Mês: fevereiro 2017

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Nos últimos meses, não apenas as palavras “segurança” e “pública” foram incorporadas ao nome do Ministério da Justiça. Aconteceu de fato uma mudança no cotidiano do ocupante da cadeira. Hoje, seu trabalho se parece mais com a rotina de um delegado de polícia do que a de um ministro do Estado que conduz as políticas governamentais no vasto leque de assuntos da área da Justiça, entre elas: questão indígena, consumidor, imigração e anistia política.
O novo ministro, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), assume o cargo com restrições de mencionar qualquer comentário que seja entendido como contrário à Operação Lava Jato. Se falar mal, além de perder o cargo, ficará dando explicações para a mídia por muitos meses.
A Lava Jato não é o maior problema do ministro. É o crescimento da violência nas cidades brasileiras, inclusive nas pequenas, o que pode ser creditado à ação das facções criminosas. Nos últimos anos, essas organizações atingiram um grau de eficiência jamais visto. As duas maiores, o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, consolidaram suas posições nas fronteiras brasileiras com Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia.
Como se fosse empresas, o PCC e o CV estão verticalizando suas atividades, tentando acrescentar o controle das fontes da produção de cocaína e maconha. Disputando os mesmos mercados e territórios, era inevitável que entrassem em conflito. Os últimos confrontos entre as duas, no início do ano, empilharam mais de 90 corpos, muitos deles decapitados, nos presídios de Manaus (AM) e Boa Vista (RR).
No norte do Brasil, o CV é aliado com Família do Norte (FDN). O PCC tem como sócios várias quadrilhas na fronteira do Paraguai. Aliás, de norte a sul do Brasil, nascem e se consolidam novas facções criminosas, com um alto grau de eficiência na administração dos seus negócios. Entre estas, estão a dos Manos e a dos Bala na Cara, ambas de Porto Alegre (RS).
Enquanto as facções crescem e se alastram pelas fronteiras, em vários Estados, inclusive no Rio Grande do Sul, aumenta o caos no sistema penitenciário, hoje o maior fornecedor de soldados para as organizações criminosas. Soma-se a isso a grande insatisfação existente nas policiais militares de todo o país. Recentemente aconteceu a greve dos PMs capixabas, em Vitória, no Espírito Santo. Atualmente, os PMs de Pernambuco estão ameaçando parar.
Este é o contexto. Totalmente diferente do que era o do Ministério da Justiça até bem pouco tempo atrás. Essa confusão é o cotidiano das delegacias de polícia – seja federais ou estaduais. Ali as coisas acontecem com uma incrível velocidade. Seria bom o novo ministro ter uma longa conversa com um delegado, principalmente com um que trabalha nas fronteiras do Brasil, para pegar algumas “dicas” de como administrar o caos. Fica a sugestão. Como um velho repórter estradeiro conheço bem a realidade das delegacias..

Em vastas regiões do Brasil e entre as classes populares dos grandes centros urbanos, na disputa das eleições de 2018, principalmente para presidente, o peso da violência – crimes contra o patrimônio e a pessoa – vão ter mais peso que a operação Lava Jato, que apura a corrupção entre empresários, políticos e assessores.
Não estou comparando qual dos crimes é o mais importante. Estou comparando o poder da imagem divulgada para o público. A força-tarefa da Lava Jato mostra o seu trabalho em entrevista coletivas, com gráficos e áudios de interceptação telefônica entre os suspeitos e explicações técnicas da relação entre os fatos divulgados. O impacto fica por conta dos nomes dos políticos divulgados.
Mas, quando falamos em impacto a imagem não é páreo para as cenas de brutalidade dos massacres provocados pelo enfrentamento do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, com o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, nas cadeias de Manaus (AM) e Boa Vista (RR), onde empilharam 90 corpos, muitos sem cabeça. Ou para os relatos dos familiares martirizados pela morte de um dos seus nas centenas de roubos de veículos que acontecem diariamente no Brasil. Ou ainda para as lágrimas dos pais das muitas crianças que são mortas no fogo cruzado na troca de tiros entre a polícia e as quadrilhas.
