A maneira como estamos informando os leitores dá a entender que são fatos isolados três acontecimentos que sacodem o Brasil: a guerra entre facções criminosas, envolvendo, de um lado, o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e, de outro, o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e seu aliado Família do Norte (FDN), de Manaus (AM), que empilham cadáveres decapitados e esquartejados pelos presídios e ruas do país; as articulações do grupo que conspirou e derrubou a presidente Dilma Rousseff (PT-RS); e o trabalho da força-tarefa formada por procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da Polícia Federal (PF) na Operação Lava Jato, cujo símbolo é o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba (PR).
Os fatos têm ligação. Basta fazer uma autópsia do contexto político do país e os pontos que os unem irão aparecer.
Um exemplo: a falta de pessoas qualificadas na área de segurança pública no governo federal é resultado da montagem de uma equipe feita às pressas pelos conspiradores. A consequência foram os massacres de presos em Manaus e Boa Vista(RR). Outro exemplo: sem conhecer o contexto do crime organizado do Rio do Janeiro, os investigadores da Lava Jato encarregados dos casos do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB) não levaram em conta que o Rio é território do CV, uma organização com muitas ramificações entre as instituições cariocas e entre os lavadores de dinheiro (eventualmente também conhecidos como doleiros).
Se cavar fundo nos acontecimentos é possível encontrar muita coisa comum entre alguns deles. Há um, em especial, que me preocupa enquanto repórter. Nos massacres de Manaus e Boa Vista, na conspiração para derrubar Dilma e na Lava Jato, o nosso trabalho deixou muito a desejar, tanto que colegas americanos se espantaram com a superficialidade da imprensa brasileira no caso de Dilma.
Justamente no momento que os leitores precisam de um maior volume de informações precisas, as redações estão sendo desmontadas por conta de erros estratégicos dos donos das empresas. Isso resultou em uma vulnerabilidade da apuração jamais vista. Cito como exemplo o seguinte: não se sabe exatamente quando e como o grupo do então vice-presidente Michel Temer decidiu desistir de salvar o mandato de Dilma e assumir o lugar dela. Esclarecer este ponto neste episódio é fundamental para entender o futuro do atual governo do presidente Temer.
No caso da Lava Jato, a cobertura jornalística está produzindo uma Escola de Base por dia, ou seja, um exemplo do que não se deve fazer em jornalismo (relembre o Caso Escola de Base em http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/caso-escola-base-rede-globo-e-condenada-pagar-r-135-milhao.html). Sem condições de fazer uma investigação própria, estamos publicando relatórios da força tarefa como se fossem verdades absolutas. Também fizemos manchetes de conteúdos de delação premiada que ainda não foram investigados.
Na questão das facções, estamos vendendo aos leitores a ideia de que PCC, CV e FDN são organizações formadas por criminosos violentos e ignorantes. A violência a que assistimos é a parte visível destas organizações que funcionam como se fossem grandes empresas administradas por gestores capacitados.
Para entender o que está acontecendo é preciso atar o nó do que está rolando. A história costuma ser cruel com quem publica o fato pela metade.

