Até agora, a força-tarefa da Operação Lava Jato ouviu apenas um lado da história da corrupção no Brasil: as sacanagens dos empreiteiros superfaturando obras públicas, dando propina para parlamentares, ministros, governadores, presidentes da República e marqueteiros. Se for concretizada a delação premiada de Antonio Palocci. outro lado da história da corrupção no país será contado. E a história da política brasileira será reescrita.
Palocci tem o dom de saber contar uma história. Fala de maneira arrastada e como se fosse um professor frente a uma turma de alunos. Às vezes, coloca um charme na conversa, deixando escapar o sotaque caipira do interior de São Paulo. Ele tem inimigos poderosos dentro de seu partido, o PT. O ex-presidente Lula o descreve como uma pessoa “muito inteligente”. Ele é muito mais do que isso. Palocci é uma das pessoas mais bem informadas sobre como esse país funciona. Basta ver seu currículo. Aos 56 anos, formado em medicina, Palocci foi um dos fundadores do PT. Foi prefeito de Ribeirão Preto, importante cidade do interior de São Paulo, e deputado federal, figura central da campanha política do ex-presidente Lula e seu ministro da Fazenda e ministro-chefe da Casa Civil, da então presidente Dilma.
Atualmente, Palocci está cumprindo prisão preventiva, decretada pelo juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba (PR). Ele contratou advogado especializado em negociar delação premiada. Se houver o acerto, Palocci poderá lançar luzes sobre pontos escuros da Lava Jato, como a relação comercial do governo federal com as grandes e pequenas empresas de comunicação. Aqui, eu quero sugerir aos jovens repórteres a leitura de um livro: “Cobras Criadas”, de Luiz Maklouf Carvalho, magnifico trabalho que conta a história do jornalista David Nasser, da extinta revista Cruzeiro, e um pouco do cotidiano do magnata da imprensa nos anos 50, Assis Chateubriand, tendo como um dos panos de fundo o governo do Getúlio Vargas. Recentemente, Emílio Odebrecht, ex-presidente da empreiteira, frente à enxurrada de denúncias nos noticiários do país sobre a corrupção de parlamentares, falou que a imprensa brasileira já sabia o que acontecia havia uns 30 anos. Ele tem razão. E Palocci terá a oportunidade de esclarecer, pelo menos durante o governo Lula, se houve alguma ação governamental para impedir que os jornais fossem a fundo na corrupção de parlamentares por empreiteiros.
Outro ponto que Palocci poderá esclarecer é como os órgãos de fiscalização do Ministério da Fazenda – Receita Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) – não detectaram a avalanche de dinheiro público que estava sendo desviado das obras para alimentar a máquina de corrupção. Os relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU), aos quais ele tinha acesso, alguma vez mencionaram o superfaturamento das obras públicas? E sobre a Petrobras, onde se concentrava o maior número de safados por metro quadrado, como está sendo demonstrada nas investigações da Lava Jato: ele teve acesso a algum relatório das empresas de auditoria e dos auditores internos da estatal que tratasse do assunto?
Há outros assuntos: o sistema financeiro, as indústrias automobilísticas e o Poder Judiciário. Até agora, na Lava Jato, só apareceram empreiteiros corruptores. É necessário esclarecer o papel do sistema financeiro nessa questão. E também se tiveram participação na corrupção de parlamentares e autoridades governamentais as fábricas de carros, maquinário agrícola e equipamentos rodoviários pesados. Em todas as delações premiadas que vi, ouvi e li, não lembro de interrogadores da Lava Jato perguntarem para os empreiteiros se a máquina de corrupção que montaram havia chegado ao Poder Judiciário e à Polícia Federal (PF). Palocci poderá ajudar a esclarecer.
Se há uma pessoa que pode ajudar a esclarecer o que ainda não foi esclarecido na Lava Jato é Antonio Palocci, inclusive o caso do prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT), torturado e morto há 15 anos. Hoje, as investigações da força-tarefa da Lava Jato estão focadas nos empreiteiros e na busca de provas contra o ex-presidente Lula. Se Palocci falar, vai mostrar que o rolo é bem maior. O ex-ministro pode ser o Cavalo de Troia da Lava Jato.

