{"id":4085,"date":"2021-01-04T16:54:28","date_gmt":"2021-01-04T19:54:28","guid":{"rendered":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/?p=4085"},"modified":"2021-01-04T16:54:28","modified_gmt":"2021-01-04T19:54:28","slug":"no-pos-pandemia-os-jornalistas-voltam-para-as-redacoes-ou-permanecem-em-home-office","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2021\/01\/04\/no-pos-pandemia-os-jornalistas-voltam-para-as-redacoes-ou-permanecem-em-home-office\/","title":{"rendered":"No p\u00f3s-pandemia, os jornalistas voltam para as reda\u00e7\u00f5es ou permanecem em home office?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"4086\" data-permalink=\"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2021\/01\/04\/no-pos-pandemia-os-jornalistas-voltam-para-as-redacoes-ou-permanecem-em-home-office\/redacao01\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?fit=2048%2C1316&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"2048,1316\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"redacao01\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?fit=640%2C411&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?resize=598%2C384&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4086\" width=\"598\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?resize=1024%2C658&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?resize=300%2C193&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?resize=768%2C494&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?resize=1536%2C987&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/redacao01.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 598px) 100vw, 598px\" \/><figcaption>Reda\u00e7\u00e3o  nos ano 80 no auge do jornal impresso. Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Sempre lembro aos meus colegas que no trabalho do rep\u00f3rter acontecem epis\u00f3dios que o acompanham pela vida afora, mesmo depois que ele deixa a reda\u00e7\u00e3o. Guardo comigo muitos desses momentos. Um deles aconteceu em 1984, em Assun\u00e7\u00e3o, capital do Paraguai. Fui at\u00e9 l\u00e1 fazer uma reportagem sobre o general Alfredo Stroessner, que comandou a mais longa ditadura da Am\u00e9rica do Sul, entre 1954 e 1989, e aproveitei para visitar a reda\u00e7\u00e3o do ABC Color. Fundado em 1967, o jornal fazia oposi\u00e7\u00e3o a Stroessner e fora fechado pelos militares. E logo que abri a porta da reda\u00e7\u00e3o deparei com uma cena impressionante: as luzes apagadas, as cadeiras em cima das mesas e as m\u00e1quinas de escrever cobertas de poeira. O jornal reabriu em 1989, quando o general Andr\u00e9s Rodrigues derrubou Stroessner, que se exilou em Bras\u00edlia, onde morreu em 2006. Logo que pandemia causada pela Covid-19 se instalou e jornalistas no Brasil e em v\u00e1rias partes do mundo deixaram as reda\u00e7\u00f5es e foram trabalhar em casa, me lembrei do que havia visto no ABC.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite de sexta-feira sempre foi a mais agitada nas reda\u00e7\u00f5es, porque eram fechadas duas edi\u00e7\u00f5es, a de s\u00e1bado e a do domingo. Hoje, passar \u00e0 noite na frente de um jornal d\u00e1 um n\u00f3 na garganta, como me descreveu um colega de S\u00e3o Paulo. Comecei a trabalhar em reda\u00e7\u00e3o em 1979, creio que era o auge do jornal impresso. Para quem n\u00e3o \u00e9 do ramo, n\u00f3s podemos dividir um jornal em tr\u00eas partes: reda\u00e7\u00e3o, comercial e circula\u00e7\u00e3o (esta \u00faltima, subdividida em impress\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e transporte). As d\u00e9cadas de 80 e 90 foram os anos das grandes mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas nos jornais. Lembro que a cada mudan\u00e7a pessoas eram demitidas e substitu\u00eddas por m\u00e1quinas e o lugar onde trabalhavam ficava vazio, ou como se falava na \u00e9poca: virava moradia de fantasma. As maiores mudan\u00e7as foram trazidas pela populariza\u00e7\u00e3o da internet e do telefone celular. Os donos dos jornais enfiaram garganta abaixo dos leitores a substitui\u00e7\u00e3o do jornal papel pelo online (site). Com isso eliminaram, ou diminu\u00edram, a atividade a n\u00edveis m\u00ednimos, principalmente a circula\u00e7\u00e3o, que era justamente o maior custo, por envolver a impress\u00e3o do jornal (papel, tinta e um parque gr\u00e1fico) e o transporte (frotas de caminh\u00f5es e outros ve\u00edculos).