A degola e o esquartejamento do inimigo, transformados em espetáculo nas redes sociais pelo Estado Islâmico (EI) para espalhar pavor entre seus inimigos, foram adotados como métodos de execução pelas facções criminosas brasileiras que estão em guerra aberta pelo controle do comércio de drogas (e das cadeias) no país.
A morte de maneira cruel foi a marca registrada dos recentes confrontos nas penitenciárias da Região Norte envolvendo integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e seus inimigos do Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, estes aliados ao Famílias do Norte (FDN): foram 56 mortes no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compag) de Manaus (AM), e 31 mortes na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (PAMC), em Boa Vista (RR).
A influência da maneira de agir do EI não começou agora. Ela pôde ser notada nos últimos 15 meses, por exemplo, em Porto Alegre (RS), onde o Diário Gaúcho (DG) têm noticiado casos de degola e de esquartejamento entre criminosos de quadrilhas rivais. Na edição de hoje do DG, o repórter Eduardo Torres publicou uma reportagem dando conta que no período foram 16 decapitações e apenas um inquérito concluído.
Há dezenas de vídeos das execuções feitas pelo Estado Islâmico nas redes. Ao assistir aos vídeos publicados sobre as mortes em Manaus e Boa Vista, a ligação com o EI é automática na cabeça de muitos, ouvi de um especialista.
O Estado Islâmico não inventou a degola ou o esquartejamento. São duas maneiras de matar seculares, presentes ao longo da trajetória da humanidade. No Rio Grande do Sul, nos tempos das revoltas civis, sobretudo na Revolução Federalista (1893-95), a degola foi amplamente utilizada por todos os lados em combate.
O que acontece é que o EI usa com muita competência as redes sociais para divulgar os seus massacres. E graças ao barateamento do uso da internet, os vídeos circulam o mundo com imensa rapidez, como foi o caso das mortes em Manaus e Boa Vista.
Também não é a primeira vez que criminosos brasileiros são influenciados por vídeos. Nos anos 2000 atuava nas estradas do Rio Grande do Sul um bando de assaltantes de carros-fortes liderado por José Carlos dos Santos, o Seco, um jovem de classe média nascido em Candelária, pequena cidade agrícola no Vale do Rio Pardo.
Como repórter, acompanhei de perto as ações ousadas do Seco. Ele inovou no assalto a carro-forte. Dirigindo um caminhão roubado, protegido por capacete de motoqueiro e com colchões enrolados no corpo, ele abalroava os carros-fortes e os jogava para fora da estrada. Terminava o serviço usando explosivos e armas pesadas. Foi preso e cumpre uma pena de mais de 100 anos no Rio Grande do Sul.
Depois que a quadrilha de Seco foi desbaratada, a investigação policial descobriu que os métodos por ele utilizados foram aprendidos em Fogo contra Fogo, um filme de ação de 1995, estrelado por Al Pacino e Robert De Niro, em que o enredo são as táticas de ataque do bando. (veja em www.youtube.com/watch?v=a51pQm1uSbQ). Mais ainda: no andar da investigação, os policiais descobriram que todo o bandido novo incorporado ao bando tinha como primeiro trabalho ver o filme.
Este filme influenciou na maneira de se organizarem as quadrilhas que agiam na primeira década de 2000 nas terras gaúchas. Mas os estúdios de cinema de Hollywood não são culpados por seus filmes serem usados como “aula” pelos bandidos. Desmantelar e prender as quadrilhas são trabalhos para a polícia brasileira.
Da mesma forma, o EI não pode ser apontado como culpado pelo que aconteceu em Manaus e Boa Vista. Mas sua influência no modo de agir das facções é um fato.

O massacre dos 56 presos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compag) de Manaus (AM) é a parte visível no acirramento da disputa entre o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, na corrida para ocupar o lugar no tráfico de cocaína das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que será desmantelada por conta da evolução do acordo de paz com governo colombiano. Hoje todo o produtor de cocaína e o atacadista – aquele que vende em grande quantidade – pagam pedágio para as Farc. A Colômbia perfila-se entre os maiores e mais bem organizados produtores de cocaína do mundo. É a joia da coroa.
Em um primeiro momento o desmantelamento da Farc irá trazer o caos porque os seus soldados perdem a proteção da organização. Hoje, no mundo do crime, ninguém ataca alguém protegido pelas Farc porque sabe que o poder de resposta é imediato e arrasador. Se a organização deixar de existir é cada um por si. É neste momento que os brasileiros entram em cena ocupando o vazio deixado pela Farc. Isto será feito recrutando ex-combatentes ou simplesmente substituindo por outros. O PCC e o CV têm experiência no assunto. Nos anos 90, eles levaram a guerra para as fronteiras do Paraguai, Bolívia e Colômbia. Começaram liquidando os grupo locais. Uma das batalhas que ganhou notoriedade foi a travada pelo Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, contra o seu protetor o João Morel, líder de uma bem estruturada quadrilha em Capitán Bado, cidade paraguaia dividida por um rua empoeirada de Coronel Sapucaia, pequeno município no Oeste do Mato Grosso do Sul. Nos anos 60, Morel se instalou na região e começou com o contrabando de café e depois estruturou o tráfico de maconha, cocaína e armas. Fugindo da polícia no Rio de Janeiro, Beira-Mar foi acolhido e protegido por Morel. Beira-Mar fez uma aliança com as Farc – trocando cocaína por remédios, munição e armas – e começou a fazer sombra para Morel. Em janeiro de 2001, os dois se desentenderam e o Beira – Mar mandou executar os dois filhos dele, Ramón e Mauro. Uma semana depois, mandou matar o próprio Morel. Três meses depois, Beira-Mar foi preso pelo Exército da Colômbia, aliado com a Agência Anti-Drogas dos Estados Unidos (DEA), na selva colombiana. Fernandinho cumpre pena de 120 anos no Brasil.
Nas fronteiras, o PCC e o CV não lutam por território o tempo todo. Eles também fazem alianças estratégias para defender interesses comuns. Um ruidoso caso que aconteceu no ano passado é apontado como exemplo, a execução do Rei da Fronteira, o brasileiro Jorge Rafaat, condenado por tráfico de drogas no Brasil, que vivia em Juan Pedro Cabellaro – cidade paraguaia separada por uma avenida de Ponta Porã no Oeste do Mato Grosso do Sul. A morte foi cinematográfica – https://www.youtube.com/watch?v=2aW1Rb2Hl7w – e um dos motivos teria sido porque ele decidiu aumentar o preço da maconha e da cocaína que vendia ao PCC e o CV.
A Colômbia é a terra de Pablo Escobar – https://www.youtube.com/watch?v=nzDPEiyXdB8 -. poderoso traficante morto nos anos 90. País de criminosos muito ricos, cruéis e desconhecidos. Portanto, as organizações criminosas brasileiras podem virar laranja dos interesses dos chefões, um papel que tem sido desempenhado pelas Farc. Nas últimas três décadas, pelo menos de dois em dois anos, circulo pelas fronteiras fazendo reportagens e escrevendo livros. Aprendi que a longevidade de uma organização criminosa depende do seu poder de se adaptar as mudanças na conjuntura, um assunto que o PCC e o CV são mestres.

