{"id":4489,"date":"2021-05-24T13:05:57","date_gmt":"2021-05-24T16:05:57","guid":{"rendered":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/?p=4489"},"modified":"2021-05-24T13:05:57","modified_gmt":"2021-05-24T16:05:57","slug":"descobri-a-historia-dos-bicheiros-gauchos-em-1993-batendo-de-porta-em-porta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2021\/05\/24\/descobri-a-historia-dos-bicheiros-gauchos-em-1993-batendo-de-porta-em-porta\/","title":{"rendered":"Descobri a hist\u00f3ria dos bicheiros ga\u00fachos em 1993 batendo de porta em porta"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"4490\" data-permalink=\"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2021\/05\/24\/descobri-a-historia-dos-bicheiros-gauchos-em-1993-batendo-de-porta-em-porta\/bicho1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/bicho1.jpg?fit=259%2C194&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"259,194\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"bicho1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/bicho1.jpg?fit=259%2C194&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/bicho1.jpg?resize=539%2C404&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-4490\" width=\"539\" height=\"404\"\/><figcaption>Os banqueiros do jogo do bicho n\u00e3o s\u00e3o bandidos bonzinhos, eles s\u00e3o g\u00e2ngsteres. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe um manual que ensine como se faz jornalismo investigativo. A tecnologia da investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica \u00e9 um saber que vai se desenvolvendo entre os rep\u00f3rteres durante o trabalho e vai sendo compartilhado entre eles nas reda\u00e7\u00f5es e principalmente nas mesas dos botecos. O que sabemos ao certo \u00e9 que n\u00e3o podemos desrespeitar a lei que protege a intimidade do investigado. A pol\u00edcia tem o poder constitucional de fazer isso, obtendo, na Justi\u00e7a, mandados de busca e apreens\u00e3o e de escutas telef\u00f4nicas. N\u00f3s podemos conseguir as mesmas informa\u00e7\u00f5es por outros caminhos. S\u00f3 que o trabalho \u00e9 maior e exige uma grande dose de paci\u00eancia e conhecimento do terreno em que estamos pisando. Esse nariz de cera que escrevi \u00e9 uma conversa que uso nas minhas palestras para colegas pelas reda\u00e7\u00f5es do interior do Brasil e estudantes de jornalismo e que me veio \u00e0 lembran\u00e7a devido a um epis\u00f3dio que aconteceu no segundo s\u00e1bado de maio (15\/05) nas ruas de Porto Alegre (RS). Jo\u00e3o Carlos Franco Cunha, o Jonca, 72 anos, foi morto por um pistoleiro que disparou dois tiros quando ele estava numa camioneta Pajero parada na sinaleira da Avenida Princesa Isabel, pr\u00f3ximo ao Bingo Roma, no bairro Azenha, nas imedia\u00e7\u00f5es do centro da cidade. Eu fui o primeiro a colocar o Jonca no gibi \u2013 linguagem usada pelos velhos rep\u00f3rteres para dizer que colocou o personagem nas p\u00e1ginas do jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Conheci o Jonca no final de 1992, na \u00e9poca um homem influente, com o poder de vida e morte sobre os seus advers\u00e1rios nos neg\u00f3cios. Ele fazia parte do grupo de 13 banqueiros do jogo do bicho que dominavam os 22 mil pontos de apostas espalhados por Porto Alegre. Eles se dividiam em tr\u00eas grupos: Periquito da Sorte, de Miguel Luiz Mucilo, Ferradura, de Rubens Hoffmeister, e a Associa\u00e7\u00e3o dos Bicheiros de Porto Alegre, que era formada por 11 bicheiros, entre eles o Jonca, e que dominavam 70% dos pontos de apostas da cidade. No final de 1992 eu tinha sido liberado pela dire\u00e7\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o do jornal Zero Hora para trabalhar \u201cfull time\u201d em uma mat\u00e9ria sobre os banqueiros do jogo do bicho no Rio Grande do Sul. Na \u00e9poca, os aparelhos de celulares eram escassos e caros, a internet ainda muito limitada e sites de transpar\u00eancia n\u00e3o existiam. As investiga\u00e7\u00f5es policiais sobre o jogo do bicho n\u00e3o eram feitas porque boa parte da Pol\u00edcia Civil estava na folha de pagamento dos bicheiros e, al\u00e9m disso, quem abrisse a boca seria morto. Ou seja: eu estava em um mato sem cachorro, dito popular para dizer que a pessoa est\u00e1 perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de