
Por conta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos, ter afirmado na quinta-feira (12/06) que “só pode ser coisa de Deus, vou ser o primeiro a ser eleito presidente quatro vezes”, lembrei-me das duas oportunidades em que estive com ele e o citei nas matérias. Vou contar a história. Por ser especializado em conflitos agrários, desde que me iniciei na profissão de repórter, em 1979, passei a maior parte do tempo viajando pelos sertões do Brasil e países vizinhos fazendo reportagens sobre a disputa de terras entre agricultores pobres, fazendeiros, grileiros, garimpeiros e madeireiros ilegais. As minhas passagens pelos tapetes do Palácio do Planalto, em Brasília (DF), foram escassas e tiveram a velocidade de um raio. No final da década de 80 e nos anos iniciais de 90 cruzei com Lula duas vezes, e nenhuma delas foi em Brasília. Ambas foram no Rio Grande do Sul. Uma delas durante uma homenagem aos acampados que resistiram na luta pela reforma agrária de 1979 a 1983 na Encruzilhada Natalino, uma tira de terra na beira da estrada que liga Passo Fundo a Ronda Alta, no norte do estado. Ali foi o berço do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na ocasião, troquei algumas palavras com Lula. Mas concentrei as minhas conversas com as pessoas do seu círculo pessoal, que eram minhas conhecidas e muito bem informadas sobre o contexto político do país. A outra vez que cruzei com Lula foi no bar de um hotel em Porto Alegre. Era um final de tarde, ele e um assessor estavam no balcão. Eu, sentado em uma mesa próxima, explicava para a cônsul dos Estados Unidos a luta dos agricultores pobres brasileiros pela reforma agrária. E o papel do PT e da igreja progressista nesta luta. Notei que Lula e seu assessor estavam atentos à conversa. Também vi o assessor ensaiar uma tentativa de entrar na minha conversa e ser impedido por Lula.
Escrevi esta história para ilustrar aos colegas e leitores como era a política na época que conversei com Lula. Ainda estavam acessas as brasas da disputa ideológica entre as forças da direita, do centro e da esquerda. As brasas tinham sido deixadas pelas fogueiras da intolerância política semeada pela ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985. Nas décadas seguintes, essa disputa ideológica saiu de moda. Foi substituída por outros assuntos, como a hiperinflação deixada de herança pelos militares. Mas não desapareceu. Ficou confinada a pequenos grupos, como o liderado pelo ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e saudosistas do golpe de 1964. Em 1977, Bolsonaro entrou na Academia Militar das Agulhas Negras e deu baixa como capitão do Exército, em 1988, para concorrer e ganhar uma vaga na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Nunca conversei com Bolsonaro. Mas sempre estive atento a sua carreira política por ele ser referência na extrema direita brasileira e ter fortes ligações com grandes proprietários de terra, garimpeiros e madeireiros clandestinos. Em 2018, ele concorreu à Presidência da República e ressuscitou o discurso da disputa ideológica, misturado com pautas de costumes e fake news. Esta mistura acabou produzindo um discurso que caiu no gosto popular e ajudou a elegê-lo. Concorreu à reeleição em 2022 e foi derrotado por Lula. Mas o seu prestígio político elegeu mais de 130 parlamentares e governadores que, nos dias atuais, fazem parte do movimento bolsonarista no Congresso. As digitais dos bolsonaristas foram encontradas no recente episódio da derrubada do decreto presidencial que reajustou alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Na última quarta-feira de junho (25/06), os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), 48 anos, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), 35 anos, deram uma rasteira em Lula e derrubaram o decreto do IOF. Com essa decisão, voltaram a valer as tarifas que vigoravam antes do reajuste. Lula e seus ministros ficaram indignados, porque havia um acordo entre o governo, Motta e Alcolumbre para manter o decreto presidencial. A maneira como a derrubada do decreto aconteceu foi descrita pelos governistas como sorrateira e que lembrava as práticas políticas dos anos 80. Aqui a história da derrubada do reajuste do IOF se divide em duas. Vou explicar. Uma delas resultou na decisão do governo de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para restaurar o decreto original. O ministro do STF Alexandre de Moraes, 56 anos, suspendeu tanto o decreto de Lula quanto a decisão do Congresso e marcou uma audiência de conciliação para esta terça-feira (15). A outra ponta da história é a oportunidade que o episódio criou para Lula dar a sua versão da derrubada do decreto do IOF pela Câmara e o Senado. Na avaliação do governo, os bolsonaristas e parlamentares do Centrão ligados ao ex-presidente Bolsonaro acreditam que as sucessivas quedas nas pesquisas de popularidade de Lula sinalizam que a sua reeleição está comprometida. E pressionaram com sucesso Motta e Alcolumbre para dar o “tiro de misericórdia” na reeleição derrubando de maneira humilhante o decreto do IOF.
A reação do Lula criou uma enorme polêmica na opinião pública que pode ser simplificada assim: Lula defende a justiça tributária, que significa aumentar os impostos dos ricos. Motta e Alcolumbre defendem os privilégios dos ricos, como pagar menos impostos que os trabalhadores. Ou seja, todo o rolo foi simplificado em uma frase curta, onde o governo saiu como defensor dos pobres e o Congresso, dos ricos. Esta explicação criou um novo contexto na disputa política entre o governo e a oposição. É dentro dela que devemos analisar as declarações feitas pelo presidente na quinta-feira (12/6), quando ele disse e a imprensa publicou: “Só pode ser coisa de Deus. Não tem outra coisa para explicar. E não é virar presidente. É virar presidente uma, duas e três vezes. E, se brincar, vai ter a quarta vez”. E concluiu: “Preparem-se, porque esse país não vai cair na mão da extrema direita”. Como se dizia nas redações dos tempos das máquinas de escrever, Lula foi para o corpo a corpo com os adversários.
Vou lembrar um fato que foi resgatado pela imprensa. Um dia antes do segundo turno das eleições presidenciais, em outubro de 2022, Lula disse que não disputaria a reeleição em 2026. Assim ele falou: “Eu, se eleito, serei um presidente de um mandato. Só os líderes se fazem trabalhando, no seu compromisso com a população”. Lembro que durante o seu mandato várias vezes o presidente desconversou quando falaram em reeleição. Certa vez, disse que só concorreria se tivesse chance de vencer. Em outra, argumentou que dependeria do seu estado de saúde. Perguntei a várias fontes sobre os motivos que levaram o presidente a assumir a reeleição. Ouvi o seguinte: “Lula não ficou enfurecido pela derrubada do decreto do IOF, faz parte do jogo. Mas ficou muito brabo com a maneira desaforada como tudo aconteceu”. Há uma prática na disputa eleitoral que nós jornalistas aprendemos: nada é definitivo até as urnas serem fechadas. Como se sabe, Bolsonaro foi declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Federal (TSE). Fez um acordo com os seus seguidores e irá indicar o seu substituto. O atraso desta indicação criou uma imensa confusão entre os adversários de Lula. E deixou um espaço valioso para o presidente corrigir os rumos da sua campanha à reeleição. Como foi o caso da derrubada do decreto do IOF pelo Congresso. Como toda a história vai terminar? Só deverá acabar quando estourar outro rolo que ocupará as manchetes. E sabe-se lá quantos irão acontecer até as urnas se fecharem em 2026.