últimas pesquisas da CNT/MDA precisa ser analisada de perto. Ele tem um discurso simples, agressivo e inconsequente, que entra como uma luva neste tipo de contexto. O governo federal já se deu conta e tem feito lançamento midiáticos de iniciativas, tipo Plano Nacional de Segurança, com um amontoado de boas intenções.

A greve da Polícia Militar do Espírito Santo está deixando um rastro de informações inéditas que precisam ser analisadas com profundidade pelos repórteres, que estão no meio do fogo cruzado entre uma população carregada de razões para reclamar da greve e os grevistas com igual quantidade de motivos para cruzarem os braços. Oficialmente, a greve acabou. Mas alguns batalhões ainda seguem parados. E o saldo deixado até agora pelo movimento impressiona: 127 homicídios, dezenas de saques no comércio e algumas centenas de outros crimes.
Primeiro, vamos ao lero-lero, como se fala no jargão dos repórteres sobre fatos conhecidos que precisam ser lembrados antes de começar a conversa séria. Vitória é uma cidade com 212 mil habitantes, capital do Estado, onde os moradores são conhecidos como capixabas. Ao longo dos anos, o município é usado como um esconderijo de chefes de grandes quadrilhas do Rio de Janeiro, especialmente criminosos ligados ao Comando Vermelho (CV). No final da década de 90, conversei longamente com agentes da Polícia Federal (PF) e da Polícia Civil do Espírito Santo sobre uma investigação que apurava se os quadrilheiros estavam pagando “pedágio” para se esconder na cidade. A apuração não foi concluída. Outro fato. O policial militar do Espírito Santo recebe o menor salário da categoria no Brasil. Isto o torna refém de outras fontes de renda, como a prestação de serviço de segurança no comércio, famoso bico. O salário está sendo pago em dia.
Agora, vamos à conjuntura atual. Assisti, li e escutei a maioria do que se noticiou sobre a greve. E recorri a várias fontes para entender o que não estava nos noticiários. O que foi noticiado dava a entender que as entidades de classe estavam usando as mulheres e os parentes de policiais militares para driblar a lei que proibe a categoria de fazer greve. Inclusive autoridades do governo classificaram a ação das mulheres e dos parentes como “teatro”. Perguntei a uma fonte minha sobre o assunto, e a resposta acrescentou informações novas:
– Os lideres do movimento são inexperientes e não souberam reagir às ameaças do governo. E, com isso, deixaram um vácuo na negociação que foi ocupado pelas mulheres e por outros familiares.
A organização das mulheres e familiares foi amparada por forças políticas locais e nacionais. Em 40 anos de repórter, já vi isso acontecer, o que descrevo como normal. Entre os apoiadores, merece destaque a atuação dos simpatizantes do deputado federal, Jair Bolsonaro (PSC-RJ). O deputado é pré-candidato a presidência da República em 2018. Ele não foi o único a usar o movimento como palco para vender suas idéias. Mas foi o que mais se destacou. Conversei com fontes no governo do Espírito Santo sobre um fato que me intrigou. Qual o motivo que levou as autoridades estaduais a insistirem na punição de praças e oficiais envolvidos na greve depois de fechado o acordo para pôr fim no movimento? Esse tipo de coisa, geralmente, é negociado durante o acordo. No caso do Espírito Santo, não só não foi negociado como a insistência pelo governo em punir virou manchete nos principais jornais do país. A resposta da minha fonte sobre o assunto foi curta:
– A decisão é política. Os fomentadores da greve (sem especificar quem) têm que saber que soubemos jogar duro.
Dois dias depois dessa conversa com a fonte, os jornais noticiaram que oito governadores, incluindo o do Rio Grande do Sul, e quatro vices, reuniram-se em Brasília. Em uma nota oficial, pediram ao governo federal e ao Congresso Nacional “que não seja aprovado qualquer tipo de anistia aos policiais militares que tiverem sido punidos pelos atos considerados inconstitucionais. Neste momento de instabilidade e insegurança, é preciso agir com firmeza para que situações semelhantes não se expandam para outras regiões do País”.
A pergunta que me veio à cabeça foi se o baixo salário que os policiais militares recebem no país e o fato de vários estados, incluindo o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, estarem pagando os salários com atraso seria o estopim para fazer pipocar paralisações pelo Brasil afora. Conversei sobre o assunto com uma fonte que é liderança nacional da categoria. A resposta me surpreendeu:
– O andamento do projeto do governo federal da reforma da previdência social.
