
Na madrugada do último sábado aconteceu o que todos esperavam. Estados Unidos e Israel atacaram o Irã e mataram o dirigente máximo do país, o aiatolá Ali Khamenei, 86 anos. Havia pelo menos três semanas que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, vinha negociando com os iranianos o fim do programa nuclear do país. As negociações estavam sendo feitas ao estilo Trump: mandou uma frota de navios, com dois porta-aviões, ancorar na região e seguidamente ameaçava os líderes iranianos de usar a força caso as conversas sobre um tratado não avançassem. Dias antes do ataque, americanos e iranianos envolvidos se mostravam satisfeitos com os avanços nas negociações. Por que então Trump resolveu “virar a mesa” e se unir aos israelenses no ataque aéreo ao território iraniano? A resposta é simples: foi convencido que era o certo a fazer pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, 76 anos. Vamos conversar sobre o assunto.
Mas antes vamos contextualizar a nossa conversa como manda o manual do bom jornalismo. O programa nuclear do Irã foi implantado na década 1950 pelo governo americano, então empenhado em uma iniciativa chamada “Átomos para a Paz”, que visava estimular o uso da tecnologia nuclear para fins pacíficos, como na geração de energia e na medicina. Na época, o Irã era governado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi (1919 – 1980), que mantinha relações amigáveis com o Ocidente. Em 1979, o xã foi deposto pela Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini (1902 – 1989). Foi o rompimento das relações diplomáticas do Irã com americanos e israelenses. Os dirigentes iranianos são acusados de estarem usando o programa nuclear para beneficiar urânio para a fabricação da bomba atômica. Qual é a diferença entre a operação realizada no início no ano pelos Estados Unidos na Venezuela e a de agora no Irã? O roteiro foi o mesmo. Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro, 63 anos, foi acusado de estar envolvido com o narcotráfico. Navios de guerra americanos foram enviados para a costa da Venezuela, entre eles o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, movido a energia nuclear, com 75 aviões de combate, além de uma tropa de 15 mil soldados, marinheiros e pilotos. Na madrugada de 3 de janeiro, comandos entraram furtivamente no território venezuelano e prenderam Maduro e a sua esposa, Cilia Flores, 69 anos, e os levaram para Nova York, onde serão julgados por tráfico de drogas. A estrutura do cerco ao Irã é semelhante. Vamos às diferenças. Maduro governava uma ditadura e ocupava o cargo desde 2013. Trump apenas o substituiu pela vice-presidente, Delcy Rodriguez, 56 anos, e não mexeu na estrutura de poder do país. Ela ocupa o cargo de maneira provisória. Contei toda a história no post de 6 de janeiro Prisão de Maduro abre espaço para a luta pelo poder na Venezuela? O maior interesse dos americanos no território venezuelano são as jazidas petrolíferas. No Irã, os objetivos são outros. Primeiro, é substituir o regime político, que é uma república islâmica teocrática, onde quem dá as cartas são os religiosos – há matérias sobre o assunto disponíveis na internet. Mexer nesta estrutura é como consertar o pneu de um carro em movimento.
Em caso da vitória de Trump e Netanyahu no Irã, o que irão fazer para trocar o regime do país? Eles apostam que os líderes dos manifestantes que realizaram grandes protestos contra o governo dos aiatolás em janeiro passado possam se transformar nos futuros dirigentes? Mas quem são estas pessoas? Ninguém sabe, nem mesmo Trump e Netanyahu. Quero lembrar aqui um fato. O caso do Iraque, do ditador Saddam Hussein (1937 – 2006). Ele dirigiu o país de 1979 a 2003. O que aconteceu foi o seguinte. Em 11 de setembro de 2001, terroristas suicidas da Al-Qaeda, dirigida pelo saudita Osama bin Laden (1957 – 2011), sequestraram aviões comerciais e os jogaram contra o prédio do Pentágono, em Washington (DC), e contra as Torres Gêmeas, em Nova York. Na ocasião, espalhou-se o boato de que Saddam tinha armazenado armas de destruição em massa. E que protegia terroristas ligados à Al-Qaeda. Os americanos e seus aliados invadiram o Iraque em busca das armas de destruição em massa e de militantes da organização de Bin Laden. Não encontraram as tais armas. Mas destituíram Saddam, que fugiu e mais tarde foi capturado quando estava escondido dentro de um bunker cavado no solo. Em 2006, o Tribunal Supremo do Iraque condenou o antigo ditador à forca. Todas essas ações acabaram desestruturando o Iraque, que se transformou no berço de movimentos terroristas, como o Estado Islâmico, que deixou atrás de si um rastro de torturas e mortes. Conversei com um amigo e colega de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, que é especialista em movimentos terroristas. Ele disse que os grupos descritos como terroristas por Trump estão passando por um “momento de baixa” devido a vários fatores, entre eles a ausência de um inimigo comum. Perguntei se Trump poderia assumir a figura do inimigo comum. Ele respondeu que não tem como prever, acrescentando: “Essas coisas ninguém controla, elas acontecem. O presidente americano é cheio de narrativas sem pé nem cabeça”.
Para arrematar a nossa conversa. Trump tomou uma série de iniciativas com o objetivo de desestabilizar regimes que acredita serem seus inimigos. No caso do Irã, a aposta é que a população que vinha participando de movimentos contra o governo vai aproveitar a oportunidade e derrubar os aiatolás. As coisas não funcionam assim. O seu parceiro de guerra, o primeiro-ministro de Israel, sabe que as coisas não funcionam como Trump acredita. Mas não diz nada porque a atual situação lhe serve. Como vai terminar esta história, ninguém sabe. Nem Trump.