Por conta do que está por vir na Operação Lava Jato os deputados federais e os senadores nunca trabalharam tanto em um recesso parlamentar como estão trabalhando no atual. Na prática, apenas trocaram os ternos pela bermuda e o chinelo de dedo. Eles seguem agarrados aos seus telefones celulares e cobrando de seus assessores mais e mais informações a respeito do que está rolando na Lava Jato.

A preocupação não é exagerada. Eles vivem uma situação inédita na vida política do Brasil por conta do que está por vir com a homologação das delegações premiadas dos executivos da Odebrecht, que vai jogar merda no ventilador, como se diz no jargão dos repórteres. E ainda cresce diariamente a possibilidade de ocorrer a delação premiada do ex-deputado deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) que cumpre prisão preventiva na Lava Jato.

Seja qual for o rumo que as coisas irão tomar durante o ano, quem tem mais a perder é o PMDB, que apostou alto na situação. Com Michel Temer, o partido ocupou a vice-presidência da República no governo de Dilma Rousseff (PT RS). Conspirou contra Dilma e agora Temer é o presidente do país. Para o partido conseguir continuar navegando na imensidão do mar agitado precisa manter aliados de confiança nas presidências do Senado e da Câmara Federal, que terão eleições no final de janeiro e começo de fevereiro.

O quadro na Câmara ainda é indefinido. O cargo atualmente é ocupado pelo deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), em um mandado tampão de seis meses. Maia teve um papel importante na substituição de Dilma por Temer. A eleição para o Senado já tem definições. O atual presidente, o senador Renan Calheiros (PMDB AL), está fora do páreo, desgastado por responder a vários processos na Justiça Federal, sendo que é réu em um deles, o que o impede de assumir a Presidência da República em um eventual impedimento de Temer e Maia.

Dentro de uma situação normal, por ter maior bancada, 18 dos 81 senadores, o PMDB elegeria o substituto de Calheiros. Acontece que na bancada apenas três senadores não enfrentam problemas com a Justiça ou com a Polícia Federal (PF). Entre eles está Kátia Abreu (TO), ex-ministra da Agricultura de Dilma, amiga pessoal da ex-presidente e uma mulher que ganhou o respeito do PT por ter ficando ao lado de Dilma até o fim. Kátia é faca na bota, não leva desaforo para casa. A candidatura dela não é preferida de Temer, ou da maioria dos seus colegas de bancada. Mas é olhada com simpatia pela ala esquerda do seu partido e do PT, a segunda maior bancada no Senado. Este é o quadro da primeira semana de 2017. O que virá pela frente nenhum senador pode saber. Se soubesse, já teria entrando em férias.

A atual situação para os jovens repórteres é uma oportunidade de mostrar trabalho.

Como se fossem cavaleiros do apocalipse, dois personagens foram trazidos ao convívio de inúmeras famílias gaúchas pela crise econômica que assola o Brasil, em particular o Rio Grande do Sul: o agiota e o cobrador de contas.

