
Dando um passo de cada vez, como manda a cautela em assuntos espinhentos. O plano de paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, para acabar com a guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza deu o seu segundo passo na madrugada desta segunda-feira (horário de Brasília). O Hamas libertou os 20 últimos reféns que mantinha em seu poder desde outubro de 2023, quando o grupo terrorista invadiu o sul de Israel e capturou mais de duas centenas de pessoas, além de matar mais de 1,2 mil. Nos próximos dias, o Hamas deverá devolver os corpos de 28 reféns que morreram no cativeiro. Pelo seu lado, Israel iniciou a libertação de 2 mil palestinos de suas prisões. O plano de Trump tem 20 pontos. O primeiro foi o cessar-fogo, o segundo, a libertação dos reféns, o próximo poderá ser a entrega das armas pelo Hamas. Todos os bastidores do plano estão sendo revelados pela imprensa mundial. Resumindo em poucas palavras a análise das informações divulgadas. Os americanos não estão abandonando os israelenses à própria sorte. Mas sinalizando que o seu grande interesse na região são os países do Golfo Pérsico.
Antes de seguir a nossa conversa vamos contextualizar os fatos, em obediência ao manual do bom jornalismo. Em 7 de outubro de 2023, um contingente de mais de 6 mil militantes do Hamas e seus aliados invadiram a fronteira sul de Israel por ar, mar e terra. Mataram 1.250 pessoas (homens, mulheres, crianças, civis e militares) e fizeram 251 reféns. Na Faixa de Gaza vivem 2,2 milhões de pessoas. O território faz parte da Palestina. Vou focar a nossa conversa. O avanço do tratado de paz de Trump cria uma oportunidade para nós jornalistas remexermos nas perguntas que ainda estão sem resposta. Uma das questões que precisamos esclarecer é como Israel foi surpreendido pelo ataque do Hamas. A invasão do território israelense foi uma operação de grande envergadura. Este tipo de operação não é planejado e muito menos executado sem chamar a atenção dos serviços de inteligência. Lembro que a inteligência de Israel acompanha online todos os acontecimentos na Faixa de Gaza. Como não detectaram os movimentos do Hamas a tempo de reagir? Li alguns artigos que argumentam que a inteligência americana também não detectou os preparativos dos ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York, por terroristas da Al-Qaeda, de Osama Bin Laden (1957 – 2011), quando morreram 3.278 pessoas. Não é possível fazer tal comparação. O ataque de 11 de setembro envolveu 19 terroristas, que sequestram quatro aviões comerciais. Diariamente, o tráfego aéreo nos Estados Unidos movimenta 12.857 aeronaves. Mais ainda: o 11 de setembro foi planejado a milhares de quilômetros de distância do território americano. Durante meses trabalhei fazendo reportagens sobre o atentado em Nova York. Na época, conversei com muita gente, incluindo quadros dos serviços de inteligência americanos e pessoas ligadas à Al-Qaeda. Lembro que logo que aconteceu o 7 de outubro, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, 75 anos, disse ao então presidente americano, Joe Biden (democrata), 82 anos, que o ataque do Hamas se assemelhava ao 11 de setembro. Biden advertiu Netanyahu para ter cuidado na reação para não repetir os erros cometidos pelos americanos. O principal foi a desastrada invasão do Iraque, em 2003, que era governado pelo ditador Saddam Hussein (1937 – 2006). Saddam era acusado de armazenar armas de destruição em massa. As armas não existiam – há documentários e muitos livros disponíveis sobre o assunto. Um dos resultados da invasão ao Iraque foi a proliferação, na região, de vários movimentos radicais, entre eles o Estado Islâmico, muito mais poderoso e articulado que a Al-Qaeda.
Netanyahu ignorou o conselho de Biden. Na ocasião do ataque do Hamas, o primeiro-ministro estava prestes a ser afastado do cargo devido a problemas com a lei. Aproveitou a confusão para consolidar uma aliança com a extrema direita israelense e foi para a guerra. Aqui temos mais um ponto a esclarecer para o leitor. Ao contrário do que todo mundo pensava, o resgate dos reféns não foi colocado como prioridade pelo Exército de Israel. O foco das ações militares foi na destruição do Hamas e seus aliados. Houve uma oportunidade para negociar o resgate dos reféns, em janeiro, durante uma trégua entre Israel e Hamas. Foram libertados 38 reféns em troca de 90 palestinos que estavam na prisão em Israel. A guerra recomeçou dois meses depois da trégua com uma ferocidade incrível. O Exército israelense ampliou o uso da fome como arma de guerra. O resultado foi devastador, como mostram os vídeos das reportagens produzidas pelos jornalistas que trabalhavam na cobertura da guerra: mulheres, crianças e velhos reduzidos a pele e osso. Aqui é o seguinte. As autoridades israelenses proibiram a presença de jornalistas na Faixa de Gaza. Então, todo o material jornalístico foi produzido pelos repórteres locais, que trabalharam identificados, como manda o manual para este tipo de cobertura. Pelo menos 520 jornalistas foram mortos durante o conflito pelas forças de Israel. Como falei: o forte do trabalho dos repórteres foi levar para fora do campo de batalha as imagens de crianças, mulheres e velhos esqueléticos devido a fome. Estes vídeos começaram um processo de corrosão na imagem do Exército de Israel. E também ilustraram os cartazes nas manifestações populares contra a guerra ao redor do mundo. Claro, repórteres morrem em cobertura de conflitos. Lembro que 2013 eu fazia a cobertura de uma onda de protestos populares no Brasil e um tijolo atirado por um manifestante passou a centímetros da minha cabeça. Imaginem em uma guerra, onde bombas e tiros cruzam os ares a todo o instante. Esclarecer as mortes dos colegas em Gaza merece um olhar atento. Além disso, existe a estimativa de que 65 mil civis palestinos e 856 militares israelenses morreram. Nos primeiros anos na faculdade de jornalismo ouvimos que, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Não tem como negar a afirmação. Mas nos dias atuais a tecnologia nos deu a chance real de chegar perto da verdade.
Para arrematar a nossa conversa. É fundamental o trabalho da imprensa em lançar luzes nos cantos escuros do governo de Netanyahu. É opinião unânime entre os jornalistas que, para se manter no poder, o primeiro-ministro precisa de uma guerra. Todo mundo sabe disso, inclusive Trump. Não foi por outro motivo que o presidente americano se apressou em declarar que a “guerra acabou”. Enquanto Netanyahu insiste que ela ainda não terminou.