Precisamos remexer nos escombros do Polo Naval de Rio Grande na busca de informações para explicar aos nossos leitores se o milionário investimento tinha possibilidades técnicas de dar certo ou se foi apenas uma operação para acobertar o desvio de dinheiro público.
A explicação oficial do desmonte deixa muito a desejar. Ela diz que foi efeito colateral das investigações da força-tarefa da Operação Lava Jato, que apura o desvio bilionário de dinheiro do principal cliente do Polo Naval, a Petrobras. Se fosse só isso, depois de resolvido o problema do desvio de dinheiro as empresas navais voltariam a operar. Mas isso não vai acontecer. Por quê? Por dois motivos básicos: as empresas têm um histórico de entregas de equipamentos com atraso para a Petrobras, o que causou prejuízos de milhões. E também porque as operações de saída e atracagem de cascos de plataformas, devido a vários problemas, são as mais caras do mundo. Esses dois problemas, fundamentais para a continuação das operações do Polo Naval, já existiam antes de acontecer a Operação Lava Jato. Há uma vasta documentação disponível nos noticiários sobre o assunto. Aqui chamo a atenção dos meus colegas repórteres, especialmente aos novatos na profissão. Por ser uma estatal e ter ações na bolsa de valores, a Petrobras é fiscalizada por empresas de auditória externa, internamente por auditores e pelos órgãos de fiscalização do seu maior acionista, que é o governo federal. Como todos esses auditores e fiscais deixaram a empresa investir em Rio Grande? Arrastando para lá 20 mil trabalhadores de vários cantos do país. E fazendo com que pequenos investidores locais colocassem suas economias na ampliação da rede de prestação de serviços. A consequência é que Rio Grande e cidades dos arredores estão povoadas por centenas de desempregados, e há portas fechadas de casas comerciais por todos os cantos.
Até agora, o foco das investigações da força-tarefa da Lava Jato é seguir o dinheiro que foi desviado. De tudo o que já veio a público das investigações da operação, os fiscais e auditores, que deveriam ter fiscalizado o que acontecia, ficaram de fora. Nas dezenas de horas que escutei, vi e li das delações premiadas, dos ex-funcionários de empreiteiras, não lembro de algum deles ter mencionado ter tido problemas com auditores e fiscais. É como se eles não existissem. A história do Polo Naval de Rio Grande poderia ser outra, se as empresas de auditória e os auditores internos da Petrobras tivessem feito o seu trabalho.

Há uma pergunta que não quer calar. E cabe aos repórteres não deixar que se cale. Frente à enxurrada de relatos, feitos nas deleções premiadas dos ex-executivos da empreiteira Odebrecht, de como eram corrompidos os parlamentares. É de se perguntar: como tudo aconteceu sem ser notado pelos órgãos de fiscalização: Tribunal de Conta da União (TCU), serviço de inteligência da Polícia Federal (PF), corregedores das empresas estatais, fiscais de obras públicas e, principalmente, Controle de Atividades Financeiras (COAF) e o sempre vigilante Imposto de Renda (IR)?
Antes de seguir adiante, quero refletir com meus colegas repórteres, especialmente com os novatos, o seguinte: todos esses órgãos citados têm um corpo de funcionários de alta qualificação técnica, constantemente treinados e bem pagos. Portanto, alguma coisa aconteceu para toda essa sacanagem ter acontecido como se não houvesse goleiro. Na busca de pistas para entender, eu recordo de um episódio que aconteceu durante o processo de impeachment da então presidente da República, Dilma Rousseff (PT – RS), em 2016, um ano que ainda não terminou. Tecnicamente, Dilma perdeu o cargo porque os auditores do TCU conseguiram mostrar que ela havia feito as chamadas “pedaladas fiscais” – empréstimos dos bancos oficiais para tapar furos no caixa do governo. Na ocasião, repórteres americanos, que trabalhavam na cobertura do impeachment, falaram que a imprensa brasileira era superficial. Na ocasião, interpretei a indignação dos colegas americanos como uma reclamação pela falta de contextualização que existia na maioria das reportagens publicadas, principalmente as referentes à conspiração contra Dilma do grupo político do então vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP).