mil vezes me amaldi\u00e7oei por ter tido a ideia da reportagem e ter conseguido convencer a dire\u00e7\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o que era poss\u00edvel faz\u00ea-la. Mas consegui conclu\u00ed-la e vou fazer o making of da mat\u00e9ria&nbsp;<em>O Poder dos Bicheiros Ga\u00fachos<\/em>, uma s\u00e9rie de quatro reportagens publicadas durante quatro dias em ZH, em 1993. No pr\u00f3ximo dia 2 de junho completam-se 28 anos da reportagem. Como consegui fazer? Resolvendo um problema de cada vez. O primeiro problema se tornou uma solu\u00e7\u00e3o. Qual era ele? Todo mundo sabia que os donos de bancas do bicho faturavam milh\u00f5es diariamente e que eram respons\u00e1veis por uma boa parte da corrup\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Civil. A tal ponto que em muitas delegacias o bicheiro mandava mais que o delegado. Ningu\u00e9m me falou isso, eu vi. Se todo mundo sabia como o esquema funcionava, bastava ter um pouco de sorte e encontrar as pessoas certas para me contar quem era quem e como tudo funcionava. Comecei na base da pir\u00e2mide: os pontos de apostas. Geralmente chegava para fazer a minha aposta em um hor\u00e1rio morto para conseguir \u201cjogar conversa fora com o anotador do jogo\u201d. Levei uns 40 dias para mapear toda a cidade e saber como os bicheiros haviam dividido Porto Alegre. Nunca repeti o mesmo lugar de aposta. Por qu\u00ea? A maioria deles tinha policiais aposentados trabalhando de seguran\u00e7a. E aprendi com um colega de reda\u00e7\u00e3o que se tu entrares em um lugar pela primeira vez e jogar conversa fora e voltar l\u00e1 novamente e continuar puxando assunto, automaticamente entrar\u00e1 no radar do seguran\u00e7a, principalmente se ele for policial aposentado.<\/p>\n\n\n\n<p>O que mais o pessoal dos pontos de aposta temia era a guerra pelo territ\u00f3rio entre os bicheiros. Por qu\u00ea? O vencedor se tornava dono dos pontos e as comiss\u00f5es pagas ao anotador eram renegociadas, muitas vezes com a boca do cano de um rev\u00f3lver. Essas guerras eram not\u00edcias de p\u00e9 de p\u00e1gina nos jornais, por mais sangrentas que fossem. No final de 1992, eu acabei no meio de um churrasco de confraterniza\u00e7\u00e3o entre um grupo que atuava em 10 pontos de apostas. Sumi quando chegou o bicheiro, porque ele veio acompanhado pelos seus seguran\u00e7as e um deles me conhecia por ser plantonista em uma delegacia. Muitas vezes, durante os meus plant\u00f5es na ZH, liguei para ele ou fui at\u00e9 a delegacia para fazer mat\u00e9ria. Fui fundamental para o sucesso da reportagem ter come\u00e7ando a investiga\u00e7\u00e3o pela base da pir\u00e2mide. O conhecimento que adquiri facilitou os meus pr\u00f3ximos passos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 sabia. O pilar principal do jogo do bicho era a confian\u00e7a do apostador de saber que quem ganha, leva. At\u00e9 os anos 90 havia apenas uma rodada de apostas do jogo do bicho por dia, que era conferido pelos resultados da Loteria Federal. Foi quando os bicheiros inventaram as suas pr\u00f3prias loterias, que corriam duas e at\u00e9 quatro vezes por dia. No Rio Grande do Sul existiam tr\u00eas loterias. A mais popular era a Loteria da Sorte, da Associa\u00e7\u00e3o dos Bicheiros. Meu problema: tinha que assistir a um sorteio para poder ver se era confi\u00e1vel. Conheci um colega que trabalhava em uma r\u00e1dio e vivia elogiando a honradez dos bicheiros. Liguei para ele e disse que estava desconfiado que as loterias das bancas do bicho estavam sacaneado os apostadores. Levamos um m\u00eas conversando. No final acabei assistindo a um sorteio. Claro, a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o era fiscalizada, portanto chamei de clandestina. Mais ainda: os banqueiros tinham um sistema interno entre eles que garantia o pagamento das apostas e que tamb\u00e9m proibiam os pontos de apostas de aceitarem jogos em n\u00fameros que havia ganho popularidade, como por exemplo de um pr\u00e9dio, \u00f4nibus ou voo de um avi\u00e3o que havia virado not\u00edcia nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de abril de 1993, eu j\u00e1 havia feito o tema de casa: sabia quem era quem e como tudo funcionava na Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre, na Serra (Caxias do