Até onde Trump pretende ir com a guerra no Irã?

Imprensa precisa contar melhor a história da saída de Joe Kent do governo Trump Foto: EBC

Qual é o futuro da guerra entre a aliança dos Estados Unidos e Israel contra o Irã? Se jogarmos uma moeda para cima para decidir no cara ou coroa, é provável que ela caia em pé, tal é o cenário de incertezas. Ouvi e gostei dessa explicação de um amigo, especialista em Oriente Médio. Enquanto o presidente americano, Donald Trump (republicano), 79 anos, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, 76 anos, apostam no poder de fogo das suas forças armadas, a autoridade máxima do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, 56 anos, investe na asfixia do sistema de produção e transporte de petróleo para os grandes centros consumidores. Fechou o Estreito de Ormuz, um pedaço de mar que une os golfos Pérsico e de Omã, por onde passa diariamente 20% do petróleo consumido no mundo. Na última semana de fevereiro, o barril do petróleo brent (negociado na bolsa de Londres) custava cerca de US$ 70. Na manhã de sexta-feira (20), após três semanas de hostilidades, o preço oscilava na faixa dos US$ 110, depois de bater em US$ 119, na véspera. Nos Estados Unidos, o galão de gasolina (3,74 litros) disparou mais de 30% e na quinta-feira custava, em média, US$ 3,89, um aumento de 90 centavos desde o início do conflito. Em alguns estados, o galão já superava os US$ 5, o preço mais alto desde 2022.

Nos últimos dias, houve uma mudança nos alvos bombardeados por americanos e israelenses. Migraram dos ataques a prédios e à estrutura militar para a infraestrutura petrolífera. Mísseis foram lançados no campo de gás iraniano South Pars, o maior do mundo. A resposta do Irã foi imediata. Atacou instalações petrolíferas de vários países da região aliados aos americanos, entre eles a Arábia Saudita e o Catar. Trump publicou na sua rede social, a Truth Social, na quarta-feira (18), que o ataque ao South Pars foi realizado exclusivamente por Israel e que os Estados Unidos e o Catar não só não estavam envolvidos como sequer sabiam que iam acontecer. Também afirmou que os israelenses não voltariam a atacar o campo de gás. E advertiu o Irã que o ataque contra o Catar foi injusto e que, caso ocorresse novamente, “os Estados Unidos, com ou sem ajuda ou consentimento de Israel, explodirão South Pars com um nível de força e poder que o Irã nunca viu ou presenciou”. Aqui é o seguinte. Se a guerra acabar e a infraestrutura dos poços de petróleo estiver intacta, o abastecimento mundial recomeçará imediatamente e os preços cairão. Mas caso ela seja destruída, sabe lá Deus quando o fornecimento voltará à normalidade. O que isso significaria? Inflação alta, entre outros males, para os consumidores em todo o mundo, inclusive os americanos. Comecei a nossa conversa fazendo toda essa contextualização por julgá-la muito importante para o que vem agora. No meio de toda essa confusão, um fato surpreendente aconteceu na terça-feira (17). A demissão de Joseph Kent, 45 anos, que ocupava o cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo do governo Trump. Saiu atirando: “Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”. Disse que no início do mandato de Trump altos funcionários do governo israelense e a mídia americana lançaram uma campanha para desmoralizar a principal bandeira do presidente, o “América em primeiro lugar”, e preparar o campo para a invasão do Irã. A carta de demissão de Kent está disponível na internet. Ele esteve 11 vezes em combate, quando integrava as forças especiais do exército americano, e trabalhou na Agência Central de Inteligência, a CIA. Também é político.

O que o currículo de Kent significa? É um cara articulado e não está falando só por ele. Mas por um grupo de pessoas. É do conhecimento geral dos jornalistas que Trump não é páreo na articulação política para o primeiro-ministro de Israel, um dos líderes mundiais mais astutos da atualidade. O apoio dos Estados Unidos é fundamental para a sobrevivência de Israel. Segundo análises feitas por especialistas sobre Netanyahu, ele precisa de duas coisas para manter o seu governo: o apoio da extrema direita de Israel e uma guerra. Creio que o caso de Kent seja um caminho que se deva percorrer para sabermos exatamente o que acontece entre as quatro paredes da Casa Branca. Vou citar um exemplo. Tanto os serviços de inteligência americanos quanto os israelenses sabem que, ao contrário da Venezuela, onde bastou substituir o presidente Nicolás Maduro, 63 anos, para que o novo governo se aliasse aos Estados Unidos, no Irã a conversa é outra. A estrutura governamental foi montada para seguir funcionando mesmo quando o “cabeça” é abatido. No primeiro dia de guerra, americanos e israelense mataram a autoridade máxima do país, o aiatolá Ali Khamenei (1939 – 2026). Assumiu o lugar o filho de Khamenei, Mojtaba. Mas não por ser filho. Ele disputou a indicação com outros candidatos. Na terça-feira (17), os israelenses mataram Ali Larijani (1958 – 2026), chefe do Conselho de Segurança Nacional, ou seja, o responsável por manter funcionando a “máquina de guerra” do Irã. Foi substituído e a guerra segue. Um colega repórter me lembrou o seguinte: “Todos as semanas os militares israelenses anunciam a morte de um dirigente iraniano. E na prática não muda nada”. Respondi que ele tinha razão. A inflação provocada pelo aumento dos combustíveis tem o poder de mobilizar os consumidores americanos contra Trump. Lembro o caso do “tarifaço do Trump”. No dia 20 de janeiro de 2025, ele assumiu o seu segundo mandato e poucas semanas depois decretou o “Tarifaço do Trump”, como ficou conhecida a taxação de produtos exportados para o mercado consumidor americano.

O Brasil perfilou-se entre os países que foram penalizados com a maior taxa, em torno de 50%, mesmo sendo um dos raros com quem os americanos têm superávit comercial. Tratei do assunto várias vezes no blog, uma delas em julho de 2025 no post A imprensa e as histórias dos dias seguintes aos tarifaços de Trump ao Brasil. O tarifaço desorganizou o comércio internacional e semeou prejuízos e grandes dores de cabeça ao redor do mundo. É uma questão que foi congelada, mas ainda não está totalmente resolvida. Enquanto isso, o conflito no Oriente Médio segue o roteiro de confusões espalhadas por Trump. Até onde ele está disposto a ir com essa guerra?

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