Para as gerações que estão vindo aí, eu sugiro aos repórteres um profundo mergulho nos resultados das eleições para vereadores e prefeito de Santa Maria em busca de ligações com a tragédia da Boate Kiss – um incêndio que matou 242 pessoas e feriu outras 680, a maioria universitários, na madrugada de 27 de janeiro de 2013. O caso é descrito pela enciclopédia Wikipédia: ” a segunda maior tragédia no Brasil em número de vítimas em um incêndio, sendo superado apenas pela tragédia do Gran Circus Norte-Americano, ocorrida em 1961, em Niterói, que vitimou 503 pessoas. E foi semelhante ao incêndio ocorrido na Argentina, em 2004, na discoteca República Cromañón. Classificou-se também como a quinta maior tragédia da história do Brasil, a maior do Rio Grande do Sul, a de maior número de mortos nos últimos cinquenta anos no Brasil e o terceiro maior desastre em casas noturnas no mundo.”
É uma tragédia grande demais para ter passada despercebida pelos eleitores, principalmente os parentes das vítimas que estão organizados e lutando para que se faça Justiça no caso – os quatro suspeitos pelo incêndio estão aguardando o julgamento em liberdade, o que é considerado uma afronta aos gaúchos. No mês passado, o prefeito da época trocou o cargo pelo de secretário da Segurança Pública do Rio Grande do Sul. Aos jovens repórteres, eu faço um relato particular. É importante documentar a influência de acontecimentos relevantes locais com o andamento da política. O resultado da apuração é para o pesquisador da história uma informação muito valiosa. E para as autoridades um lembrete: o caso faz parte da agenda dos reporteiros.

Está mal contada a história que estamos publicando sobre as mudanças que o governo federal pretende fazer na Previdência Social, entre elas a de aumentar a idade mínima de aposentadoria para homens (hoje 55 anos) e mulheres (atualmente 48 anos), para 65 anos. Está faltando na conversa o que mais assusta o trabalhador: a cultura das empresas privadas de demitir o funcionário considerado velho antes que ele consiga o direito à aposentadoria. Ele é desligado já quando se aproxima dos 50 anos, numa decisão que não tem nada a ver com força física ou intelectual. Ou com dar uma cara mais jovem à empresa. Tem a ver é com baixar o custo da folha de pagamento. Aqui lembro duas coisas: o trabalhador veterano não é caro por ser velho. É caro por ter se puxado e feito uma carreira profissional. E acaba substituído por um jovem que também é prejudicado: ganhará menos e receberá tarefas em dobro. Na maioria dos casos, esse jovem também se puxou e tem um currículo acadêmico respeitável, o que lhe dá condições de desenvolver um bom trabalho.
No setor público, não é muito diferente. Os velhos só não são demitidos devido à estabilidade prevista em lei. Mas são relegados a um canto da sala. Nas universidades federais, os professores sabem que suas chances de conseguir bolsa para pesquisa diminuem com o avanço da idade. Pergunto o seguinte:
_ Olhe o seu ambiente de trabalho e conte quantas cabeças brancas existem. Poucas, né? Estariam escondidas no banheiro? Ou gastando sola de sapato à procura de emprego? Aposto na segunda opção.
Um trabalhador não é competente por ser velho ou jovem. Mas porque ele se empenhou e investiu na sua formação. Isso é um fato, independente da questão cultural de cortar a folha de pagamento via a demissão dos mais antigos. Como a história acaba, todos sabemos: os que conseguiram se reinventar dão uma banana para as empresas e o setor público. Mas a grande maioria acaba no subemprego e tendo a amargura por companhia.
Chegamos ao xis da questão. Por estar pesquisando os rumos da profissão de repórter, leio, assisto e escuto a vários noticiários. O material que divulgamos sobre a anunciada mexida na Previdência é enorme. Mas, em termos gerais, deixamos de lado a questão cultural sobre a idade do trabalhador. Ela é importante e o seu esquecimento na pauta de notícias é um dos fatores que afastam os nossos leitores, o que aprofunda a crise nas empresas jornalísticas.

