{"id":20371,"date":"2026-09-25T08:42:51","date_gmt":"2026-09-25T11:42:51","guid":{"rendered":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/?p=20371"},"modified":"2026-09-25T08:42:51","modified_gmt":"2026-09-25T11:42:51","slug":"a-longa-caminhada-pelos-sertoes-do-jornalismo-do-reporter-zuenir-ventura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2026\/09\/25\/a-longa-caminhada-pelos-sertoes-do-jornalismo-do-reporter-zuenir-ventura\/","title":{"rendered":"A longa \u201ccaminhada\u201d pelos sert\u00f5es do jornalismo do rep\u00f3rter Zuenir Ventura"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"425\" data-attachment-id=\"20372\" data-permalink=\"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2026\/09\/25\/a-longa-caminhada-pelos-sertoes-do-jornalismo-do-reporter-zuenir-ventura\/image-108\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?fit=2560%2C1700&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"2560,1700\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"image\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?fit=640%2C425&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8.png?resize=640%2C425&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-20372\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?resize=1024%2C680&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?resize=300%2C199&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?resize=768%2C510&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?resize=1536%2C1020&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?resize=2048%2C1360&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8-scaled.png?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O caso Chico Mendes despertou a aten\u00e7\u00e3o para a devasta\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre que surge uma oportunidade lembro-me da rede de amigos rep\u00f3rteres que fiz em minhas andan\u00e7as pelos sert\u00f5es do Brasil e pa\u00edses vizinhos, trabalhando na cobertura de conflitos de terra, crime organizado nas fronteiras e migra\u00e7\u00f5es. Foi em uma dessas coberturas que tive o orgulho de conhecer o jornalista Zuenir Ventura. Na segunda-feira (21), completei 76 anos de vida, 50 na lida de rep\u00f3rter, 40 em reda\u00e7\u00e3o de jornal, ainda com f\u00f4lego para seguir rodando pelas estradas em busca de hist\u00f3rias para contar. Na manh\u00e3 seguinte, ter\u00e7a-feira (22), soube da morte do Zuenir. Tinha 95 anos. A not\u00edcia me trouxe \u00e0 lembran\u00e7a as circunst\u00e2ncias em que nos conhecemos, durante a cobertura do julgamento dos matadores do sindicalista e ambientalista Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes (1944 \u2013 1988). Em 22 de dezembro de 1988, Chico foi emboscado e morto a tiros de escopeta disparados por Darci Alves Pereira, nos fundos da sua casa, em Xapuri, uma pequena cidade no meio da selva amaz\u00f4nica, no estado do Acre. O crime foi encomendado pelo fazendeiro e grileiro Darly Alves da Silva, pai do matador. Se n\u00e3o fosse o trabalho de investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica de Zuenir, a morte de Chico Mendes teria sido mais uma na longa lista de \u201cassassinatos de encomenda n\u00e3o resolvidos\u201d de l\u00edderes populares da Floresta Amaz\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de conhecer o Zuenir pessoalmente eu j\u00e1 o conhecia pelas reportagens que ele fez sobre o assassinato do sindicalista. Durante uma semana, fiquei trancado no arquivo do jornal Zero Hora, em Porto Alegre (RS), lendo as mat\u00e9rias que Zuenir publicou no Jornal do Brasil. Entrei para a reda\u00e7\u00e3o como rep\u00f3rter em 1979. Em 1990, no julgamento dos matadores de Chico Mendes, j\u00e1 era um profissional calejado, com muitas coberturas de conflitos no curr\u00edculo. Portanto, sabia o que era escrever um texto \u00e0s pressas, enquanto os acontecimentos ainda estavam se desenrolando. Os textos de Zuenir sobre a morte de Chico transmitiam seguran\u00e7a e conhecimento dos fatos. Ele conseguiu encontrar uma testemunha que contou o que acontecia entre as quatro paredes da casa onde viviam o matador e seu pai. H\u00e1 v\u00e1rios livros e farto material \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o na internet. Assim resumo o que tornou Chico Mendes um alvo dos grileiros de terras da Amaz\u00f4nia, em especial de Darly. Na \u00e9poca, a principal atividade econ\u00f4mica na regi\u00e3o de Xapuri era a coleta de l\u00e1tex, a mat\u00e9ria-prima da borracha natural, extra\u00eddo da seringueira, uma \u00e1rvore de grande porte nativa da Amaz\u00f4nia. Portanto, os seringueiros dependiam da floresta em p\u00e9 para tirar o seu sustento. Os grileiros derrubavam as \u00e1rvores para plantar pastagens e vender ilegalmente a gleba para criadores de gado. Chico Mendes, o sindicalista Wilson Pinheiro e os freis ligados \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o aperfei\u00e7oaram uma t\u00e1tica de resist\u00eancia ao corte das seringueiras chamada \u201cempate\u201d. Consistia em reunir um grupo de seringueiros e seus familiares para abra\u00e7ar as \u00e1rvores que seriam abatidas e convencer os trabalhadores que iam realizar