Argumentei que o presidente da República, Michel Temer, havia retirado do projeto os policiais militares e os bombeiros, alegando que eles eram pagos pelos estados.
– Ele falou que iria tirar. Mas não tirou.
Nas últimas décadas, como repórter acompanhei várias greves – geralmente disfarçadas – de policiais militares. A maior de todas aconteceu em Minas Gerais, em 1997, quando o cabo Valério dos Santos Oliveira, 36 anos, foi atingido por uma bala perdida na cabeça. A que acontece no Espírito Santo é totalmente diferente das outras manifestações. Em parte, pelo inédito contexto político e econômico nacional. Na política, temos vários deputados federais e senadores sendo investigados por corrupção, o presidente da República é um dos mais impopulares da história e a campanha para as eleições de 2018 já começou. Na economia, vários estados estão quebrados, entre eles o Rio Grande do Sul. E o governo federal só concorda em ajudar se houver contrapartidas do tipo: corte de pessoal e salários. Para entendermos o que está acontecendo no Espírito Santo, nenhuma palavra dos envolvidos com a greve, dos seus apoiadores e dos governos do Estado e da União pode ser desprezada. Porque ali pode estar a chave para se entender a situação e, com isso, explicar aos nossos leitores a trilha que os acontecimentos estão percorrendo. Não é uma tarefa fácil. Mas é necessário amarrar as pontas, como se fala no jargão dos repórteres.

Ao indicar o ex-ministro da Justiça Alexandre de Moraes, 54 anos, para o Supremo Tribunal Federal (STF), o grupo político do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), 76 anos, deu visibilidade à estratégia que está usando para enfrentar a Operação Lava Jato. Eles estão corroendo a operação por dentro. É o mesmo modo operacional usado com sucesso e que resultou na queda da companheira da chapa de Temer, a então presidente da República, Dilma Rousseff (PT – RS), 69 anos,
A estratégia é simples é eficiente. Mas requer um grupo muito coeso e bem informado sobre o contexto para executá-la. É o caso das 10 pessoas de confiança que cercam Temer. Eles descobrem as vulnerabilidades do alvo e atacam. No caso de Dilma, existia uma lista enorme de contradições nas alianças políticas de sustentação do governo e na execução da economia. Na Lava Jato, é mais simples. Ela é executada por funcionários públicos federais – juiz, procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da Polícia federal (PF). Muito embora sejam ligados a poderes diferentes da União, a administração entre os poderes é interligada e tem padrões burocráticos de funcionamento, semelhantes em qualquer outro país do mundo. Um exemplo da vulnerabilidade da Lava Jato perante a máquina administrativa: uma inocente mudança de norma na tramitação de um pedido pode acarretar atrasos na liberação, por exemplo de uma diária de um policial federal. O atraso tem imenso potencial de fazer danos a uma investigação – que é um processo em que os acontecimentos têm a sua velocidade própria. Nos meus 40 anos como repórter investigativo, já vi isso acontecer. E não tem como saber se o atraso da diária foi por negligência ou dolo.
O fundamental desta estratégia é que ela não bate de frente com o alvo, no caso, a Operação Lava Jato, que tem imenso respaldo popular, graças ao trabalho de uma força-tarefa (formada por procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da PF) e do juiz federal Sérgio Moro. Dentro desta lógica de luta do grupo de Temer é que aconteceu a indicação do Moraes para ocupar a vaga no STF deixada pelo ministro Teori Zavascki, 69 anos, relator da Lava Jato, que morreu na queda de um bimotor em Paraty, no Rio de Janeiro. A indicação de Moraes ocupou enormes espaços nos noticiários, não poderia ser diferente. Além de ministro da Justiça, ele era quadro do PSDB e, se a sua indicação for aprovada pelo Senado, ele será ministro do STF e revisor dos processos relacionados à Operação Lava Jato no plenário da Corte. O grupo político de Temer sabe que a indicação não é garantia de que Moraes irá agir a favor deles. Por exemplo: Joaquim Barbosa, indicado pelo então presidente, Lula (PT), durante o julgamento do Escândalo do Mensalão – procure no Google – mandou, sem cerimônia, para a cadeia várias pessoas ligadas ao então governo. Há outras dezenas de exemplos. Mesmo se Moraes resolvesse contrariar, o que tem sido uma regra entre os indicados para o STF, a lentidão no andamento dos processos na Corte acabaria beneficiado os envolvidos os envolvidos na Lava Jato.
