{"id":14411,"date":"2026-02-10T08:15:37","date_gmt":"2026-02-10T11:15:37","guid":{"rendered":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/?p=14411"},"modified":"2026-02-10T08:15:37","modified_gmt":"2026-02-10T11:15:37","slug":"a-imprensa-e-os-motivos-por-que-as-estatisticas-de-feminicidio-insistem-em-nao-cair","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2026\/02\/10\/a-imprensa-e-os-motivos-por-que-as-estatisticas-de-feminicidio-insistem-em-nao-cair\/","title":{"rendered":"A imprensa e os motivos por que as estat\u00edsticas de\u00a0feminic\u00eddio insistem em n\u00e3o cair"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"383\" data-attachment-id=\"14412\" data-permalink=\"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2026\/02\/10\/a-imprensa-e-os-motivos-por-que-as-estatisticas-de-feminicidio-insistem-em-nao-cair\/image-38\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-2.png?fit=1170%2C700&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1170,700\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-2.png?fit=640%2C383&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-2.png?resize=640%2C383&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-14412\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-2.png?resize=1024%2C613&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-2.png?resize=300%2C179&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-2.png?resize=768%2C459&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-2.png?w=1170&amp;ssl=1 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Quem alimenta a sobreviv\u00eancia da cultura da viol\u00eancia contra a mulher? Foto: EBC<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Nas primeiras semanas do ano eu estava na fila do caixa de um supermercado em Porto Alegre (RS) quando ouvi o coment\u00e1rio de uma jovem que fez-me sentir ofendido como rep\u00f3rter. Pelas vestes que usava, era uma t\u00edpica garota de classe m\u00e9dia ga\u00facha, portanto, uma pessoa bem-informada. Ela comentou o seguinte com uma amiga: \u201cEsse monte de feminic\u00eddio \u00e9 porque a imprensa fica fazendo sensacionalismo dos crimes e acaba encorajando os malucos\u201d. Claro que, na hora, n\u00e3o levantei a bandeira da liberdade de imprensa nem armei uma discuss\u00e3o. Fiquei na minha. Aprendi na lida de rep\u00f3rter que \u00e9 necess\u00e1rio levar este tipo de coment\u00e1rio para a reda\u00e7\u00e3o e debat\u00ea-lo com os colegas. Fiz isso entre 1979 e 2014, tempo que trabalhei em jornal. Atualmente, levo o assunto para ser debatido em uma ampla e bem organizada rede de colegas rep\u00f3rteres que tenho espalhados pelo Brasil, pa\u00edses vizinhos e em outros cantos do mundo. Formei esta rede depois que sai da reda\u00e7\u00e3o porque continuo rodando pelas estradas em busca de hist\u00f3rias para contar em livros-reportagem, palestras e outras plataformas. Vamos conversar sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa n\u00e3o faz sensacionalismo na cobertura dos casos de feminic\u00eddio. O que acontece \u00e9 que s\u00e3o crimes de grande viol\u00eancia, em que a simples divulga\u00e7\u00e3o da not\u00edcia causa um enorme impacto \u2013 h\u00e1 v\u00e1rios casos dispon\u00edveis na internet. Al\u00e9m disso, eles ocorrem com assustadora frequ\u00eancia. No ano passado, no Brasil, houve um recorde de agress\u00f5es contra mulheres, como foi revelado no F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica: 37,5% das brasileiras sofrerem viol\u00eancia, somando mais de 21 milh\u00f5es de v\u00edtimas. Foi o pior ano desde 2017. Nas conversas que tive com os colegas rep\u00f3rteres por conta do coment\u00e1rio que ouvi na fila do supermercado chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que podemos melhorar a cobertura dos casos fornecendo ao leitor informa\u00e7\u00f5es sobre os motivos que levam as estat\u00edsticas de feminic\u00eddio a insistirem em n\u00e3o cair, como na maioria dos outros crimes. A quest\u00e3o \u00e9 a seguinte. Existe um discurso de viol\u00eancia contra a mulher consolidado no Brasil que circula h\u00e1 muitos anos. Sou testemunha disso. Por motivos que vou explicar aqui, fui criado em um ambiente de muita viol\u00eancia