Se eu fosse cientista social a minha avaliação deste quadro seria cientifica. Sou repórter, com 40 anos de estrada, portanto vou relatar o que vejo de imediato. Não é de hoje, mas já são velhos conhecidos dos brasileiros os crimes do colarinho branco apurados pela Lava Jato. O que chama atenção agora é o fato de eles estarem indo para a cadeia. Como também as barbaridades resultantes dos confrontos do PCC com o CV e da violência diária sofrida pela população. A diferença é o grau de crueldade dos bandidos.
As novas tecnologias e a popularização da internet tornaram consumidores de informações uma vasta fatia da população brasileira espalhada de norte a sul, de leste a oeste. Muito mais que as palavras escritas, as imagens dão uma mensagem curta, rasteira e impactante. Seja através do WhatsApp, do Facebook ou de outra mídia, os vídeos correm o país em uma velocidade espantosa, principalmente pelo celular. Só para se ter uma ideia: em 2014, quando a Dilma Rousseff (PT) foi reeleita para presidente do Brasil existia no país, em números redondos, 274 milhões de celulares. Em 2018, a previsão é de 350 milhões. A população do país é de 212 milhões de habitantes, portanto dá mais de um aparelho por pessoa.
Como repórteres temos que ficar atentos aos discursos que vem por aí. Tem muito mais em jogo do que uma eleição. Não é a única explicação, mas o crescimento do deputado Jair Bolsonaro (PSC), nas últimas pesquisas da CNT/MDA precisa ser analisada de perto. Ele tem um discurso simples, agressivo e inconsequente, que entra como uma luva neste tipo de contexto. O governo federal já se deu conta e tem feito lançamento midiáticos de iniciativas, tipo Plano Nacional de Segurança, com um amontoado de boas intenções.

A greve da Polícia Militar do Espírito Santo está deixando um rastro de informações inéditas que precisam ser analisadas com profundidade pelos repórteres, que estão no meio do fogo cruzado entre uma população carregada de razões para reclamar da greve e os grevistas com igual quantidade de motivos para cruzarem os braços. Oficialmente, a greve acabou. Mas alguns batalhões ainda seguem parados. E o saldo deixado até agora pelo movimento impressiona: 127 homicídios, dezenas de saques no comércio e algumas centenas de outros crimes.
Primeiro, vamos ao lero-lero, como se fala no jargão dos repórteres sobre fatos conhecidos que precisam ser lembrados antes de começar a conversa séria. Vitória é uma cidade com 212 mil habitantes, capital do Estado, onde os moradores são conhecidos como capixabas. Ao longo dos anos, o município é usado como um esconderijo de chefes de grandes quadrilhas do Rio de Janeiro, especialmente criminosos ligados ao Comando Vermelho (CV). No final da década de 90, conversei longamente com agentes da Polícia Federal (PF) e da Polícia Civil do Espírito Santo sobre uma investigação que apurava se os quadrilheiros estavam pagando “pedágio” para se esconder na cidade. A apuração não foi concluída. Outro fato. O policial militar do Espírito Santo recebe o menor salário da categoria no Brasil. Isto o torna refém de outras fontes de renda, como a prestação de serviço de segurança no comércio, famoso bico. O salário está sendo pago em dia.
Agora, vamos à conjuntura atual. Assisti, li e escutei a maioria do que se noticiou sobre a greve. E recorri a várias fontes para entender o que não estava nos noticiários. O que foi noticiado dava a entender que as entidades de classe estavam usando as mulheres e os parentes de policiais militares para driblar a lei que proibe a categoria de fazer greve. Inclusive autoridades do governo classificaram a ação das mulheres e dos parentes como “teatro”. Perguntei a uma fonte minha sobre o assunto, e a resposta acrescentou informações novas:
– Os lideres do movimento são inexperientes e não souberam reagir às ameaças do governo. E, com isso, deixaram um vácuo na negociação que foi ocupado pelas mulheres e por outros familiares.
