Sobre pistoleiros das facções, braço armado dos bicheiros, policiais corruptos e homicídios

O jogo do bicho foi a primeira grande organização criminosa do Brasil. Foto: EBN

Nos seus 124 anos de existência, o jogo do bicho no Brasil se transformou em uma das mais lucrativas atividades criminosas do país, graças à sua organização administrativa e à proteção do negócio por um eficiente braço armado usado na defesa do território do bicheiro. O braço armado dos banqueiros do jogo do bicho é fundamentalmente constituído de policiais corruptos, bem armados e treinados. Dentro dessa realidade, a decisão dos chefes das facções criminosas gaúchas de extorquirem os bicheiros pode ter acendido o pavio de uma espécie de guerra civil com o braço armado do jogo do bicho. Pelas informações existentes, a decisão das facções de extorquirem bicheiros só tem relevância no Rio Grande do Sul. No resto do país, especialmente no Rio de Janeiro, há espécie de convivência pacifica.

As razões pelas quais os bandidos vão à guerra são muito semelhantes aos que levam os países aos confrontos bélicos. Existem as razões públicas e as ocultas. No caso das razões públicas do confronto entre o braço armados dos bicheiros e as facções criminosas gaúchas, foi publicada, no sábado, dia 2 de dezembro, uma bem fundamentada reportagem em Zero Hora chamada “Tensões abalam elo de facções e jogos de azar”. Aqui, cabe um comentário. É o primeiro jornal do Brasil que mostra a amplitude desse confronto. A primeira notícia que se teve que ele estava acontecendo foi em julho, na ocasião em que os 27 chefes de facções foram transferidos das penitenciárias gaúchas para os presídios federais em outros estados. Na época, um presidiário divulgou uma longa mensagem de voz no WhatsApp – conhecida no jargão dos presos como “salva geral” –, dando instruções à massa carcerária e aos bandidos em liberdade de como deveria se comportar perante a transferência dos chefes. Em linhas gerais, pedia calma – a mensagem está disponível na internet. Mas, no meio da mensagem, havia uma pregação de “deixar os bicheiros trabalharem em paz”.  Achei estranha a mensagem por não ter conhecimento de que havia um confronto entre os banqueiros do bicho e as facções criminosas. Fiz várias ligações para colegas repórteres dos grandes jornais, principalmente no Rio de Janeiro. Eles consultaram suas fontes e retornaram a ligação, dizendo que não havia nada de relevante nas suas cidades. Também conversei com alguns policiais e bicheiros de fora do estado sobre o assunto, e ninguém relatou algo importante. Em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, uma fonte falou que houve ataques a pontos de venda do bicho que foram atribuídos a viciados em crack.

Esse é o lado visível desse confronto. Acredito que o tempo irá mostrar o que não estamos vendo hoje nesse episódio, que pode ter sido um dos motivos da explosão nos índices de homicídios no Rio Grande do Sul, em particular na Região Metropolitana de Porto Alegre. Pelo conhecimento que tenho sobre bicheiros e facções, posso ajudar o leitor a descobrir fatos que ainda estão nas sombras dessa guerra. Posso fazer isso porque conheço profundamente o funcionamento da organização dos bicheiros e a maneira de operar das facções gaúchas.  Sobre os bicheiros: a primeira reportagem que fiz foi em 1986 e, daí até 2014, data em que sai da redação, sempre acompanhei o assunto. Em 1992, publiquei a reportagem os Senhores do Jogo do Bicho, um mapa de quem eram e como funcionavam os negócios dos bicheiros. Em 1993, eu trabalhei na prisão da cúpula do jogo do bicho do Rio de Janeiro determinada pela juíza Denise Frossard. Entrevistei-a duas vezes, uma pessoalmente e outra por telefone. A última reportagem que fiz foi em 2012, em parceria com o repórter Carlos Etchichury,  detalhamos a modernização do jogo do bicho. Sobre as facções, eu acompanhei o nascimento delas, a sua estruturação, a sua consolidação em organizações letais e a expansão dos seus negócios para o Paraguai. No Rio Grande do Sul, as duas facções mais poderosas são Os Bala na Cara e Os Manos. O bom de ser um repórter velho é ter participado da história.

