{"id":20482,"date":"2026-10-02T02:04:16","date_gmt":"2026-10-02T05:04:16","guid":{"rendered":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/?p=20482"},"modified":"2026-10-02T02:04:16","modified_gmt":"2026-10-02T05:04:16","slug":"uma-viagem-pela-br-386-no-meio-de-chuva-e-ventos-turbinados-pelo-el-nino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2026\/10\/02\/uma-viagem-pela-br-386-no-meio-de-chuva-e-ventos-turbinados-pelo-el-nino\/","title":{"rendered":"Uma viagem pela BR-386 no meio de chuva e ventos turbinados pelo El Ni\u00f1o"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"424\" data-attachment-id=\"20483\" data-permalink=\"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2026\/10\/02\/uma-viagem-pela-br-386-no-meio-de-chuva-e-ventos-turbinados-pelo-el-nino\/image-110\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png?fit=1024%2C678&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1024,678\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"image\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png?fit=640%2C424&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png?resize=640%2C424&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-20483\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png?resize=300%2C199&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png?resize=768%2C509&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As chuvas intensas do in\u00edcio da primavera tornam as estradas mais perigosas para os motoristas Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia dias que os aparelhos celulares dos ga\u00fachos vinham recebendo alertas da Defesa Civil informando que o Rio Grande do Sul seria alvo de vendavais e chuvas torrenciais no \u00faltimo fim de semana de setembro. Mesmo assim, nem passou pela minha cabe\u00e7a a possibilidade de cancelar a viagem que havia programado para o final da madrugada de domingo (27). Partido de Porto Alegre, percorreria de carro 360 quil\u00f4metros at\u00e9 Constantina, no norte do territ\u00f3rio ga\u00facho, 94% do trajeto rodando pela ic\u00f4nica BR-386. Constru\u00edda nos anos 1960, a rodovia se estende por 600 quil\u00f4metros entre a Regi\u00e3o Metropolitana da capital ga\u00facha e a divisa com Santa Catarina atravessando o cora\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o produtora de gr\u00e3os do estado. Nas \u00e9pocas de colheita e transporte das safras, a 386 se enche de caminh\u00f5es transportando soja, milho, trigo e outros produtos agr\u00edcolas, o que lhe conferiu o nome de Estrada da Produ\u00e7\u00e3o e a tornou um s\u00edmbolo do in\u00edcio da bem-sucedida era das lavouras de soja no Brasil, embri\u00e3o do que hoje chamamos de agroneg\u00f3cio e que representa uma parcela significativa do PIB nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comecei a viajar pela BR-386 em 1979, ano em que iniciei a carreira de rep\u00f3rter nas reda\u00e7\u00f5es de jornais. Por ter me especializado em conflitos agr\u00e1rios, crime organizado nas fronteiras e migra\u00e7\u00f5es internas, sempre viajei muito pelos sert\u00f5es do Brasil. A maioria dessas viagens come\u00e7ava pela 386, a rota natural para quem sai do sul rumo ao oeste e ao centro do pa\u00eds. Quando deixei a reda\u00e7\u00e3o, em 2014, havia feito um monte de amigos \u00e0 beira das estradas por onde passei. A minha viagem programada para domingo era mais uma oportunidade de conversar com o \u201cpessoal da 386\u201d sobre as elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo fim de semana. Mesmo longe das reda\u00e7\u00f5es, continuo viajando em busca de boas hist\u00f3rias para contar. Foi o caso do livro&nbsp;<em>A Hist\u00f3ria Perdida das Benzedeiras Ga\u00fachas<\/em>, que publiquei em maio de 2025, mas que me levou para a estrada um ano antes. Eu e o rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico Em\u00edlio Pedroso fizemos a maioria das entrevistas para o livro em 2024, o ano em que o Rio Grande do Sul foi atingido por uma enchente catastr\u00f3fica que devastou in\u00fameras cidades e inutilizou boa parte da infraestrutura rodovi\u00e1ria. A BR-386 foi duramente castigada, registrando mais de uma centena de deslizamentos de encostas, queda de barreiras e pontes danificadas \u2013 h\u00e1 um vasto material dispon\u00edvel na internet. A pr\u00e1tica da Defesa Civil de avisar a chegada de tempestades severas \u00e9 recente. