{"id":7224,"date":"2023-10-10T06:53:07","date_gmt":"2023-10-10T09:53:07","guid":{"rendered":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/?p=7224"},"modified":"2023-10-10T22:35:34","modified_gmt":"2023-10-11T01:35:34","slug":"medicos-mortos-por-engano-celulares-nas-prisoes-e-o-novo-normal-da-seguranca-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2023\/10\/10\/medicos-mortos-por-engano-celulares-nas-prisoes-e-o-novo-normal-da-seguranca-publica\/","title":{"rendered":"M\u00e9dicos mortos por engano, celulares nas pris\u00f5es e o novo normal da seguran\u00e7a\u00a0p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"7225\" data-permalink=\"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/2023\/10\/10\/medicos-mortos-por-engano-celulares-nas-prisoes-e-o-novo-normal-da-seguranca-publica\/alvoerrado5000\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alvoerrado5000.jpeg?fit=275%2C183&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"275,183\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"alvoerrado5000\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alvoerrado5000.jpeg?fit=275%2C183&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/carloswagner.jor.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alvoerrado5000.jpeg?resize=555%2C369&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-7225\" style=\"width:555px;height:369px\" width=\"555\" height=\"369\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tribunal do crime executou os pistoleiros que mataram&nbsp;o&nbsp;alvo&nbsp;errado Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A morte dos m\u00e9dicos por engano em um quiosque na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, na madrugada de quinta-feira (05\/10), ressuscitou uma velha e pol\u00eamica discuss\u00e3o que existe nas delegacias de pol\u00edcia no Brasil. Trata-se dos malef\u00edcios e benef\u00edcios que trazem para a investiga\u00e7\u00e3o policial a presen\u00e7a dos celulares dentro das cadeias. Acompanho essa conversa desde os anos 90, quando os celulares surgiram e come\u00e7aram a se tornar populares no pa\u00eds. No caso dos m\u00e9dicos, a presen\u00e7a dos celulares no pres\u00eddio de Bangu 3 acelerou a solu\u00e7\u00e3o do caso. Em menos de 48 horas, a Pol\u00edcia Civil conseguiu descobrir os mandantes e os autores das mortes por engano dos m\u00e9dicos Diego Bonfim, 35 anos, Perseu Almeida, 33, e Marcos de Andrade Corsato, 62. Um quarto m\u00e9dico, Daniel Sonnewend Proen\u00e7a, 32 anos, sobreviveu ao atentado e est\u00e1 hospitalizado com v\u00e1rios ferimentos espalhados pelo corpo. Tamb\u00e9m nas primeiras 48 horas ap\u00f3s o crime foram encontrados os corpos dos quatro pistoleiros que praticaram o atentado. Eles foram executados pelo erro a mando da c\u00fapula do Comando Vermelho (CV), que decidiu o destino deles em uma teleconfer\u00eancia realizada dentro do pres\u00eddio Bangu 3.<\/p>\n\n\n\n<p>Os corpos dos quatro matadores foram encontrados dentro de dois carros. Tr\u00eas foram identificados: Philip Motta Pereira, o Lesk, Ryan Nunes de Almeida e Juan Breno Malta Ramos, o BMW. O erro aconteceu porque os atiradores confundiram o m\u00e9dico Perseu Almeida com Taillon de Alc\u00e2ntara Pereira Barbosa, filho de Dalmir Pereira Barbosa, chefe da mil\u00edcia da Zona Oeste do Rio de Janeiro, que disputa com o CV pontos de tr\u00e1fico de drogas e fornecimento ilegal de servi\u00e7os (transporte, gato de internet e venda de g\u00e1s) nas comunidades cariocas. Outro fator que ajudou a acelerar a investiga\u00e7\u00e3o policial foi o parentesco de um dos m\u00e9dicos mortos. Bonfim era irm\u00e3o da deputada federal S\u00e2mia Bonfim (PSOL-SP), que \u00e9 casada com o seu colega na C\u00e2mara dos Deputados Glauber Braga (PSOL-RJ). H\u00e1 um farto material dispon\u00edvel na internet sobre o caso dos m\u00e9dicos. Vou conversar com os meus colegas, em especial com os jovens que est\u00e3o nas reda\u00e7\u00f5es tocando a cobertura do dia a dia, sobre a quest\u00e3o da presen\u00e7a ilegal dos celulares entre os presos. Vamos l\u00e1. Desde que iniciei a carreira de rep\u00f3rter, em 1979, li e reproduzi em v\u00e1rias mat\u00e9rias que as pris\u00f5es brasileiras s\u00e3o como uma escola do crime: o presidi\u00e1rio entra l\u00e1 como ladr\u00e3o de galinhas e sai como um assaltante altamente qualificado. Por qu\u00ea? O Brasil tem a terceira maior&nbsp;massa carcer\u00e1ria do planeta, s\u00e3o 909 mil detentos, sendo que 44% s\u00e3o presos provis\u00f3rios, aqueles que ainda n\u00e3o foram julgados. Em sua maioria, os pres\u00eddios s\u00e3o lugares insalubres, que seguidamente s\u00e3o denunciados nos \u00f3rg\u00e3os internacionais de direitos humanos, como a ONU, como exemplos de desrespeito \u00e0 dignidade da pessoa. Contrabandear um celular para dentro de um caos desses \u00e9 f\u00e1cil, como mostram os n\u00fameros de aparelhos apreendidos nas celas, que somam centenas. No final da d\u00e9cada de 90 j\u00e1 havia tantos celulares nas cadeias que n\u00f3s rep\u00f3rteres escrev\u00edamos que as celas eram \u201cescrit\u00f3rios do crime\u201d, porque de l\u00e1 os chefes das quadrilhas comandavam os seus neg\u00f3cios. Por press\u00e3o da imprensa, os governos instalaram nos pres\u00eddios equipamentos bloqueadores de sinal de telefonia celular. Por conta dessa iniciativa aconteceram v\u00e1rias rebeli\u00f5es nas penitenci\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos, o caso dos bloqueadores de celulares nas cadeias virou not\u00edcia de p\u00e9 de p\u00e1gina dos jornais e o assunto caiu no esquecimento. Lembro que, nessa \u00e9poca, sempre que acontecia um crime que virava manchete nos notici\u00e1rios era importante para o rep\u00f3rter ter uma fonte na pol\u00edcia que trabalhasse nas escutas dos celulares dos chefes de quadrilha presos. Funcionava assim. O gerente dos neg\u00f3cios ilegais do quadrilheiro preso estava com o seu celular grampeado pela pol\u00edcia (com autoriza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a). Ao receber liga\u00e7\u00f5es e mensagens do seu chefe, a pol\u00edcia lia e ouvia os assuntos que eram tratados. Uma vez tive uma conversa com um delegado que jamais esquecerei. Em resumo, ele disse: \u201cO que ouvimos entre o chefe da quadrilha preso e o seu homem de confian\u00e7a na rua d\u00e1 para esclarecer um monte de casos. Muitas vezes fornecem informa\u00e7\u00f5es que servem para encerrar investiga\u00e7\u00f5es complicadas\u201d. Por conta do que aconteceu com os m\u00e9dicos, a Pol\u00edcia Civil do Rio j\u00e1 tinha gravado nos seus equipamentos um telefonema informando os matadores que o alvo Taillon, filho do miliciano Dalmir, tinha sido avistado em um quiosque da Barra da Tijuca. O que a imprensa ainda n\u00e3o sabe \u00e9 se a pol\u00edcia descobriu que tinha essa liga\u00e7\u00e3o gravada s\u00f3 depois que os m\u00e9dicos foram mortos por engano. Ou j\u00e1 sabia que iria acontecer uma execu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o valorizou a informa\u00e7\u00e3o. O que acontece geralmente nesses casos \u00e9 que essas informa\u00e7\u00f5es s\u00f3 se tornam relevantes depois que o crime for cometido e s\u00e3o usadas como prova durante o inqu\u00e9rito policial. Ou seja, a pol\u00edcia n\u00e3o usa essas informa\u00e7\u00f5es para agir preventivamente. Aqui tamb\u00e9m tem o seguinte. Sempre que os celulares dentro das cadeias s\u00e3o utilizados para agravar as guerras entre as quadrilhas, os chef\u00f5es s\u00e3o transferidos por um per\u00edodo para cadeias federais, onde existem bloqueadores de celular e um controle na comunica\u00e7\u00e3o do preso com as pessoas de fora do pres\u00eddio.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Claro, essa hist\u00f3ria de transferir os chef\u00f5es para pres\u00eddios federais \u00e9 enxugar gelo. Porque eles s\u00e3o substitu\u00eddos na cadeia de comando da quadrilha de maneira imediata e a guerra continua. \u00c9 opini\u00e3o un\u00e2nime entre os especialistas em assuntos de seguran\u00e7a p\u00fablica que a quest\u00e3o dos pres\u00eddios precisa ser resolvida para a pol\u00edcia ter uma chance real de imobilizar os criminosos. Como me lembrou um delegado federal, o celular nas cadeias \u00e9 consequ\u00eancia do caos que \u00e9 o sistema penitenci\u00e1rio do Brasil. Em 26 de setembro escrevi o post <em><a href=\"https:\/\/carloswagner.jor.br\/blog\/ate-quando-o-caveirao-sera-simbolo-da-politica-de-seguranca-publica-no-brasil\/\" data-type=\"post\" data-id=\"7196\">At\u00e9 quando o Caveir\u00e3o ser\u00e1 s\u00edmbolo da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil?<\/a><\/em>\u00a0Os m\u00e9dicos executados por engano fazem parte de um grande contingente de pessoas inocentes mortas no fogo cruzado entre os quadrilheiros. Todos os anos centenas de pessoas se juntam a este contingente. Como se diz, essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o novo normal de quem vive no meio da viol\u00eancia urbana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte dos m\u00e9dicos por engano em um quiosque na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, na madrugada de quinta-feira (05\/10), ressuscitou uma velha e pol\u00eamica discuss\u00e3o que existe nas delegacias de pol\u00edcia no Brasil. 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