Eu fiz essa avaliação baseada na minha experiência de coberturas de conflitos, das quais participei nos meus 40 anos de reportagem investigativa. A rotina é o repórter chegar ao local do “rolo”, usando o jargão das redações, e se contextualizar dos bastidores dos acontecimentos, lendo, ouvido e assistindo os noticiários da região. E, sempre que se encontra uma boa cobertura local, facilita a vida do repórter. A minha avaliação do mau humor dos repórteres americanos foi parcial. Lembro o seguinte. Muito embora a maioria das delações premiadas da Odebrecht estar sendo negociada com a força-tarefa da Lava Jato, o que assistimos hoje já era do conhecimento de grande parte da imprensa nacional. O ex-presidente da empresa Emílio Odebrecht foi muito minucioso e contundente a esse respeito durante um dos seus depoimentos na Lava Jato, ao afirmar que toda a imprensa já sabia o que acontecia –há vídeos na internet.
Eu concordo com Emílio Odebrecht. Dentro dessa lógica, acredito que os órgãos de fiscalização devem ter pilhas de informações nos seus arquivos sobre o que acontecia bem debaixo do nariz dos brasileiros. E as informações não vieram a público porque os repórteres não bateram, com a devida força, à porta de quem tem o dever de fiscalizar, como o COAF, que acompanha a movimentação financeira do país. É nossa obrigação explicar aos nossos leitores o motivo pelo qual os órgãos de fiscalização não funcionaram. Se tivessem funcionado, eu creio que a história do país hoje seria outra. As nossas cidades não seriam um cemitério de obras inacabadas e por onde perambulam 13 milhões de desempregados. O pessoal da fiscalização tem de explicar o que estava fazendo enquanto acontecia toda essa lambança – termo usado no jargão das delegacias de polícia para definir crimes ruidosos.

Há um assunto que precisamos explicar para nossos leitores. A reforma da Previdência Social, assunto que irá mexer com a vida de todos os brasileiros, está sendo feita por senadores, deputados federais, pelo presidente da República, Michel Temer (PMDB -SP), e por ministros envolvidos no maior escândalo de corrupção da história do Brasil. Como confiar nas intenções desses senhores?
Vamos esmiuçar o fato. De maneira muito inteligente, o governo federal tem colocado o assunto na mídia de uma maneira simples, direta e contundente: se não houver a reforma, não haverá dinheiro para pagar os aposentados, e o capital estrangeiro não voltará a ser aplicado no Brasil. Dinheiro tão necessário para colocar o país novamente nos trilhos e atenuar a situação dos 13 milhões de desempregados. Essa estratégia oficial de contar a história sobre a reforma da Previdência resulta em noticiário focado na tramitação do projeto e nas negociações entre os parlamentares.
Esse é o peixe que o governo está nos vendendo. Ele pode ser simplificado assim: existe o mundo das delações premiadas da Odebrecht para a força-tarefa da Lava Jato e o das articulações para a aprovação da reforma da Previdência Social que irá salvar o Brasil. Aqui, eu chamo a atenção dos meus colegas repórteres, principalmente dos novatos: é conversa fiada do governo.
As delações premiadas da Odebrecht, que enchem os noticiários do país, tornaram públicas informações que colocaram contra a parede o presidente Temer, vários de seus ministros e a base parlamentar aliada. O principal articulador da reforma pelo governo é Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República. Citado várias vezes nas delações. O presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM – RJ), figura estratégica na condução do projeto da Previdência, é apontado como um dos que receberam dinheiro ilegal da empreiteira. Ele também é suspeito de ter feito lobby para aprovar medidas que beneficiaram a Odebrecht. Outro parlamentar importante para ajudar o governo a aprovar a reforma da Previdência, o senador Renan Calheiros (PMDB – AL) responde a vários inquéritos e está sendo investigado na Lava Jato. Essas pessoas citadas são os expoentes nas articulações da reforma da Previdência. O restante pode ser encontrado nos noticiários diários.