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, s\u00f3 descobr\u00edamos a intensidade do temporal na hora que ele acontecia. Sai de Porto Alegre ao amanhecer de domingo. Viajava sozinho. O ar estava abafado, sinal que vinha chuva. Mas \u00e9 primavera, uma esta\u00e7\u00e3o normalmente chuvosa no Rio Grande do Sul. Antes de pegar a estrada parei em um posto de combust\u00edveis, completei o tanque, calibrei os pneus e tomei tr\u00eas cuias de mate enquanto ouvia os colegas jornalistas alertarem no notici\u00e1rio do r\u00e1dio que as chuvas e ventos que estavam chegando eram \u201cturbinados\u201d pelo El Ni\u00f1o, um fen\u00f4meno clim\u00e1tico natural que acontece devido ao aquecimento anormal das \u00e1guas superficiais do Oceano Pac\u00edfico Equatorial. Embora os primeiros registros do El Ni\u00f1o datem do s\u00e9culo 16, meteorologistas afirmam que seus efeitos, entre eles a ocorr\u00eancia de chuvas acima da m\u00e9dia no sul do Brasil, v\u00eam sendo intensificados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Ao ouvir a explica\u00e7\u00e3o dos colegas sobre o El Ni\u00f1o lembrei-me daqueles plant\u00f5es de finais de semana na reda\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o acontecia nada importante e para preencher as p\u00e1ginas vazias se recorria a assuntos menos relevantes, e ainda acrescentando explica\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias para \u201cespichar\u201d a mat\u00e9ria. Como se diz no interior ga\u00facho: \u201ca not\u00edcia entrou por um ouvido e saiu pelo outro\u201d. Sa\u00ed do posto de combust\u00edveis e 45 minutos depois estava rodando pela BR-386.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram tranquilos os primeiros 136 quil\u00f4metros entre Porto Alegre e Marques de Souza, pequena cidade agr\u00edcola nas proximidades de Lajeado. Nesse trecho, a estrada \u00e9 duplicada e ca\u00eda uma chuva mansa. As coisas come\u00e7aram a se complicar quando iniciei a subida de sete quil\u00f4metros da \u00edngreme Serra de Soledade. Nessa \u00e9poca do ano s\u00e3o frequentes os nevoeiros naquele ponto. No cume da serra fica Pouso Novo, outra pequena cidade agr\u00edcola, que estava encoberta pela neblina. Mas j\u00e1 enfrentei situa\u00e7\u00f5es piores na estrada. Liguei o pisca-alerta e segui atr\u00e1s de um caminh\u00e3o. O caminh\u00e3o entrou no estacionamento de um restaurante e fui em frente. Meu objetivo era parar e comer alguma coisa em Soledade, que fica a 60 quil\u00f4metros de Pouso Novo. O que aconteceu na meia hora seguinte eu nunca vou esquecer. Dissipado o nevoeiro, come\u00e7ou a cair uma chuva de pingos grandes que faziam um som semelhante a granizo quando batiam na lataria do carro. A intensidade da chuva logo criou uma camada de \u00e1gua no asfalto. Reduzi ainda mais a velocidade para o carro n\u00e3o aquaplanar. Naquele trecho da rodovia a pista \u00e9 simples e os caminh\u00f5es jogavam muita \u00e1gua sobre os ve\u00edculos que se deslocavam em sentido contr\u00e1rio. Apesar das dificuldades causadas pelo volume da chuva, vinha mantendo sem problemas o controle do carro, um ve\u00edculo pequeno. S\u00f3 n\u00e3o estava preparado (e ainda estou processado na minha cabe\u00e7a) para o que aconteceu a seguir. De uma hora para outra, come\u00e7ou um vento muito forte vindo da direita para esquerda que fez todo o carro balan\u00e7ar. A minha preocupa\u00e7\u00e3o era com a real possibilidade do vento me empurrar para a pista contr\u00e1ria e eu ficar de frente com uma carreta. Lembrei-me da not\u00edcia que ouvira dias atr\u00e1s, de que um vento muito forte havia tombado duas carretas que estavam paradas \u00e0 espera de carga em Nova Santa Rita, cidade na Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre. Pensei: eu, em um carro pequeno, sozinho e com pouca bagagem, seria levado pelo vento com uma pena. Lembrei-me ent\u00e3o de uma reportagem que fiz explicando que o vento forte que corre dentro de uma tempestade passa por um corredor destruindo tudo que encontra pela frente. Eu estava no meio do tal corredor. S\u00f3 restava torcer para que fosse estreito e eu conseguisse chegar do outro lado antes de ser arremessado na pista contr\u00e1ria. Consegui atravessar e o vento parou de balan\u00e7ar o carro. N\u00e3o sei com exatid\u00e3o o tempo que fiquei no meio do vento. Pareceu ser uma eternidade. Consegui sair vivo para contar a hist\u00f3ria. Vou conversar com meteorologistas para saber exatamente do que escapei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para terminar a hist\u00f3ria. O resto da viagem foi tranquilo. As chuvas que se iniciaram no domingo (27) no Rio Grande do Sul entraram semana adentro, provocando inunda\u00e7\u00f5es que atingiram 17 cidades e 9 mil pessoas nas regi\u00f5es norte e nordeste. As viagens que fiz em 2024 para o livro das benzedeiras foram uma barra devido as enchentes. Mas foram apavorantes os in\u00e9ditos momentos que passei quando foi pego no corredor de vento de uma tempestade turbinada pelo El Ni\u00f1o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia dias que os aparelhos celulares dos ga\u00fachos vinham recebendo alertas da Defesa Civil informando que o Rio Grande do Sul seria alvo de vendavais e chuvas torrenciais no \u00faltimo fim de semana de setembro. 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