Por serem crias da periferia do caos da economia, eles raramente frequentam os noticiários, que são dominados por governo, empresários, sindicalistas, consultores e professores da academia. O agiota e o cobrador giram ao redor das famílias, principalmente as de baixa renda. O desafio para o jovem repórter é encontrar esses personagens anônimos da crise e mostrar o cotidiano deles.
Como jornalista, esta não é a primeira crise que estou vendo: tenho 66 anos, 40 como repórter estradeiro. Mas é a primeira que estou vivendo fora da redação de um jornal, portanto sem a pressão de precisar escrever apressadamente a reportagem e publicá-la.
Isso tem me dado mais tempo para conversar com muitas pessoas. Sem me identificar, tenho me alongado nestas conversas. E o que tenho ouvido não tem comparação com o que aconteceu em outras crises.

Por exemplo: o atraso no pagamento dos salários dos funcionários públicos do Estado criou um ambiente totalmente novo na categoria. Na semana passada, encontrei no supermercado um velho professor de história do ensino médio público. Homem de saber invejável, conversa interessante e bom tomador de cerveja, nós falamos durante mais de uma hora. Ele resumiu a situação dele:
– O salário vem fatiado, as contas, não. Para pagá-las, primeiro gastei a poupança, depois peguei dinheiro emprestado com amigos e parentes. E agora busquei aos agiotas.

Liguei para um conhecido, um oficial da P2 – serviço de inteligência da Brigada Militar (BM) – e acertamos uma cerveja com batatinha frita no final da tarde. Depois de uma conversa fiada, perguntei-lhe sobre os efeitos do salário fatiado nas tropas da BM.
– A merda não é maior porque a tropa tem o bico (serviço extra) e o agiota para pegar dinheiro – resumiu.

Como herança dos tempos de redação, conheço vários agiotas – eles são boas fontes. Liguei para três deles e conversamos sobre o momento atual. Contaram que os negócios estão em alta. Mas, diferentemente de outras crises, os riscos são grandes devido ao enorme endividamento dos seus clientes.

Os juros que o agiota cobra não tem tabela – pode ir de 20% a 40% ao mês. Um dos agiotas, um homem velho que opera em escritório nos arredores da estação rodoviária de Porto Alegre, disse uma coisa interessante. Ele cobra um juro menor dos seus clientes de longa data – pessoas que vez ou outra pegam dinheiro para pagar uma eventualidade.

Uma cena a que tenho assistindo diversas vezes durante o mês: clientes com o limite do cartão de crédito estourando na hora do pagamento das compras no caixa do supermercado. Na semana passada, uma senhora não conseguiu esconder as lágrimas quando precisou retirar alguns produtos do rancho para adequar a despesa ao saldo do cartão. Ela olhou para mim, eu comecei a mexer no celular para mostrar que não estava interessado no assunto.

Estou procurando um caminhonete para comprar e, atento aos anúncios, esbarrei em um que me chamou a atenção. Um revendedor “picareta” prometia comprar e pagar à vista carros com dívida. Liguei para ele e o que ouvi me fez cair os butiás dos bolsos, como costuma dizer o repórter Nilson Mariano. Ele quita o carro com o banco e não reembolsa as prestações já pagas pelo proprietário. Baita negócio, para o picareta.

Andei conversando com os cobradores de contas – conheço alguns que são minhas fontes. Aqueles vinculados a escritórios de advocacia estão ganhando dinheiro atuando no setor de veículos e outros bens retomados. Os autônomos têm bastante trabalhando buscando os clientes dos mercadinhos que estão em atraso com suas contas. Quem ganha dinheiro com a crise é uma boa matéria.

Há uma pergunta que temos que responder para a opinião pública. Como evitar que, no futuro, parlamentares e empreiteiros descubram uma nova maneira de se associarem para cometer crimes?

Uma das alternativa é a regulamentação da profissão de lobista. (Recomendo aos jovens repórteres que pesquise o assunto).

Vejamos. Pelas notícias que estão circulando, podemos observar dois crimes sendo cometidos. O primeiro, e mais antigo, é o financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro sujo – que é obtido pela supervalorização do preço das obras contratadas com o Estado. Vários casos estão sendo exaustivamente investigados e explicados na Operação Lava-Jato.

O segundo tipo de crime é a “compra”, pelas empresas, de parlamentares para defenderem os seus interesses no plenário do Congresso – acompanhando a votação de leis – e na confecção de editais de concorrência com cláusulas amigáveis ao pleito das empreiteiras.