A organização das mulheres e familiares foi amparada por forças políticas locais e nacionais. Em 40 anos de repórter, já vi isso acontecer, o que descrevo como normal. Entre os apoiadores, merece destaque a atuação dos simpatizantes do deputado federal, Jair Bolsonaro (PSC-RJ). O deputado é pré-candidato a presidência da República em 2018. Ele não foi o único a usar o movimento como palco para vender suas idéias. Mas foi o que mais se destacou. Conversei com fontes no governo do Espírito Santo sobre um fato que me intrigou. Qual o motivo que levou as autoridades estaduais a insistirem na punição de praças e oficiais envolvidos na greve depois de fechado o acordo para pôr fim no movimento? Esse tipo de coisa, geralmente, é negociado durante o acordo. No caso do Espírito Santo, não só não foi negociado como a insistência pelo governo em punir virou manchete nos principais jornais do país. A resposta da minha fonte sobre o assunto foi curta:
– A decisão é política. Os fomentadores da greve (sem especificar quem) têm que saber que soubemos jogar duro.
Dois dias depois dessa conversa com a fonte, os jornais noticiaram que oito governadores, incluindo o do Rio Grande do Sul, e quatro vices, reuniram-se em Brasília. Em uma nota oficial, pediram ao governo federal e ao Congresso Nacional “que não seja aprovado qualquer tipo de anistia aos policiais militares que tiverem sido punidos pelos atos considerados inconstitucionais. Neste momento de instabilidade e insegurança, é preciso agir com firmeza para que situações semelhantes não se expandam para outras regiões do País”.
A pergunta que me veio à cabeça foi se o baixo salário que os policiais militares recebem no país e o fato de vários estados, incluindo o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, estarem pagando os salários com atraso seria o estopim para fazer pipocar paralisações pelo Brasil afora. Conversei sobre o assunto com uma fonte que é liderança nacional da categoria. A resposta me surpreendeu:
– O andamento do projeto do governo federal da reforma da previdência social.
Argumentei que o presidente da República, Michel Temer, havia retirado do projeto os policiais militares e os bombeiros, alegando que eles eram pagos pelos estados.
– Ele falou que iria tirar. Mas não tirou.
Nas últimas décadas, como repórter acompanhei várias greves – geralmente disfarçadas – de policiais militares. A maior de todas aconteceu em Minas Gerais, em 1997, quando o cabo Valério dos Santos Oliveira, 36 anos, foi atingido por uma bala perdida na cabeça. A que acontece no Espírito Santo é totalmente diferente das outras manifestações. Em parte, pelo inédito contexto político e econômico nacional. Na política, temos vários deputados federais e senadores sendo investigados por corrupção, o presidente da República é um dos mais impopulares da história e a campanha para as eleições de 2018 já começou. Na economia, vários estados estão quebrados, entre eles o Rio Grande do Sul. E o governo federal só concorda em ajudar se houver contrapartidas do tipo: corte de pessoal e salários. Para entendermos o que está acontecendo no Espírito Santo, nenhuma palavra dos envolvidos com a greve, dos seus apoiadores e dos governos do Estado e da União pode ser desprezada. Porque ali pode estar a chave para se entender a situação e, com isso, explicar aos nossos leitores a trilha que os acontecimentos estão percorrendo. Não é uma tarefa fácil. Mas é necessário amarrar as pontas, como se fala no jargão dos repórteres.