Encravada no meio do Rio Grande do Sul, a cidade universitária de Santa Maria hospeda um caso que não deve ser esquecido pela minha geração de repórteres e pelos jovens que hoje povoam as Redações. É uma reportagem inacabada. Assim defino a cobertura jornalística do incêndio que matou 242 pessoas e feriu outras 680 – a maioria de universitários -, na Boate Kiss, na madrugada de 27 de janeiro de 2013. A dimensão do fato está na Wikipédia: “É a segunda maior tragédia no Brasil em número de vítimas em um incêndio, sendo superada apenas pelo desastre no Gran Circus Norte-Americano, ocorrido em 1961, em Niterói, que abateu 503 pessoas. Foi semelhante ao sinistro que enlutou Buenos Aires, em 2004, na discoteca República Cromañón. Classifica-se também como a quinta maior tragédia na história do Brasil, a maior no Rio Grande do Sul e a terceiro maior em casas noturnas do mundo.”

É muita coisa para se deixar que o tempo desgaste a memória das pessoas. Perante a robustez do número de vítimas e de feridos, o fato de os quatro principais suspeitos pelo incêndio estarem aguardando o julgamento em liberdade é considerado uma afronta, e não só por familiares dos mortos. Recebo ligações de pessoas perguntando como é o cotidiano dos suspeitos. O que estão fazendo? Como vivem? Vivi quatro décadas dentro de uma Redação – saí em 2014 -, sei que é difícil manter um assunto por tanto tempo no noticiário, mesmo com esse impacto todo. Mas não é impossível. O assunto tem leitores, é uma fronteira a ser explorada pelas novas gerações de repórteres. Pistas podem ser encontradas nas redes sociais, onde sobram interrogações, questionamentos e protestos.

Até a denúncia apontando o ex-presidente Lula como o grande chefe de todos os desvios de verbas, a força-tarefa fazia uma investigação segura, sem deixar portas abertas para os suspeitos. Como se fala no jargão das redações: estava comendo a polenta quente pelas beiradas. Divulgava um elo da corrente por vez. Na acusação de agora, os investigadores preencheram pontos da apuração com generalizações. Frente a esse procedimento, o jovem repórter deve ficar com um pé atrás. Temos exemplos na história, como o episódio da Escola de Base, de São Paulo: em março de 1994, a imprensa publicou que seis pessoas estariam envolvidas em abuso sexual contra alunos. Proprietários e funcionários da escola foram hostilizados, perderam seus bens e, no final, constatou-se que tudo não passara de um grande equívoco de parte da investigação policial. Outro caso traumático: em 1994, o então forte candidato à Presidência da República, ex-deputado federal Ibsen Pinheiro, foi cassado devido a uma reportagem que transformara US$ 1 mil em US$ 1 milhão. O erro jornalístico só veio à tona em 2004. Os dois exemplos resultaram em processos judiciais, ganhos pelos prejudicados. Um jornalista sentenciado não paga a indenização, a qual recai sobre a empresa onde trabalha. No entanto, como ficam sua reputação e seu nome profissional? O reporteiro calejado sabe que a investigação é uma caminhada longa, cheia de detalhes e de muitas armadilhas. Vejamos a situação do ex-presidente Lula: mesmo que o juiz aceite a denúncia, que ele se transforme em réu e seja punido em todas as instâncias da Justiça, não há como prever se a condenação virá para todos os crimes listados na denúncia. Convém lembrar: denúncias do Ministério Público e relatórios de inquéritos da Polícia são peças que se montam tendo como ponto de partida indícios do que teria de fato acontecido. E o indício geralmente vem do depoimento de uma testemunha, o qual é descrito, por certos advogados, como a prostituta das provas – uma referência politicamente incorreta à mais antiga profissão. É do nosso ofício sermos arrojados e exatos no que publicamos. A desconfiança é nossa maior arma. Devemos evitar as cascas de banana sorrateiramente espalhadas ao longo de uma reportagem. Elas podem abreviar carreiras.

