Bolsonaro “puxou o tapete” dos aliados ao propor trocar a anistia pela soberania

Trump ignorou que os Estados Unidos são superavitários no comércio com o Brasil Foto: EBC

O ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, deu uma “puxada no tapete” nos seus seguidores no caso do tarifaço de 50% que será cobrado, a partir de 1º de agosto, sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, decretado no dia 9 de julho pelo presidente americano Donald Trump (republicano), 78 anos. A história deste episódio diz que a decretação do tarifaço foi influenciada pelo ex-presidente brasileiro e o seu filho Eduardo (PL-RJ), 41 anos, que se licenciou do cargo de deputado federal e mudou-se para os Estados Unidos. Eles conseguiram convencer Trump que a família Bolsonaro é vítima de perseguições políticas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos, e dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Em consequência, Trump não levou em consideração que o Brasil é um dos raros países no mundo com quem os americanos têm superávit na balança comercial, que chegou a 1,7 bilhão de dólares no primeiro semestre de 2025. Ele simplesmente exigiu que fossem retiradas as acusações contra Bolsonaro, passando por cima da soberania do Brasil. O ex-presidente foi considerado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e tornou-se réu na Primeira Turma do STF com outros 33 ex-ministros e ocupantes de cargos de confiança no seu governo. São acusados de formação de uma organização criminosa que tinha como objetivo dar um golpe de estado e impedir que Lula assumisse o governo em janeiro de 2023. Vamos conversar sobre o assunto

A estratégia adotada pelos parlamentares bolsonaristas foi discutir a questão econômica do tarifaço, deixando de lado a anistia reivindicada pelo ex-presidente para não ter que explicar a questão da soberania brasileira, que é complicada. Os parlamentares da situação citavam nas suas manifestações a questão da soberania. Mas centravam as suas conversas na questão econômica para não deixar sem resposta as acusações da oposição, que atiravam no colo de Lula a culpa pelo tarifaço. As discussões giravam em torno de três produtos exportados para os americanos: suco de laranja, café e aviões, que são produzidos no estado de São Paulo, governado pelo ficha número um na fila de espera pela indicação de Bolsonaro para concorrer a presidente da República em 2026, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos. No primeiro dia depois do anúncio do tarifaço, o governador defendeu o ex-presidente. No segundo dia lembrou que a sua obrigação era defender os empresários e os trabalhadores paulistas, que serão prejudicados com o tarifaço. Aqui é o seguinte. Tenho escrito nos meus posts que não considero Bolsonaro um gênio na articulação política. Mas uma pessoa muito esperta, que conhece os caminhos para sobreviver na lida. Ele percebeu que estava sendo deixado de lado na discussão e agiu. No domingo (13/07), publicou nas suas redes sociais: “Tarifaço tem mais relação com valores e liberdade do que com economia”. Lembrou que não se alegra com a tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras. Defendeu que a anistia pode trazer “paz para a economia”. E, por fim, alertou: “O tempo urge, as sanções entram em vigor no dia 1º de agosto. A solução está nas mãos das autoridades brasileiras. Em havendo harmonia e independência entre os poderes nasce o perdão entre irmãos e, com a anistia, também a paz para a economia”.

As declarações do ex-presidente derrubaram a estratégia dos seus aliados, que era culpar Lula e esquecer a história da anistia para não ter que explicar a questão da soberania nacional. Trocando em miúdos: Bolsonaro defende que o governo brasileiro abdique da soberania do país e obedeça a Trump, concedendo anistia aos que tentaram dar o golpe de estado. Se isso acontecer, o presidente americano derruba o tarifaço, acredita o ex-presidente. O espaço que esta proposta de Bolsonaro ganhou na imprensa deveu-se muito mais ao seu absurdo do que a qualquer outro motivo. Mas o fato dele ter assumido a derrubada da soberania em troca da anistia acabou criando uma espécie de efeito colateral para os seus seguidores parlamentares. Ou seja: foram envolvidos na história da perseguição vendida para Trump. O ex-presidente deu uma “puxada de tapete” nos seus seguidores que queriam ficar fora desta história. Dependente do rumo que a história irá tomar, certamente se refletirá na campanha eleitoral de 2026.

A acusação de pregar contra a soberania nacional é muito séria. Lembro que nos primeiros anos do mandato de Bolsonaro escrevi que a maneira como ele se comportava lembrava um dinossauro em uma loja de porcelanas, especialmente na questão da pandemia da Covid-19. Ele não era só um negacionista em relação ao poder de contágio e mortalidade do vírus, mas a transformou em política do seu governo. Trump não é uma pessoa que se deixa enganar. Se fosse, não teria sido eleito presidente dos Estados Unidos pela segunda vez. Pelo que li nos jornais e conversei com colegas repórteres americanos, ele sabe exatamente o que aconteceu no Brasil. É mais provável que tenha aproveitado a história da perseguição contada pelo ex-presidente e seu filho para um acerto de contas com Lula. E voltar a brilhar no cenário internacional com o tarifaço. Não tem como prever o fim desta história. Mas seja lá qual for, o ex-presidente brasileiro complicou muito a sua situação e a dos seus seguidores ao apostar todas as fichas na troca da soberania nacional pela queda do tarifaço de Trump. Fato é o seguinte. A defesa da soberania nacional conseguiu mobilizar a opinião pública brasileira contra as pretensões do presidente Trump de exigir a anistia para o ex-presidente e os seus seguidores.

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