Ao indicar o ex-ministro da Justiça Alexandre de Moraes, 54 anos, para o Supremo Tribunal Federal (STF), o grupo político do presidente da República, Michel Temer (PMDB – SP), 76 anos, deu visibilidade à estratégia que está usando para enfrentar a Operação Lava Jato. Eles estão corroendo a operação por dentro. É o mesmo modo operacional usado com sucesso e que resultou na queda da companheira da chapa de Temer, a então presidente da República, Dilma Rousseff (PT – RS), 69 anos,
A estratégia é simples é eficiente. Mas requer um grupo muito coeso e bem informado sobre o contexto para executá-la. É o caso das 10 pessoas de confiança que cercam Temer. Eles descobrem as vulnerabilidades do alvo e atacam. No caso de Dilma, existia uma lista enorme de contradições nas alianças políticas de sustentação do governo e na execução da economia. Na Lava Jato, é mais simples. Ela é executada por funcionários públicos federais – juiz, procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da Polícia federal (PF). Muito embora sejam ligados a poderes diferentes da União, a administração entre os poderes é interligada e tem padrões burocráticos de funcionamento, semelhantes em qualquer outro país do mundo. Um exemplo da vulnerabilidade da Lava Jato perante a máquina administrativa: uma inocente mudança de norma na tramitação de um pedido pode acarretar atrasos na liberação, por exemplo de uma diária de um policial federal. O atraso tem imenso potencial de fazer danos a uma investigação – que é um processo em que os acontecimentos têm a sua velocidade própria. Nos meus 40 anos como repórter investigativo, já vi isso acontecer. E não tem como saber se o atraso da diária foi por negligência ou dolo.
O fundamental desta estratégia é que ela não bate de frente com o alvo, no caso, a Operação Lava Jato, que tem imenso respaldo popular, graças ao trabalho de uma força-tarefa (formada por procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da PF) e do juiz federal Sérgio Moro. Dentro desta lógica de luta do grupo de Temer é que aconteceu a indicação do Moraes para ocupar a vaga no STF deixada pelo ministro Teori Zavascki, 69 anos, relator da Lava Jato, que morreu na queda de um bimotor em Paraty, no Rio de Janeiro. A indicação de Moraes ocupou enormes espaços nos noticiários, não poderia ser diferente. Além de ministro da Justiça, ele era quadro do PSDB e, se a sua indicação for aprovada pelo Senado, ele será ministro do STF e revisor dos processos relacionados à Operação Lava Jato no plenário da Corte. O grupo político de Temer sabe que a indicação não é garantia de que Moraes irá agir a favor deles. Por exemplo: Joaquim Barbosa, indicado pelo então presidente, Lula (PT), durante o julgamento do Escândalo do Mensalão – procure no Google – mandou, sem cerimônia, para a cadeia várias pessoas ligadas ao então governo. Há outras dezenas de exemplos. Mesmo se Moraes resolvesse contrariar, o que tem sido uma regra entre os indicados para o STF, a lentidão no andamento dos processos na Corte acabaria beneficiado os envolvidos os envolvidos na Lava Jato.
A grande contribuição que a indicação de Moraes trouxe no presente para o grupo político do Temer foi a de a mídia acreditar e espalhar que estava dando um tiro no pé. Não é por aí. Logo a seguir, espalhou-se que o substituto de Moraes, no Ministério da Justiça, poderia causar danos à Operação Lava Jato. Sempre é possível. Mas, se for descoberto, ele não dura 24 horas no cargo. Começo, profundamente, o modo de operar de cinco, dos 10 que fazem parte do núcleo do grupo político do Temer. São homens com larga experiência de agir nas sombras. Eles já fizeram uma queima de arquivo, livraram-se do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB – RJ), figura fundamental da queda de Dilma. Cunha perdeu o mandato e hoje cumpre prisão preventiva em Curitiba (PR). A próxima queima de arquivo será a do ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB – AL), homem astuto e bem articulado que jogou nos dois lados na queda da Dilma. Portanto, ele é aliado de quem vence. O que significa que amanhã pode se tornar um inimigo poderoso, ouvi de uma pessoa bem próxima a um dos 10 políticos do grupo do Temer.
Esse é o cenário da luta. Um desafio para o repórter acompanhar, porque está sendo travada entre quadro paredes.