<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2014, eu sa\u00ed da reda\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, o processo de decad\u00eancia econ\u00f4mica dos jornais se acelerava porque estava acontecendo uma migra\u00e7\u00e3o de anunciantes para outras plataformas de comunica\u00e7\u00e3o na internet e um \u00eaxodo de assinantes para as redes sociais. A resposta dos donos dos jornais \u00e0 crise foi demitir centenas de jornalistas e fazer uma reda\u00e7\u00e3o \u00fanica, concentrando v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o, como jornal, r\u00e1dio e TV. Dentro dessa nova estrutura, o rep\u00f3rter come\u00e7ou a fazer texto, foto, \u00e1udio e v\u00eddeo. E a receber um dos menores sal\u00e1rios da hist\u00f3ria da categoria. Esse processo come\u00e7ou pelos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. E foi detido em 2016, quando, contrariando todas as pesquisas, se elegeu presidente dos Estados Unidos Donald Trump (republicano). A elei\u00e7\u00e3o foi fortemente influenciada por uma m\u00e1quina de disparar fake news montada por pessoas altamente qualificadas em comunica\u00e7\u00e3o social. O passatempo do presidente americano era chutar as canelas dos jornalistas e decretar o fim da imprensa tradicional e a nova era das redes sociais, onde publicava a sua vers\u00e3o dos fatos sem ser contrariado. Ao se posicionar contra a globaliza\u00e7\u00e3o, Trump comprou briga \u201ccom os cachorros grandes\u201d da economia americana. Esse fato, somado ao seu apoio p\u00fablico a racistas e outros extremistas, mais a sua pol\u00edtica contra os imigrantes ilegais, acabaram ressuscitando a imprensa tradicional. O mesmo aconteceu aqui no Brasil com a elei\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica de Jair Bolsonaro, que segue a cartilha de Trump. Muito embora as empresas continuassem demitindo jornalistas, 2018 e 2019 foram dois bons anos para o jornalismo. Da\u00ed veio a pandemia em 2020 e as reda\u00e7\u00f5es fecharam e mandaram os rep\u00f3rteres trabalhar em casa. Bolsonaro usou a m\u00e1quina de fake news para vender aos brasileiros a sua posi\u00e7\u00e3o negacionista em rela\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus. A imprensa tradicional ficou do lado da ci\u00eancia e se tornou relevante para os leitores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com os jornalistas trabalhando em casa, o que significou uma diminui\u00e7\u00e3o de custos para as empresas, os rep\u00f3rteres continuaram sendo demitidos. J\u00e1 existe uma vacina contra a Covid e agora \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo para chegarmos ao p\u00f3s-pandemia. Isso significar\u00e1 a volta dos jornalistas \u00e0s reda\u00e7\u00f5es? Ningu\u00e9m sabe o que vai acontecer. E n\u00e3o \u00e9 por outro motivo que essa quest\u00e3o \u00e9 hoje motivo de uma grande discuss\u00e3o entre a categoria. Uma coisa \u00e9 certa: a era das grandes reda\u00e7\u00f5es acabou. A reda\u00e7\u00e3o que vai emergir no p\u00f3s-pandemia ser\u00e1 menor, formada por jovens com sal\u00e1rios baixos que produzir\u00e3o texto, \u00e1udio e v\u00eddeo. E as pautas dever\u00e3o ser focadas no cotidiano, como tr\u00e2nsito, seguran\u00e7a p\u00fablica e entretenimento. Caso se confirme esse quadro, ele abrir\u00e1 uma oportunidade para os jornalistas se organizarem em cooperativas, ou pequenas empresas, e venderem a sua produ\u00e7\u00e3o para os jornais de mat\u00e9rias \u201cpesadas\u201d, principalmente reportagens investigativas. Tamb\u00e9m abre oportunidade para o surgimento de sites e blog especializados.