Sul e cidades ao redor) e no Vale dos Sinos (Novo Hamburgo e S\u00e3o Leopoldo). Entre os banqueiros do bicho selecionei um grupo de 10 pessoas que considerei representativas levando em conta as suas posses e as liga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e com a Pol\u00edcia Civil. Nessa fase da mat\u00e9ria foi importante uma descoberta que fiz: um grupo de policiais \u2013 delegados, inspetores e escriv\u00e3es \u2013 que havia se organizado para fazer frente ao poder dos bicheiros nas delegacias. J\u00e1 sabia a rotina dos bicheiros que escolhi para entrevistar porque os havia seguido pelas cidades onde moravam e tive o cuidado de recolher o lixo da casa deles em busca de contas telef\u00f4nicas, recibos e outras coisas que poderiam ser \u00fateis para a minha apura\u00e7\u00e3o. Lembro de duas coisas nessa fase da mat\u00e9ria. Ao sentar na frente de um deles e explicar-lhe toda a sua opera\u00e7\u00e3o, tive como resposta: \u201cTu me pegou\u201d. A um outro que eu sabia ter sido sacaneado pelos concorrentes ofereci a chance dele ir a forra. Aceitou e me deu informa\u00e7\u00f5es importantes. No meio do m\u00eas de maio de 1993 eu fazia as verifica\u00e7\u00f5es finais das minhas anota\u00e7\u00f5es e grava\u00e7\u00f5es antes de sentar para bater a mat\u00e9ria. Vejam bem: a reportagem colocaria o dedo na cara de pessoas respeitadas na sociedade que durante o dia eram pais que levavam os filhos na igreja e na escola e \u00e0 noite eram g\u00e2ngsteres que mandavam matar e abusavam da boa-f\u00e9 das pessoas para furtar o seu dinheiro. N\u00e3o havia dossi\u00eas, inqu\u00e9ritos policiais e muito menos processos na Justi\u00e7a. Era eu quem estava dizendo que era assim porque vi acontecer. Portanto, era preciso ter certeza do que colocaria no papel. At\u00e9 que na manh\u00e3 do dia 21 de maio de 1993 aconteceu um epis\u00f3dio em que quase dei um tiro na cabe\u00e7a, por ser o pesadelo de todo rep\u00f3rter: ser atropelado pelos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso, fui atropelado por uma carreta carregada de tijolos maci\u00e7os. A ju\u00edza Denise Frossard, no Rio de Janeiro, deu voz de pris\u00e3o para 14 banqueiros do jogo do bicho, entre eles Castor de Andrade, que haviam ido ao tribunal ouvir a senten\u00e7a de um processo. Foi um reboli\u00e7o nacional. Algu\u00e9m, que n\u00e3o lembro o nome, chegou perto da minha mesa na reda\u00e7\u00e3o e disse as palavras que eu n\u00e3o queria ouvir: \u201cA tua mat\u00e9ria sai amanh\u00e3\u201d. Fomos terminar a discuss\u00e3o no banheiro. O meu argumento era que a reportagem era exclusiva e nunca ningu\u00e9m tinha publicado um quadro t\u00e3o completo sobre o poder do jogo do bicho no Estado. A primeira mat\u00e9ria da s\u00e9rie saiu no dia 2 de junho de 1993. Deu um baita rolo e uma enorme su\u00edte \u2013 para quem n\u00e3o \u00e9 jornalista, trata-se de mat\u00e9rias complementares. O meu colega Humberto Trezzi me ajudou. Um m\u00eas depois encontrei a ju\u00edza Frossard em um evento em Santana do Livramento, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Fiz uma longa e detalhada entrevista com a ju\u00edza. Fui para o hotel e tomei duas garrafas de vinho uruguaio e apaguei. Dormi o sono dos justos. Em 2012, publiquei em parceria com o rep\u00f3rter Carlos Etchichury a reportagem\u00a0<em>A Reinven\u00e7\u00e3o do Jogo do Bicho<\/em>. Mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria que vou contar depois. Para fechar a conversa. Os banqueiros do jogo do bicho n\u00e3o costumam morrer de morte natural. Jonca sabia disso. E lembro uma frase que o Trezzi me disse uma vez e sempre repete: \u201cN\u00e3o existe jornalismo investigativo. Toda a mat\u00e9ria \u00e9 investigativa\u201d. Ele tem raz\u00e3o. O leitor merece o melhor que podemos dar, seja em um texto de cinco linhas ou em uma longa mat\u00e9ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe um manual que ensine como se faz jornalismo investigativo. A tecnologia da investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica \u00e9 um saber que vai se desenvolvendo entre os rep\u00f3rteres durante o trabalho e vai sendo compartilhado entre eles nas reda\u00e7\u00f5es e principalmente nas mesas dos botecos. 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