Qual o tipo de segurança pública que será debatido nas eleições de 2026?

A violência urbana é um dos grande problemas dos brasileiros Foto: EBC

Nos últimos 40 anos, a pauta sobre segurança pública tem estado presente nas campanhas eleitorais. Vai estar novamente em 2026, nas eleições presidenciais e para governador. Mas se faz necessário a imprensa ficar atenta, porque nos últimos anos aconteceram importantes mudanças na estrutura das organizações criminosas e no modo de praticar os crimes. O que há pouco tempo eram apenas projeções dos rumos que as coisas iam tomar, hoje é realidade. Vejamos. Na primeira década de 2000 havia a previsão de que as duas maiores organizações criminosas do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, tornariam o território e os portos brasileiros um corredor de exportação da cocaína dos cartéis de produtores da Colômbia, do Peru e da Bolívia para os mercados consumidores dos Estados Unidos e da Europa. Nos dias atuais, a chamada “mexicanização” da violência no Brasil já é uma realidade. Os cartéis de varejo de cocaína transformaram o México em um dos países mais violentos do mundo.

Outra previsão que se tornou realidade: a verticalização do PCC e do CV, ou seja, o controle de todas as fases do comércio de drogas e do contrabando de armas, principalmente fuzis, e munições dos Estados Unidos para abastecer os criminosos no Brasil. Aqui um comentário. Existe, no país, um grupo que se especializou em alugar armas pesadas para as quadrilhas realizarem assaltos ao estilo novo cangaço (dominam uma pequena cidade e roubam os bancos) e atacarem carros-fortes nas estradas. Acrescento que um acordo de paz entre as duas organizações permitiu a divisão do território nacional em áreas de influência do PCC e do CV, que se associaram a quadrilhas regionais. Mais ainda. Diversificaram as suas fontes de renda. Entraram nos garimpos clandestinos nas terras indígenas da Floresta Amazônica em busca de ouro e bauxita. E nas capitais, especialmente no Rio de Janeiro, adotaram as práticas das milícias, quadrilhas formadas por policiais militares que exploram a venda ilegal para a população de serviços como transporte urbano e fornecimento de gás, internet e eletricidade. As populações das favelas cariocas e paulistas viraram reféns das milícias e dos traficantes. Aqui vou lembrar o seguinte. Na década de 80, as campanhas dos candidatos a cargos executivos tinham como pauta a modernização das forças de segurança com veículos, equipamentos de rádio e armamentos. Nos anos seguintes, incorporou-se às promessas eleitorais o reforço dos salários dos policiais. Como serão os debates sobre a violência entre os candidatos nas eleições de 2026?

Todo mundo sabe o que está acontecendo na segurança pública no país. Não é preciso consultar um especialista no assunto. Basta assistir aos noticiários diários. As organizações criminosas cresceram, se profissionalizaram e estão dando as cartas. Há uma tímida, mas importante, articulação entre as autoridades federais, estaduais e municipais, tentando montar um plano para combater a violência urbana. Esse tipo de articulação é necessário. Mas não prospera em época de eleição porque existe a disputa política. Por outro lado, o que prospera nestes períodos são as oportunidades para a imprensa pautar o debate com assuntos ligados à segurança pública. Dentro dessa ideia, lembro que o jornalista brasileiro sabe que o PCC e o CV conseguem fortalecer os seus quadros de pessoal entre a população carcerária. Eu conheço muito bem a questão das penitenciárias. Em sua maioria, são depósitos de presos. Ou, como diz a velha guarda: “escolas de crimes”. Tenho 75 anos de idade, 40 de experiência como repórter, e não lembro de ter visto um candidato defender a construção de novos presídios e muito menos melhorias para o cotidiano dos presos. A imprensa tem que começar a pressionar e colocar a situação dos presídios na pauta dos candidatos. Por quê? Vários estudos e relatórios oficiais mostram que a modernização das penitenciárias e a organização dos serviços prestados à massa carcerária contribuiriam para diminuir a influência do PCC, do CV e dos demais grupos criminosos. Lembram que eu falei que nos dias atuais as quadrilhas se capitalizaram imensamente diversificando as suas atividades? Em consequência dessa nova realidade, elas precisaram montar esquemas para lavar grandes somas de dinheiro. Vou lembrar um fato aqui. No final do ano passado houve a execução pública do corretor de imóveis Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, 38 anos, que lavava dinheiro para o PCC. Ele foi condenado à morte pela cúpula da organização por ter desaparecido com R$ 30 milhões. Tentou escapar da sentença fazendo uma deleção premiada para as autoridades. Não conseguiu. Em novembro de 2024, foi executado no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Contei a história no post Delator do PCC foi executado no estilo dos acertos de contas dos cartéis mexicanos.

Os “lavadores de dinheiro” se tornaram figuras importantes nas organizações criminosas. Eles trabalham infiltrados na vida econômica do país. Descobri-los e prendê-los exige um policial altamente treinado. Portanto, é necessário investir em formação. O que chamo de formação? Rever os currículos das academias de polícia. Na década de 80, houve uma grande pressão da imprensa para mexer nos currículos das academias policiais, que tinham sido contaminadas pela ideologia da ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985. A Polícia Federal (PF) e as policiais civis e militares eram usadas para espionar a população, e não para combater os criminosos. Foi necessária uma década para mudar os currículos de formação dos policiais. Na época fiz muitas reportagens sobre o assunto. O motivo pelo qual é preciso mexer nas academias de polícia hoje é outro. As novas tecnologias e a sofisticação das operações ilegais pelas organizações criminosas exigem que a imprensa pressione pela atualização da formação dos policiais. Lembro que há coisa de menos de uma década o “cara” entre os criminosos era o assaltante de carro-forte e banco. Atualmente, foi substituído por um jovem que consegue furtar milhões apenas apertando as teclas de um computador.

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