Com base em tudo o que está sendo divulgado pelos delatores sobre o presidente da República, sua base parlamentar e vários de seus ministros, é difícil afirmar quais são as intenções na reforma da Previdência Social. Patriotismo? Preocupação com o futuro dos aposentados? Reativação da economia? Beneficiar a previdência privada? Temos que alertar aos nossos leitores que a questão da reforma da Previdência Social não é ser contra ou a favor. Mas que quem está a propondo não tem credibilidade para mexer com o futuro dos brasileiros.

Até as pedras das ruas do Brasil sabem duas verdades que há muitos anos correm de boca em boca entre o povo. O jogo do bicho é ilegal. Mas as apostas podem ser feitas em qualquer esquina, graças a um sistema de corrupção de autoridades, principalmente de policiais, que os bicheiros montaram. As obras públicas são caras, demoradas e, muitas, malfeitas, porque os empreiteiros superfaturam o serviço para pagar propina aos políticos. A história dos bicheiros é mais antiga e conhecida do que a dos parlamentares. Eu conheço bem por ter feito várias reportagens investigativas sobre o assunto em Zero Hora. A primeira foi no início dos anos 90, “Os senhores do jogo do bicho”, e mostrava quem eram os bicheiros, o território que dominavam e os policiais que corrompiam no Rio Grande do Sul. Os maiores e mais poderosos bicheiros se concentram no eixo Rio/São Paulo, onde financiam o Carnaval, entre outras coisas. No último século, os bicheiros não só sobreviveram como se adaptaram aos novos tempos e, agora, operam jogos de azar virtuais e ganham milhões diariamente. A longevidade é garantida pela corrupção policial e por o jogo do bicho ser considerado contravenção – um delito de menor pena. Muito embora os bicheiros resolvam suas disputas na bala, os jornais têm documentado os confrontos. A legalização seria uma saída para resolver o problema.
O sistema de corrupção de parlamentares operado pelos empreiteiros nunca teve o mesmo glamor que o dos bicheiros. Mas tem a mesma eficiência. Basta dar uma olhada nas informações levantadas pela força-tarefa da Operação Lava Jato. A lista de Janot – procurador-geral da República, Rodrigo Janot –, que pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para investigar e abrir inquérito contra uma centena de atuais e ex-parlamentares, é uma prova disso. Ontem, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, determinou a abertura dos inquéritos e das investigações. É a primeira vez na história brasileira que as entranhas da corrupção de parlamentares por empreiteiros vem a público com tantos detalhes. Mas uma coisa é certa: como o fato de ser considerado uma contravenção – delito de menor potencial – tem assegurado a longevidade do jogo do bicho, o foro privilegiado, direito que parlamentes e ministros têm de só serem julgados pelo STF, vai assegurando a sobrevivência desse tipo de corrupção. Os julgamentos no STF levam muito mais tempo para acontecer do que na Justiça Federal. Os parlamentares apostam nisso.
Vamos olhar o futuro. Desafio meus colegas repórteres, principalmente os novatos. Mesmo que a força-tarefa consiga desmontar a máquina de corrupção das empreiteiras que corrompe parlamentares. Tudo indica que isso acontecerá. Se parlamentares e ministros continuarem com foro privilegiado, é certo que consigam outra maneira de arrumar dinheiro ilegal. Certa vez, ouvi de um agente da Polícia Federal (PF), em um lugar esquecido por Deus, na fronteira do Brasil com o Paraguai, a seguinte frase:
– Quando a gente descobre um sistema que está sendo usado pelos quadrilheiros para nos enganar, eles inventam outro mais aperfeiçoado.
Quem pode garantir que já não inventaram outro sistema de financiar ilegalmente a eleição?