desenho de jornaleiro antigo vendendo notíciasAproveitar uma grande oportunidade que surge é definido pelos acadêmicos como não deixar passar o trem da história. Já os repórteres costumam dizer que o cavalo encilhado não passa duas vezes. As duas frases servem para descrever um quadro que começa a ganhar contornos no cotidiano dos jornais do  interior do Brasil. Os leitores estão exigindo maior engajamento com os conteúdos da região.
A chance surgiu como o recuo na cobertura do interior pelos grandes jornais, que se engalfinharam em uma luta de vida e morte pelos anunciantes e assinantes com as novas mídias – sites, blogs e outras forma de comunicação. A competição resultou na diminuição do preço da publicidade e do número de assinantes. Para sobreviver, eles diminuíram a sua estrutura: demitiram centenas de jornalistas, fecharam sucursais.
Não foram só jornalões que saíram do interior. Pelos mesmos motivos, as emissoras de rádio e TV também reduziram fortemente a sua presença nas pequenas e médias cidades. E a grande imprensa passou a concentrar sua cobertura nas regiões metropolitanas e nos grandes centros de decisões políticas e econômicas do país.
Essa realidade fez com que as comunidades das pequenas e médias cidades do país se voltassem para os seus meios de comunicação locais. Hoje, a palavra de ordem nos jornais do interior é a qualificação de conteúdos, um processo que não simples. Mas que, pela primeira vez, faz parte da pauta daquelas redações.

Os donos do mundo
Os donos do mundo

Enormes e poderosos animais, os dinossauros dominaram a Terra por dezenas de milhões de anos. Mas foram extintos porque não conseguiram se adaptar às mudanças no meio ambiente causadas pela queda de um asteroide. O repórter não é poderoso e forte como foram os dinossauros. Mas sobreviveu ao avanço da tecnologia nos meios de comunicações, que não foram poucas. Assim como sobreviveu às mudanças na economia e na política, que alteram a todo instante o mapa geopolítico do planeta através de guerras e outros conflitos. Mudanças estas que fizeram desaparecer profissões centenárias e surgir outras jamais imaginadas.
Simplificando o assunto, eu costumo dizer nas minhas palestras para jovens repórteres e estudantes de jornalismo que nós sobrevivemos porque alguém precisa ficar vivo para contar a história. Mas as coisas que garantem a nossa sobrevivência através dos tempos não caem do céu de graça. Muito pelo contrário. No sábado, conversei sobre o assunto com o pessoal do jornal Bom Dia, de Erechim. O processo de se manter vivo na profissão requer o constante entendimento do significado das mudanças que acontecem ao nosso redor. O que, para o repórter, significa: se puxar, ler tudo (até bula de remédio), conversar com leitores, se atualizar nos novos equipamentos e tecnologias disponíveis, ampliar e qualificar constantemente a sua rede de fontes. E o essencial: manter a paixão pela profissão. Ela é exigente, ciumenta, pede dedicação 24 horas por dia. Certa vez ouvi de um repórter, durante uma bebedeira na beira da estrada, a seguinte frase:
– Já vi muita gente virar jornalista. Mas nunca vi um jornalista virar gente novamente.
Eu também não.

Tela de um videogame com supermário com a cara do Temer
Gamificar o jornalismo é a saída?

Pela primeira vez na minha vida, acompanhei uma história do outro lado do balcão — onde fica o nosso leitor. Tive o cuidado de ler os principais jornais, ver as TVs, ouvir as emissoras de rádios, assistir as  transmissões  ao “vivo”. E conversei muito com as pessoas — de todas as idade, mas principalmente com a turma dos 13 aos 17 anos – sobre as notícias  publicadas. Pelo meu modo de ver as coisas, é essa turma dos 13 aos 17 anos que vai conviver com as consequências do que aconteceu em Brasília. Por isso, investi nas conversas com eles. Perguntei a muitos deles qual a razão do desinteresse. A maioria respondeu com poucas palavras:

— Vocês (jornalistas) são uns chatos, não sabem explicar.

Confesso que também achei alguns colegas, principalmente comentaristas políticos,  muito chatos.  Uma das conclusões que tirei: talvez esses jovens se interessassem pelo desenrolar da história  do impeachment se o episódio fosse transformado em um jogo de videogame.  Fica a sugestão.

CWagner em frente ao computador/ foto: José Rocha
O primeiro site a gente não esquece

Na vida de repórter, eu sempre perdi o sono com as histórias que escrevia e que lá pelas tantas descobria que ela poderia ter rendido mais. Eu ficava muito puto da cara. Não foi uma, nem duas: mais dezenas de vezes que consegui melhorar bastante o que  tinha publicado. A minha intenção com o blog é levar a inquietação sobre o rendimento das histórias – escritas, faladas e filmadas – para os seus autores e leitores.