contra a mulher. Nasci e vivi at\u00e9 os 18 anos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Rio Pardo e Encruzilhada do Sul, no Vale do Rio Pardo, no Rio Grande Sul. Onde fui testemunha de muitas surras e mortes de mulheres. Da\u00ed vem o meu interesse por este tipo de crime. Na reda\u00e7\u00e3o, fiz muitas mat\u00e9rias sobre o assunto. E desde que montei o meu blog, Hist\u00f3rias Mal Contadas, sempre que tenho uma oportunidade \u201cbato na pauta\u201d, como foi o caso do post de 4 de setembro de 2018 chamado&nbsp;<em>Procurados vivos ou mortos<\/em>. No post, destaco o caso da professora Cl\u00e1udia Hartleben, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que desapareceu na noite de 9 de abril de 2015, num caso em que, apesar do tempo que j\u00e1 se passou, ainda existem \u201cpistas quentes\u201d que podem levar \u00e0 solu\u00e7\u00e3o. Dos centros urbanos ao mais long\u00ednquo rinc\u00e3o do Brasil, a cultura da viol\u00eancia contra as mulheres sobrevive.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos de hist\u00f3ria, s\u00e3o recentes as leis de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. A Lei Maria da Penha (Lei n\u00ba 11.340\/2006) foi um avan\u00e7o na preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica. A Lei do Feminic\u00eddio (Lei 13.104\/2015), promulgada h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada, tornou o crime aut\u00f4nomo (elementos e tipo penal pr\u00f3prios), com penas de 20 a 40 anos. Um colega me lembrou que at\u00e9 mar\u00e7o de 2021 era permitida a tese da \u201cdefesa da honra\u201d, que assim pode ser traduzida: o marido que flagrasse a esposa o traindo podia \u201cdefender\u201d a sua honra. Frequentemente, matando a mulher e n\u00e3o sendo punido pelo crime. A tese foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Nas d\u00e9cadas de 60 e 70, \u00e9poca da minha adolesc\u00eancia no interior ga\u00facho, os j\u00faris que envolviam crimes \u201ccontra a honra\u201d eram muitos concorridos. O colega me alertou que a rearticula\u00e7\u00e3o da extrema direita ao redor do mundo deu uma importante sobrevida \u00e0 cultura da viol\u00eancia contra a mulher no Brasil, derrubando v\u00e1rios avan\u00e7os que as mulheres haviam conseguido em favor da sua liberdade individual. Ele citou como exemplo o primeiro mandato (2017 \u2013 2021) do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos. Na ocasi\u00e3o, foi implementada uma pol\u00edtica antiaborto, derrubando direitos adquiridos h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo pelas mulheres \u2013 mat\u00e9rias na internet. No Brasil, durante o governo (2019 \u2013 2022) do presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, a pauta de costumes, criada e divulgada pelos parlamentares governistas, atacou direitos adquiridos das mulheres, como o aborto em caso de estupro \u2013 mat\u00e9rias na internet. Al\u00e9m disso, parlamentares ligados \u00e0 extrema direita t\u00eam pregado a submiss\u00e3o das mulheres aos seus companheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Para arrematar a nossa conversa. N\u00e3o estou defendendo que temos que anexar \u00e0s nossas mat\u00e9rias sobre feminic\u00eddio uma tese hist\u00f3rica sobre a cultura de viol\u00eancia contra a mulher. Mas que devemos adicionar aos textos uma explica\u00e7\u00e3o dos motivos pelos quais essa cultura persiste e resiste aos avan\u00e7os da legisla\u00e7\u00e3o e das novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o, que facilitam a circula\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es. Em 2026 haver\u00e1 elei\u00e7\u00e3o para deputados (federal e estadual), senadores, governadores e presidente da Rep\u00fablica. Uma \u00f3tima oportunidade para lan\u00e7ar luzes nos cantos escuros da persist\u00eancia da cultura de viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas primeiras semanas do ano eu estava na fila do caixa de um supermercado em Porto Alegre (RS) quando ouvi o coment\u00e1rio de uma jovem que fez-me sentir ofendido como rep\u00f3rter. Pelas vestes que usava, era uma t\u00edpica garota de classe m\u00e9dia ga\u00facha, portanto, uma pessoa bem-informada. 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