As semelhanças e as diferenças na condução dos assuntos do Ministério da Fazenda entre o atual ministro, Henrique Meirelles, e o ex-ocupante do cargo Fernando Henrique Cardoso (FHC) trazem informações importantes que ajudam a montar um cenário possível do que irá acontecer com a economia do país. Essas informações são importantes aos nossos leitores dentro da atual conjuntura política e econômica do país, onde empregos somem diariamente e, pelo menos, 13 milhões de pessoas estão desempregadas.
Meirelles e FHC nasceram em berços semelhantes. FHC ocupou a Fazenda na época do presidente da República Itamar Franco (1992 a 1995). Ele se elegeu vice na chapa do presidente Fernando Collor de Mello, que assumiu o poder em 1990 e renunciou em 1992. Collor renunciou para escapar do impeachment – que teve um movimento que entrou para a história – o dos Caras Pintadas. Meirelles assume o cargo no governo do presidente da República, Michel Temer. Ele foi reeleito vice-presidente da República na chapa da então presidente Dilma Rousseff, em 2014. E tornou-se presidente em 2016 com o impeachment de Dilma – que entra na história como vítima de um golpe de Estado.
Aqui tem uma diferença importante entre FHC e Meirelles. Apesar de ser considerada uma pessoa excêntrica, Itamar Franco ocupou o governo apoiado pelos Caras Pintadas, um movimento nacional que representava a unanimidade pela saída do Collor. Essa unanimidade deu um capital político ao governo, que permitiu a FHC conduzir com sucesso o combate à hiperinflação, com a implantação da moeda nova, o Cruzado. O sucesso do programa elegeu FHC presidente do Brasil (1995 a 2002).
Temer é um articulador político nato. Mas o processo que o levou ao poder rachou o país no meio. É fato conhecido que Temer e o seu grupo político conspiraram contra Dilma. E, durante a conspiração, aliaram-se a figuras escrotas da política nacional, como o, na época, presidente da Câmara Federal, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB – RJ), que ajudou a afundar a economia na época com as “pautas bombas” – votação de projetos que traziam enormes gastos para o governo. Cunha instalou e conduziu o processo de impeachment de Dilma. Apontado pela força-tarefa da Operação Lava Jato como envolvido em casos de corrupção, entre outros crimes, hoje Cunha cumpre pena em uma penitenciária na Região Metropolitana de Curitiba (PR). Hoje, senadores, deputados federais e ministros do governo estão envolvidos em crimes descobertos pela Lava Jato. É dentro dessa conjuntura que Meirelles joga as suas cartas para conseguir concretizar uma reforma que irá mexer coma vida de todos os brasileiros: a reformulação da previdência social.
Os dois têm formações diferentes. FHC vem de uma bem sucedida carreira acadêmica. Meirelles, de uma brilhante trajetória como executivo da área financeira, em importantes bancos ao redor do mundo. FHC é amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Meirelles foi ministro de Lula e é um dos responsáveis pelo sucesso econômico do governo. Pela sua trajetória política, Meirelles nunca escondeu que acalenta o sonho de chegar a presidente da República, como FHC. Já tentou se cacifar a vice de Dilma, mas levou uma rasteira do grupo político da ex-presidente. Agora, aos 71 anos, Meirelles tenta o que talvez seja a sua última jogada: chegar aonde chegou FHC, apostando tudo nas reformas propostas pelo governo de Temer. Se tiver sucesso, ele tem uma chance de ser um dos candidatos à presidência da República em 2018. Se fracassar, vira saco de pancadas na campanha eleitoral. Nas duas hipóteses, resta saber de que lado o grupo político que apoia Temer irá ficar. É o jogo.

Olhando a volatilidade da conjuntura política brasileira, não há como afirmar quem será o próximo presidente da República. Mas podemos afirmar, com certeza, que o PMDB fará parte do governo. E a estrada para o partido chegar lá está sendo pavimentada pelo senador Renan Calheiros (PMDB – AL), ao se posicionar contra o poderoso grupo político que apoia o presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP).