Vamos aos fatos.  O perfil dos negócios. Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que, em um período de 12 meses (maio de 2008 a maio de 2009), o jogo do bicho faturou, em todo o país, R$ 887 milhões. Até o final dos anos 80, o jogo do bicho era somente apostas feitas nos números que eram sorteados pelas loterias oficiais. No início dos anos 90, os bicheiros montaram as suas próprias loterias – significa que faziam as apostas e os sorteios dos números. E diversificaram os seus negócios, instalando caça-níqueis, bingos e casas de jogo de cartas – todos os equipamentos são fraudados para beneficiar a casa. Os bicheiros também consolidaram a sua organização em grupos formados por até 12 grandes banqueiros. Esses grupos se relacionam com os bicheiros pequenos, dando cobertura às apostas. No Rio Grande do Sul, existem três grandes grupos de banqueiros do jogo do bicho, um deles tem sede em Porto Alegre. Por fazer parte da cultura do Brasil, o banqueiro do jogo do bicho vive uma vida de rei: mora em endereços elegantes e tem o respeito dos seus vizinhos.

Se somarmos todo o dinheiro ganho pelas facções no Brasil, incluindo Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e os grupos gaúchos Bala na Cara e Os Manos, o faturamento não chega a 50% do que é ganho pelos bicheiros. No caso do Rio Grande do Sul, os banqueiros ocupam o quarto lugar entre os que mais ganham dinheiro. Um dos motivos das facções ganharem menos dinheiro é que o custo de operação delas é muito elevado, devido à taxa de risco ser grande. Por exemplo: a possibilidade de uma carga de drogas ser pega pela polícia é enorme. Já a de uma banca de jogo do bicho ser estourada pelas autoridades é mínima. As facções nasceram dentro das cadeias. No Estado, a maioria das grandes lideranças dos Bala na Cara e dos Manos estão encarceradas. E os que estão em liberdade moram nas favelas. A imagem deles na opinião pública é a de sanguinários. Todas as chacinas que acontecem são colocadas na conta deles pela mídia sob o título geral: guerra por pontos de droga.

O perfil dos combatentes. O braço armado dos bicheiros tem a presença forte de policiais – a maioria aposentados – e de ex-vigilantes de empresas de valores. Sobre a presença policial, podem ser encontradas informações em inquéritos concluídos e em andamento nas corregedorias da Polícia Civil e da Brigada Militar (BM). Também há muitas informações nas investigações feitas pela força-tarefa do Ministério Público gaúcho sobre os jogos de azar. Portanto, são homens treinados no uso de armas e de táticas de enfrentamento. O perfil do combatente da facção é bem diferente: são jovens que aprenderam a atirar nas ruas. Agem sob o efeito de drogas e usam a profanação dos cadáveres dos seus inimigos – como cortar cabeças – como cartão de apresentação.

Aqui chamo a atenção dos meus colegas velhos e novatos para o seguinte: o banqueiro do jogo do bicho é tão bandido e violento como o chefe de facção. Para consolidar o seu território, ele matou o seu concorrente. Para ter o seu braço armado, ele subornou policiais. E o dinheiro que ele ganha vem da manipulação dos resultados dos jogos pelas suas loterias e do equipamento viciado que usa nas salas de jogos. Portanto, digo o seguinte: a conversa que circula em Brasília de que os bicheiros apoiam a legalização dos jogos de azar é papo furado.. O grosso do lucro do banqueiro do jogo do bicho não vem de não pagar impostos. Mas da fraude nos sorteios dos números das loterias e dos equipamentos usados nas salas de jogos. A legalização acabaria com isso. Mais ainda: os bicheiros são mestres em guerras por territórios. Aqui no Rio Grande do Sul talvez as facções estejam sendo usadas nessa guerra e nem saibam disso.  Os Bala na Cara e os Manos podem estar lutando em guerra alheia.

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