A grande contribuição que a indicação de Moraes trouxe no presente para o grupo político do Temer foi a de a mídia acreditar e espalhar que estava dando um tiro no pé. Não é por aí. Logo a seguir, espalhou-se que o substituto de Moraes, no Ministério da Justiça, poderia causar danos à Operação Lava Jato. Sempre é possível. Mas, se for descoberto, ele não dura 24 horas no cargo. Começo, profundamente, o modo de operar de cinco, dos 10 que fazem parte do núcleo do grupo político do Temer. São homens com larga experiência de agir nas sombras. Eles já fizeram uma queima de arquivo, livraram-se do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB – RJ), figura fundamental da queda de Dilma. Cunha perdeu o mandato e hoje cumpre prisão preventiva em Curitiba (PR). A próxima queima de arquivo será a do ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB – AL), homem astuto e bem articulado que jogou nos dois lados na queda da Dilma. Portanto, ele é aliado de quem vence. O que significa que amanhã pode se tornar um inimigo poderoso, ouvi de uma pessoa bem próxima a um dos 10 políticos do grupo do Temer.
Esse é o cenário da luta. Um desafio para o repórter acompanhar, porque está sendo travada entre quadro paredes.

Nos últimos anos, o Paraguai se tornou o paraíso dos bandidos brasileiros, especialmente as facções do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e do Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro. Um dos esteios dessa situação é a maneira passional com que o Brasil e o Paraguai tratam das questões dos migrantes brasileiros, que somam mais de um milhão vivendo no Paraguai _ país de 6 milhões de habitantes que fala dois idiomas, o espanhol e o guarani.
Na época de eleições no Paraguai, o problema dos migrantes vem à tona. Em 2008, no departamento (estado) de San Pedro, uma bandeira brasileira foi queimada em praça pública. Nos mais de 300 acampamentos de campesinos, como são conhecidos os sem terras por lá, havia faixas com os dizeres “Fuera Brasileiros” por todos os cantos. Os campesinos esperavam que fosse cumprida a promessa feita por políticos, de que eles receberiam as terras dos brasiguaios _ agricultores brasileiros que migram para lá. Não receberam. Houve conflito com os brasiguaios, e tiros foram disparados pelos dois lados.
Dois anos depois, em 2010, o senador paraguaio Robert Acevedo atacou os interesses do PCC e do CV em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia separada por uma avenida de Ponta Porã, no oeste do Mato Grosso do Sul. O senador foi tocaiado e alvejado com mais de 40 tiros. Escapou com ferimentos. Mas seus dois seguranças foram mortos. Na ocasião, os então presidentes Lula, do Brasil, e bispo Fernando Lugo, do Paraguai, encontraram-se na linha divisória entre Pedro Juan e Ponta Porã, parte da chamada fronteira seca, que totaliza 400 quilômetros dos 1,2 mil existentes entre os dois países. Eu estava lá e ouvi os dois tomarem uma série de decisões para barrar o avanço do crime organizado na região.
Como tantas outras iniciativas tomadas para frear a violência na região, não funcionou. Quero chamar atenção para um fato. Lugo e Lula se encontram na fronteira oficial entre os dois países. Na verdade, a fronteira de fato está a uns 100 quilômetros dali, dentro do território paraguaio. Toda essa faixa de terras paraguaias é ocupada por quase um milhão de brasileiros, a maioria com problemas de documentação, uma herança da época da ditadura do general Alfredo Stroessner (1954 e 1989). Eles ocupam, principalmente, a região da fronteira _ há lugares onde existem cinco brasileiros para um paraguaio.
Esta realidade alimenta a paranoia dos políticos paraguaios, de que o Brasil fará o mesmo que fez com o Acre (território boliviano invadido pelos seringueiros brasileiros que acabou sendo anexado ao Brasil). É dentro desse ambiente confuso que os criminosos conseguem se camuflar entre os migrantes que vivem e trabalham no Paraguai há mais de três décadas.