A habilidade com que Calheiros – 61 anos, a maioria deles fazendo política – tem defendido seus interesses – políticos, econômicos e pessoais – no cenário nacional tem assegurado a sua sobrevivência na carnificina que é a disputa parlamentar. A habilidade do senador se sobressai pela sua capacidade de enxergar o futuro.
Qual é o futuro que Calheiros está vendo? Desde a democratização do país, em 1985, o partido tem se mantido no poder, por ser necessário para a governabilidade dentro de uma realidade de enorme fragmentação partidária. A moeda cobrada tem sido cargos na administração federal. A essa realidade, soma-se um fato totalmente novo. O parlamentar enrolado com a Justiça, principalmente com a Operação Lava Jato, que ficar sem o foro privilegiado corre o risco real de ir para a cadeia. Está aí o caso do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB – RJ), que teve seu mandato cassado é está cumprindo pena em um presídio da Região Metropolitana de Curitiba (PR).
Aloja-se no PMDB a maioria dos parlamentares que correm o risco real de ir para a cadeia, se perderem o foro privilegiado. E há uma boa quantidade espalhada por outros partidos. Calheiros é o expoente máximo do grupo – responde a processos e inquéritos policiais. E, ao se posicionar contra o poderoso grupo político que apoia o presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), um dos governos mais impopulares da história do Brasil, o senador está fazendo dois movimentos: o primeiro é acumulando capital político para disputar à reeleição. O segundo, pavimentando caminho para futuras alianças com vista a um cargo com foro privilegiado no futuro governo, caso não seja reeleito.
A situação descrita é o futuro que o senador enxerga e organiza para sobreviver. Antes de finalizar a prosa, vou refletir com os meus colegas repórteres, principalmente os novatos na lida, sobre a votação das reformas da previdência. Se os deputados e senadores, enrolados com a Justiça e da base parlamentar de Temer, sentirem que a sua reeleição pode ser comprometida pelo seu voto, eles racham com o governo. Calheiros é o líder deles.

Por ser um dos países do mundo que mais abrigam interesses do Brasil, há uma grande curiosidade dos brasileiros em conhecer os bastidores dos fatos que levaram a população a invadir e colocar fogo no Congresso paraguaio na sexta-feira. Durante o protesto morreu, com um tiro na cabeça, Rodrigo Quintana, 25 anos, presidente da juventude do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA). Oficialmente, falam que o protesto foi contra a aprovação da emenda constitucional da reeleição do presidente da República.
Mas nem tudo é o que aparenta ser no Paraguai, país que viveu uma das mais sangrentas ditaduras militares da América do Sul, a do general Alfredo Stroessner (1954-1989), que deixou como herança aos paraguaios o seu país ser sinônimo de corrupção e de produtos falsificados. A lista de interesses do Brasil é extensa: lá vivem um milhão de brasileiros (500 mil agricultores “brasiguaios”), a Binacional Itaipu (hidroelétrica), que fornece 17% da energia consumida no Brasil), contrabando (cigarros falsificados, roupas, peças de informática e remédios), e esconderijos para as organizações criminosas brasileiras (Primeiro Comando da Capital – PCC, de São Paulo e Comando Vermelho – CV, do Rio de Janeiro) que abastecem o país de cocaína, maconha, armas e munição. E, por último, o Paraguai é o maior consumidor de veículos roubados e furtados no Brasil.
Esse é o contexto. O grosso da economia paraguaia, a legal e a ilegal, gira ao redor dos brasileiros que vivem lá. Conheço bem o país. A primeira vez em que estive lá foi em 1984, fazendo reportagem, e tenho voltando lá de dois em dois anos. A última foi agora, em janeiro de 2017, trabalhando em nova edição do meu livro País Bandido, outra publicação que tenho sobre o Paraguai e os Brasiguaios, homens sem pátria. Há dois personagens envolvidos no que aconteceu no Congresso que têm ligações com o Brasil. O presidente da República do Paraguai, o empresário Horacio Cartes, eleito em 2013 para um mandato de cinco anos, é dona da Tabacalera del Este, que é uma das empresas apontadas como sendo uma das responsáveis de abastecer o mercado brasileiro com milhares de caixas de cigarros falsificados. Carpes se elegeu pelo Partido Colorado – o mesmo do falecido general Stroessner. Ao se tornar presidente, Cartes se livrou da acusação de ser contrabandista de cigarros.