Aqui chamo atenção do jovem repórter. O primeiro crime que descrevi é caso para a Política Federal (PF) investigar e a Justiça Federal julgar. O segundo crime é o mais grave, pois atinge um direito que todas as organizações – trabalhadores, empresas (de todos os portes) e grupos de defesa dos direitos civis – têm de vender o seu peixe para os parlamentares. Trata-se de uma atividade que precisa ser feita de maneira transparente e obedecendo a regras. Nos Estados Unidos e em alguns países da União Europeia, os lobistas fazem esse trabalho. Os americanos regularizaram atividade de lobby em 1947 e atualizaram as leis em 1995.

Claro que para os parlamentares envolvidos com corrupção e os empresários corruptores o surgimento da atividade de lobista, devidamente regulamentada e fiscalizada, não interessa, porque irá tirar o lucro trazido pelas operações ilegais. É como se a droga fosse legalizada no Brasil, os traficantes iriam à falência. Por isso, a legalização do lobby é mais uma ferramenta de controle.

A discussão deste assunto não é nova. Mas é a primeira vez que pode ser debatida dentro do atual contexto político e econômico criado pela avalanche de denúncias de trapaças envolvendo parlamentares e empresários. É uma boa oportunidade para o jovem repórter mostrar trabalho.

Assim como é função do médico curar a doença e a do bombeiro é apagar incêndios, é tarefa do repórter entender e publicar as ligações existentes entre os fatos que determinam o cotidiano das pessoas. A arma mais poderosa que um leitor pode ter é o conhecimento dos fatos, o que irá orientá-lo a seguir o caminho que lhe interessar.

O enfrentamento que acontece entre o senador Renan Calheiros e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) é uma boa sala de aula para o jovem repórter. É um momento raro na política brasileira em que o bastidor do poder está exposto: podem ser vistas a olhos nus as articulações que estão sendo feitas para aprovar as reformas econômicas propostas pela Pec 241 – agora transformada no Senado em Pec 55.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, sabe que é figura chave nesta articulação que irá enfiar a Pec garganta abaixo dos brasileiros. Ao contrário do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha, um arrogante durante as 24 horas do dia, Renan tem a disciplina de um samurai, ele só vai para o enfrentamento na hora que considera ser a certa. Passa a maior parte do tempo recolhido ao seu canto do ringue, estudando o adversário, e só sai de lá quando tem certeza de que há uma boa chance de nocautear o opositor. E quando o derrota, ao contrário de Cunha, não o humilha. Transforma-o num aliado.

O atual momento é o auge do poder de Renan. Na próxima semana, a Pec irá para sua definitiva votação, na qual ele é figura importantíssima na articulação do governo Temer, que conseguiu convencer um bloco significativo de deputados federais e parte importante do Poder Judiciário de que as medidas irão salvar o Brasil.

Dentro desse contexto, Renan não teve a mínima cerimônia em mandar às favas uma ordem do STF de deixar o cargo. Perdeu os anéis, mas conservou os dedos. O STF o manteve no posto. Apenas o impediu que ocupar o cargo de Temer, em um eventual (e muito pouco provável) impedimento simultâneo do presidente da República e do presidente da Câmara dos Deputados, o primeiro na linha sucessória – com o impeachment de Dilma Rousseff e a posse de Temer, o Brasil não tem mais vice-presidente.

A história política de Renan é longa e interessante – há um vasto material no Tio Google. Aos 61 anos, o senador por Alagoas não pode ser descrito como mocinho ou bandido. A definição mais apropriada é equilibrista. Não há como saber quem será o próximo presidente do Brasil. Mas certamente o senador Renan será um dos que irá apoiá-lo.

Qual a relação entre a conspiração que derrubou Dilma e a continuada queda livre na economia na era Temer? Não estamos respondendo a esta pergunta ao nosso leitor. O caminho que o jovem repórter precisa percorrer para responder a pergunta começa com uma autópsia da situação. E uma boa e extensa leitura de conjuntura econômica atual.

A história mostra que não existe um modelo econômico 100% eficiente em uso em nenhum país do mundo. Todos eles têm o seu ponto frágil, que são identificados e usados para ganhar dinheiro pelos especuladores dos mercados. Foi o caminho dos especuladores que os conspiradores trilharam para derrubar Dilma. Era o caminho lógico. O governo tinha um forte apoio dos eleitores ancorado em uma série de políticas sociais, empregos em alta e salários em ascensão. Portanto, seria dar murros em ponta de faca tentar convencer o eleitor que ele estava errado em apoiar o governo.