Conheço o problema dos migrantes brasileiros no Paraguai desde 1984. Pelo menos de dois em dois anos, ando por lá. A última vez foi na semana passada. Em todo esse tempo, tenho visto aumentar a coleção de fracassos na tentativa de resolver o problema da fronteira. Mesmo as iniciativas conjuntas entre os dois países fracassaram. O efeito do fracasso é o imenso crescimento do problema.
Nos anos 50, vinha do Paraguai para o Brasil contrabando de calças jeans, uísque, cigarro americano e perfumes europeus. Duas décadas depois, instalou-se nas terras paraguaias um verdadeiro entreposto de produtos eletrônicos, a maioria vinda da China. Nos anos 90, foi erguido um parque industrial de cigarros falsificados que abastecem boa parte do mercado brasileiro. Por último, o Paraguai se tornou entreposto da cocaína vinda da Colômbia, Bolívia e Peru e um grande produtor de maconha. A coca e a maconha são processadas em Capitán Bado, cidade paraguaia separada por uma avenida de Coronel Sapucaia, município agrícola no oeste do Mato Grosso do Sul. Depois, a droga é enviada ao Brasil, segundo maior mercado consumidor de drogas do mundo.
O problema da fronteira é grave. E não irá se resolver com medidas exóticas, tipo o muro que o presidente americano, Donald Trump, quer erguer na divisa com o México. Ou anexar as terras paraguaias ao Brasil. A solução é os dois governos resolverem o problema dos migrantes. O resto é secar gelo. Hoje, atuam na região a Polícia Federal (PF), a Polícia Nacional Paraguaia e muitos agentes do Drug Enforcement Administration (DEA). E também uma vasta estrutura brasileira de agentes da Receita Federal. As Forças Armadas Brasileiras também mantém operações na região. Digo mais: mesmo que colocassem um soldado do lado do outro até cobrir toda a extensão da fronteira, o problema não seria resolvido. E sabem por quê? Porque na fronteira Brasil-Paraguai, ninguém sabe quem é quem.

No jargão dos repórteres que trabalham com investigação é classificado como “pesadelo” o caso da morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da Operação Lava-Jato, Teori Zavascki. Vejamos: a fila de suspeitos dá a volta em um quarteirão, todos engravatados, em um ambiente contaminado pela paixão política, onde impressiona o volume de informações duvidosas circulando nas redes sociais e nos noticiários. Soma-se a isso o enlouquecimento dos editores das redações trazido pela pressão dos concorrentes. O famoso bafo na nuca.
Este é o quadro. Nos 40 anos que faço matéria investigativa trabalhei diversas vezes em situações consideradas “pesadelo”. Aprendi alguns caminhos que vou compartilhar com os colegas. O primeiro mandamento: aumente grau de desconfiança com as informações vindas das “fontes confiáveis”, afinal elas também estão contaminadas pelo elevado volume de dados circulando.
Normalmente, o repórter começa a trabalhar apostando em mais de uma linha de investigação. Mas, neste tipo de caso o “bafo da nuca”, não pode se permitir a tal luxo. O caminho escolhido pelo repórter tem de garantir duas coisas: uma produção de novidades de curto prazo e um bom grau de confiabilidade da notícia que está publicando.
Dentro deste contexto, um dos caminhos é focar em aspectos já definidos na investigação, que ao seu entendimento seja fundamental na apuração dos fatos. No caso do ministro, um dos atores da cena do desastre é o avião – Prefixo: PR- SOM, modelo Hawker Beechft King Air C90. A linha de investigação aqui não é o resultado da perícia, que não pode ser esquecido, mas deve demorar. E sim a rotina da aeronave. Temos que tratar como se fosse uma pessoa. O que aconteceu com ela nos últimos 30 dias. Saber por onde e com quem a bordo andou. Quem são os mecânicos responsáveis pela sua manutenção e o pessoal da limpeza. Onde ela fica estacionada quando está fora de trabalho. Saber se o lugar tem segurança ou não. Dar uma olhada no histórico dos últimos abastecimentos de combustível – ficar atento a quebra de rotina.
Se o avião foi sabotado ou não, uma investigação na rotina da aeronave tem grandes chances de esclarecer o caso. A morte do ministro, e de mais quatro pessoas que estavam na aeronave, me lembrou um filme chamado Dossiê Pelicano, que trata do assassinato de juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos e dos candidatos que iriam substituí-los.
Segue o link para quem tiver o interesse de assisti-lo: https://www.youtube.com/watch?v=BrqugcBLttw.