O outro personagem envolvido no episódio é o senador Roberto Acevedo (PLRA). Ele é presidente do Senado do Paraguai. Conheci-o em 2010, em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia separada por uma avenida de Ponta Porã, município no Oeste do Mato Grosso do Sul. Na ocasião, Acevedo tinha sido vítima de um atentado feito à bala, que teria sido a mando do PCC. Os então presidentes do Brasil, Luiz Inácio da Lula da Silva (PT), e do Paraguai, o bispo Fernando Lugo, encontraram-se na fronteira como um sinal de demonstração de força contra as organizações criminosas brasileiras instaladas na área. Nos bastidores, a conversa era de que o senador virara alvo por defender inimigos do PCC.
Qual a influência que os currículos de Acevedo e de Carpes têm a ver com o que aconteceu no Congresso na sexta-feira? A pergunta será respondida pelo tempo. Muito embora os brasileiros que vivem lá dominem a economia – tanto a legal quanta ilegal –, a política é feita pelos paraguaios. Ali e aqui estão começando a aparecer, no cenário parlamentar, descendentes de migrantes do Brasil. E sempre que os paraguaios brigam, os migrantes pagam o pato.

O PSDB está na maior saia justa. Enfurecido pela derrota na eleição presidencial de 2014, entrou com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a cassação, por abuso do poder econômico, entre outros crimes eleitorais, da chapa reeleita: Dilma Rousseff (PT – RS) e o seu vice de então, Michel Temer (PMDB – SP).
A ação do PSDB no TSE foi apelidada pelo grupo politico que apoiava Dilma como “Terceiro Turno”. Argumentava que o então candidato tucano derrotado, o senador Aécio Neves, havia perdido as eleições nas urnas e, agora, queria ganhar no tapetão – na Justiça. Além da ação, os tucanos também pediram uma auditoria na votação, sob alegação de desconfiança no processo eletrônico. No final, concluíram que não houve fraude.
Uma sucessão de fatos políticos fez a ação contra a chapa ficar fora dos holofotes da mídia. A administração da então presidente Dilma começava a naufragar em problemas econômicos. E o grupo político do seu então vice-presidente, Temer, iniciava uma conspiração para derrubar a presidente. Os problemas econômicos do governo foram turbinados pelas “pautas bomba” do então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB- SP), hoje cassado e cumprindo prisão preventiva em Curitiba (PR), por ser suspeito de estar envolvido em crimes de corrupção que foram apurados pela força-tarefa da Operação Lava Jato. Antes de ser cassado, Cunha instaurou o processo de impeachment de Dilma.
O PSDB participava de maneira discreta do processo de conspiração do grupo político de Temer. Em parte, porque existia um forte debate interno no partido, onde líderes históricos da legenda se posicionavam contra o processo de impeachment. Foram vencidos, e o partido entrou de cabeça na articulação política que resultou na cassação da presidente e na subida ao poder de Temer. Hoje, o partido é da base política do governo e também ocupa cargos na administração.
Enquanto tudo isso acontecia, o processo do PSDB contra a chapa Dilma – Temer continuava tramitando no TSE. A tese de defesa de Temer é que ele não participou da montagem da sustentação econômica da campanha. Nas suas alegações finais no processo, o PSDB fortaleceu a tese do atual presidente. O fato é que, na próxima semana, o TSE vai começar a decidir o destino da chapa Dilma – Temer. Pelo cenário que está se esboçando, a tendência é que o processo seja empurrado com a barriga até o final do mandato em 2018.