Os conspiradores já tinham tentado no governo Lula e falharam. Mas a maioria das políticas sociais do governo eram financiadas por receitas temporárias, tipo valorização dos produtos exportados pelo país, como soja e outros. Houve uma queda nos mercados internacionais que exigia uma correção de rumo na economia brasileira. Foi aí que os conspiradores agiram: montaram uma aliança política que conseguiu barrar todas as medidas que o governo tentava para alinhar a economia nacional aos novos rumos dos mercados internacionais – um dos símbolos da época são as pautas bombas do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha.
No período de agonia do governo Dilma, os especuladores de mercados, principalmente do mercado financeiro, ganharam fortunas. Eles tinham vivido um período de vacas magras durante a estabilidade da economia.

Derrubada a Dilma, os conspiradores alojam-se no governo e elegem a recuperação da economia como seu objetivo principal. Como se o mundo fosse parar para o Brasil se ajustar. Claro, o mundo não parou. E a economia brasileira está pagando o preço por não ter feito os ajustes na hora que era necessário. Nós, repórteres, temos que fazer a conta de quanto custou a conspiração e informar à população. Cabe a ela saber que uso dará a informação.

Os dias seguintes nas coberturas jornalísticas sobre grandes tragédias merecem a reflexão das novas gerações de repórteres. A imprensa brasileira tem uma tecnologia e uma dedicação invejáveis na cobertura da hora em que ocorre a tragédia, estamos entre as melhores do mundo. Temos mais um exemplo agora no trabalho em torno da Chapecoense, a equipe catarinense dizimada na queda do avião que a levava para Medellín, na Colômbia. Grandes jornais não poupam recursos para coletar as informações que abastecem todas as suas plataformas de notícias – sites, blogs, jornais, rádios, TVs e outras mídias.
É normal que o passar dos dias reduza o fôlego da cobertura. Aqui está o ponto em que proponho a reflexão aos jovens repórteres. Não é normal que se perca o fôlego na apuração sobre os responsáveis pela tragédia. A persistência na busca pelos culpados é uma obrigação do jornal para com os seus leitores. A mídia é o mais eficaz instrumento à disposição da comunidade para se evitar que os casos fiquem emperrados nas gavetas dos tribunais. Temos o exemplo da Boate Kiss, com o incêndio que matou 242 pessoas e feriu outras 680, a maioria de universitários, na madrugada de 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria. No Brasil, é a segunda maior tragédia em número de vítimas em um incêndio, sendo superada apenas pelo sinistro no Gran Circus Norte-Americano, ocorrido em 1961, em Niterói, que vitimou 503 pessoas. O inquérito policial que deu origem ao processo da Boate Kiss é recheado de provas testemunhais, técnicas e dados coletados. A investigação da Polícia Civil apontou quatro pessoas como responsáveis pela tragédia, as quais aguardam julgamento em liberdade, o que é considerado uma afronta pelos familiares das vítimas e pela comunidade.
O processo Kiss se arrasta nos tribunais. E há o absurdo de pais das vítimas estarem sendo processados pelo Ministério Público. A lentidão, e os fatos exóticos que se sucedem, são apontados pela sociedade como resultado da postura de grandes jornais, que teriam virado as costas para o caso. Como repórter que viveu 40 anos em Redação e andando pelos sertões à procura de boas histórias, sei que o espaço nos noticiários é disputado de maneira ferrenha. E que sempre vence o fato mais relevante de hoje. Também sei que a comunidade sempre é muito grata ao repórter que se notabiliza em não deixar de fora dos noticiários a busca pelos culpados. Tenho lido trabalhos acadêmicos sobre a decadência econômica das grandes empresas de mídia. Como repórter, digo que virar as costas para um caso do calibre da Kiss se perfila entre os que afugentam assinantes e anunciantes. Os jovens repórteres devem refletir sobre os dias seguintes na cobertura de tragédias.

Sou um velho repórter que respeita o leitor. Em nome do respeito digo aos meus colegas que seria legal informar aos leitores o preço pago e a origem dos recursos usados pelo Geddel Vieira Lima para comprar o apartamento. Não estou levando nenhuma suspeita. Apenas falando em nome da exatidão da informação.