o corte a desistir da tarefa. Na \u00e9poca, movimentos de defesa do meio ambiente j\u00e1 estavam presentes e organizados em v\u00e1rios pa\u00edses. E foi atrav\u00e9s deles que o \u201cempate\u201d foi parar nas p\u00e1ginas dos grandes jornais e tornou Chico Mendes conhecido internacionalmente. Os tempos estavam mudando no Brasil em 1988. A ditadura militar chegara ao fim, uma nova Constitui\u00e7\u00e3o fora publicada, o pa\u00eds se redemocratizava e censura \u00e0 imprensa finalmente acabara. Mas Chico Mendes sabia que os grileiros de terra o tinham marcado para morrer e que fariam de tudo para cumprir a senten\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma semana ap\u00f3s o crime, Darly e Darci foram presos. Em 1989, por conta da elei\u00e7\u00e3o do primeiro presidente da Rep\u00fablica pelo voto direto desde 1960, ap\u00f3s o longo per\u00edodo de generais presidentes indicados pelo regime militar, houve um grande debate pol\u00edtico no pa\u00eds. E um dos assuntos mais debatidos era o assassinato de Chico Mendes. O julgamento foi marcado para dezembro de 1990. Uma semana antes, cheguei em um voo a Rio Branco, capital do Acre. Distante 180 quil\u00f4metros de Xapuri, na \u00e9poca por uma estrada de ch\u00e3o batido que ficava intransit\u00e1vel quando chovia. Tomei a decis\u00e3o de n\u00e3o alugar um carro e ir de \u00f4nibus. Caso atolasse, haveria mais gente para empurrar o ve\u00edculo. N\u00e3o deu outra: o \u00f4nibus atolou duas vezes at\u00e9 Xapuri. Antes de entrar na cidade fomos parados por uma patrulha da Pol\u00edcia Militar (PM). Um policial olhou para mim com jeito desconfiado e pediu meus documentos. Disse que eu tinha cara de pistoleiro. Chegamos \u00e0 noite ao centro da cidade. Os quartos dos escassos hot\u00e9is j\u00e1 tinham sido ocupados ou reservados por jornalistas de v\u00e1rios cantos do mundo. Conversei com os freis que trabalhavam no sindicato local dos trabalhadores rurais. Eles conseguiram um quarto para mim no andar de cima de uma borracharia. Dormi l\u00e1 aquela noite. No dia seguinte, bem cedo, levantei-me e fui sentar em um banco na pra\u00e7a \u00e0 espera de que abrisse um lugar onde eu poderia tomar um caf\u00e9. Eu estava meio zonzo, creio que pela diferen\u00e7a de tr\u00eas horas no fuso hor\u00e1rio entre o Rio Grande do Sul e o Acre. Um colega rep\u00f3rter do Rio de Janeiro que passava pela pra\u00e7a perguntou se estava tudo bem comigo. Contei-lhe o meu problema com o hotel. Lembro-me at\u00e9 hoje das suas palavras: \u201cLiga para o Zuenir, ele conhece todo mundo aqui. Vai te ajudar\u201d. Esperei o sindicato abrir e liguei. Zuenir atendeu e me ouvi atentamente. Pediu para esperar. Dei-lhe o n\u00famero do telefone onde eu estava e aguardei. Na \u00e9poca, as liga\u00e7\u00f5es eram discadas. Os primeiros celulares no Brasil haviam come\u00e7ado a operar no Rio de Janeiro naquele dezembro de 1990. Algum tempo depois, Zuenir retornou a liga\u00e7\u00e3o. Disse para que eu fosse ao Hotel Veneza e falasse com a dona. E me deu o nome da senhora, que n\u00e3o lembro. Aproveitei a oportunidade para uma conversa. Falei que era especializado em conflitos agr\u00e1rios e que tinha lido tudo que ele publicou a respeito da morte do Chico. Pedi dicas sobre que portas deveria bater na cidade para busca informa\u00e7\u00f5es e com quem conversar para entender o rolo todo. Ficamos mais de uma hora no telefone. Ele foi muito atencioso e did\u00e1tico. Ali come\u00e7ou uma amizade. Nas v\u00e1rias vezes que estive no Rio de Janeiro nos anos seguintes, fazendo reportagens sobre os conflitos nas favelas, aproveitava para conversarmos. Em outras ocasi\u00f5es, fal\u00e1vamos por telefone. Sou um rep\u00f3rter estradeiro e a estrada \u00e9 um lugar solit\u00e1rio. Zuenir era o cara para quem eu ligava \u201cpra trocar uma ideia\u201d. Durante o julgamento, n\u00e3o consegui mais falar com ele porque a cobertura foi uma correria danada. Al\u00e9m do grande volume de informa\u00e7\u00f5es, o fuso hor\u00e1rio tornava a vida do rep\u00f3rter um inferno. A reda\u00e7\u00e3o fechava geralmente por volta das 20h. Em Xapuri eram apenas 17h e as coisas ainda estavam acontecendo. Os r\u00e9us foram condenados a 19 anos de cadeia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para encerrar. Sempre que recebo a not\u00edcia da morte de um colega com quem fiz amizade percorrendo os sert\u00f5es do Brasil eu lembro o que me disse certa vez um desses colegas, durante a cobertura de conflito de terra nos confins do Mato Grosso do Sul. Assim resumo: \u201cRep\u00f3rter morre, mas as hist\u00f3rias que escreveu continuam rodando por a\u00ed\u201d. Zuenir deixou rodando por a\u00ed um acervo de livros, reportagens e outras obras. Boa caminhada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre que surge uma oportunidade lembro-me da rede de amigos rep\u00f3rteres que fiz em minhas andan\u00e7as pelos sert\u00f5es do Brasil e pa\u00edses vizinhos, trabalhando na cobertura de conflitos de terra, crime organizado nas fronteiras e migra\u00e7\u00f5es. Foi em uma dessas coberturas que tive o orgulho de conhecer o jornalista Zuenir Ventura. 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