Independentemente do resultado do processo, o PSDB criou um constrangimento para o governo do qual faz parte. Imagine a imensa dificuldade que um analista político estrangeiro tem para entender essa história. Agora, nós, repórteres, temos a obrigação de esmiuçar todo o episódio e explicá-lo aos nossos leitores. Lembro, principalmente aos jovens repórteres, que as disputas pelo poder entre os grupos políticos – que podem pertencer ao mesmo partido ou não – são travadas como se fossem batalhas. Para entender o que aconteceu, eu conversei demoradamente com fundadores do PSDB, do PT e do PMDB. E o que aconteceu é bem definido por um provérbio que há muitos anos circula pelo mundo, entre parlamentares e diplomatas, e serve como uma espécie de bússola para fazer as alianças políticas. Ele diz o seguinte: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”.
Esta é a situação. Aécio Neves e seus apoiadores no PSDB são inimigos mortais do grupo político do PT ao qual pertence o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, mentor e criador da candidatura de Dilma. O grupo político de Temer no PMDB sempre travou uma luta acirrada contra o PT por prestígio e cargos no governo. Assim que o governo do PT começou a agonizar, o grupo de Temer buscou uma aliança com o PSDB. O sucesso da aliança tornou Temer o presidente do Brasil. E, aos tucanos, trouxe a incumbência de explicar para a história o processo que tramita no TSE.

Baixada a poeira das manifestações de apoio à Operação Lava Jato no fim de semana, é a hora de o repórter olhar com profundidade o que aconteceu. O movimento não teve como alvo principal proteger o trabalho do juiz federal Sérgio Moro e a força-tarefa que conduz as investigações. Até porque a operação avança de maneira muito sólida. O que nós vimos foi um teste para saber a eficiência do uso da Lava Jato como ferramenta de propaganda política de massa nas eleições de 2018.
O experimento começou a ser montado há uns dois meses. Por estar envolvido na busca de informações sobre as mudanças no cotidiano das redações, eu estou lendo, ouvindo e vendo tudo o que é publicado sobre os grandes assuntos nacionais do momento. E, nos últimos dois meses, tenho observado uma frase sendo publicada e falada aqui e ali, principalmente entre os comentaristas políticos:
– Onde estão as pessoas que batiam panelas nas ruas?
Elas apareceram, sem as panelas, no fim de semana. A pergunta aqui é: como essa frase foi parar no nosso meio? Como repórter, eu lembro o seguinte: nós somos muito vulneráveis a uma frase que sintetize ou questione um episódio. E elas são soltas nas mesas dos botecos, nos cafés e em outros locais que frequentamos. Nos meus 40 anos de repórter investigativo, boa parte deles foi fazendo cobertura de conflitos agrários nos sertões do Brasil. E não foi uma ou duas vezes. Mas, muitos vezes que estava sentado em um boteco com os colegas, depois da enviar a matéria para redação, do nada, na mesa ao lado, pessoas começavam a falar frases do nosso interesse. Muitas delas acabaram nas páginas dos jornais. E, depois que o jornal publica, a frase interessante vira um fato.
Essa técnica de infiltrar informações entre os jornalistas nasceu na Guerra Fria e foi muito usada contra os movimentos sociais nos anos 1980. Hoje, é muito usada para testar modelos de publicidade pelos marqueteiros políticos. Há uma conversa forte entre eles sobre a possibilidade de haver uma polarização na campanha presidencial entre o ex-presidente Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC – RJ). Se o Lula se mantiver como um candidato forte, seja Bolsonaro ou qualquer outro seu adversário, o certo é que os conteúdos da Lava Jato serão usados como projéteis contra a candidatura do ex-presidente.
Entre os marqueteiros políticos, hoje a Lava Jato é um produto que está sendo testado para calibrar o discurso dos clientes durante a campanha de 2018. Nós, os repórteres, temos que ficar atentos para saber separar a Lava Jato do juiz Moro e dos marqueteiros políticos. Não podemos dar uma de papagaio e sair por aí repetindo as bobagens do marketing político. Lembrar que uma pessoa está sendo investigada é uma coisa. Acusá-la de um crime sem condenação é outra coisa.