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho conversado muito com os colegas sobre o que vai acontecer com as reda\u00e7\u00f5es no p\u00f3s-pandemia. N\u00e3o prego e n\u00e3o acredito na extin\u00e7\u00e3o do jornalismo por ser ele um dos esteios do nosso modo de vida. Tenho dito nas minhas palestras que quem est\u00e1 com problemas s\u00e3o as empresas, por terem tomado decis\u00f5es estrat\u00e9gicas erradas, como contratar consultores que n\u00e3o entendem nada de jornal. Esses consultores encheram os bolsos e deixaram atr\u00e1s de si pr\u00e9dios vazios e parques gr\u00e1ficos sucateados. Algu\u00e9m tem que escrever um livro sobre esses caras. O bom jornalismo nunca foi t\u00e3o necess\u00e1rio como \u00e9 atualmente no mundo, em especial no Brasil. E quem faz jornalismo somos n\u00f3s. Portanto, o que vem por a\u00ed depende de n\u00f3s. Recomendo aos jovens que pesquisem o que foi a imprensa alternativa que surgiu no Brasil durante a Ditadura Militar (1964 a 1985).<\/p>\n\n\n\n<p>Abri o texto contando a hist\u00f3ria da minha visita \u00e0 reda\u00e7\u00e3o do ABC Color, no Paraguai. E vou fech\u00e1-la com outra hist\u00f3ria. Para escapar dos espi\u00f5es de Stroessner, escolhi me hospedar em um hotel em uma cidadezinha pr\u00f3xima a Assun\u00e7\u00e3o. Estava acompanhado pelo motorista Miguel Cunha e pelo rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico Valdir Friolin. No segundo dia de trabalho, os espi\u00f5es do Stroessner come\u00e7aram a nos vigiar e no fim da primeira semana come\u00e7amos a encontrar as nossas malas reviradas no hotel. Era uma quest\u00e3o de tempo para eles nos prenderem, tomarem os blocos de anota\u00e7\u00f5es, grava\u00e7\u00f5es e fotos e nos atirarem na cadeia. N\u00e3o tinha como avisar a Embaixada brasileira porque o Brasil tamb\u00e9m era governado por uma ditadura militar. Ent\u00e3o fiz o seguinte. Avisei o hotel que partiria em 48 horas. E pedi que me fizessem um mapa do roteiro mais r\u00e1pido para sair de Assun\u00e7\u00e3o. Um dia antes de fechar as 48 horas, no nascer do dia, eu avisei a portaria que estava indo embora. E estava acertando as contas com o hotel quando Miguel me pediu para ir l\u00e1 na rua ligar o carro, porque ele estava ajudando o Friolin. Fui l\u00e1, liguei e encostei o carro na porta do hotel. Entreguei a chave para o Miguel, terminei de acertar as contas e avisei que seguiria o mapa feito por eles para sair da cidade. Na sa\u00edda, o Miguel me pediu para ligar o carro novamente. Achei estranho. Mas atendi o pedido sem perguntar o motivo. Claro que n\u00e3o sa\u00edmos pelo roteiro que eles me deram. Sa\u00edmos por outro. Foram cinco tensas horas de viagem at\u00e9 a fronteira, onde ficamos mais uma semana rodando pela regi\u00e3o entre os dois pa\u00edses, fazendo uma mat\u00e9ria sobre os brasiguaios, agricultores brasileiros que emigraram para o Paraguai. Em uma noite, quando est\u00e1vamos jantando e enchendo a cara em restaurante de beira de estrada, eu perguntei para o Miguel porque ele me pediu para ligar duas vezes o carro. Ele respondeu: \u201cSonhei que tinham colocado uma bomba no carro. Como n\u00e3o explodiu na primeira vez, eu pedi mais uma por seguran\u00e7a\u201d. Da\u00ed que me dei por conta que nas duas vezes que liguei o carro ele estava dentro do hotel. Para n\u00f3s rep\u00f3rteres a reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um lugar f\u00edsico, ela est\u00e1 dentro dos nossos cora\u00e7\u00f5es. Podem apostar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre lembro aos meus colegas que no trabalho do rep\u00f3rter acontecem epis\u00f3dios que o acompanham pela vida afora, mesmo depois que ele deixa a reda\u00e7\u00e3o. Guardo comigo muitos desses momentos. Um deles aconteceu em 1984, em Assun\u00e7\u00e3o, capital do Paraguai. 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