Apoio de Trump aos golpistas de 8 de janeiro é o dedo na ferida aberta pelo golpe de 1964

Caso haja pressão interna contra o tarifaço, o governo americano pode deixar os bolsonaristas agarrados no pincel? Foto: Reprodução

Alguém tem que recomendar ao presidente americano, Donald Trump (republicano), 78 anos, que assista ao filme Ainda Estou Aqui, do cineasta Walter Salles, 68 anos, premiado em fevereiro, em Los Angeles (EUA), com o Oscar de melhor filme internacional. Assistindo à história contada por Salles, Trump terá uma ideia do que foi a luta dos brasileiros pela redemocratização do país. Em 1964, as Forças Armadas deram um golpe de estado que durou até 1985. Foram 21 anos de regime militar, durante os quais centenas de pessoas desapareceram e outras tantas foram torturadas e até hoje sofrem com as sequelas deixadas. Há relatos documentados de presos políticos que foram fuzilados a sangue frio. A redemocratização do país foi consolidada em 1988 com a publicação de uma nova Constituição, que foi escrita pelos constituintes de maneira a garantir que 1964 não se repita. É foi justamente por tentar repetir 1964 que viraram réus na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e vários de seus ex-ministros, além de generais e seguidores que acamparam na frente de unidades militares, numa mobilização que culminou com o quebra-quebra de 8 de janeiro de 2023, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). Trump tenta chantagear o Brasil. Anunciou que vai cobrar uma taxa de 50% dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos (a partir de 1º de agosto) caso não sejam anistiados pelo STF Bolsonaro e seus seguidores. Vamos conversar sobre o assunto.

Antes da nossa conversa, uma advertência para os leitores e meus colegas repórteres. Trump e Bolsonaro são dois políticos que chegaram ao poder popularizando uma eficiente mensagem aos eleitores que mistura fatos com mentiras. Portanto, sobre esta história há um enorme volume de fake news circulando. Só saberemos realmente a verdade sobre a taxação das exportações e do cancelamento dos vistos americanos dos ministros do STF no dia 1º de agosto, data marcada para começar o tarifaço. Vamos a nossa conversa. Iniciamos recuado aos primeiros meses de 2025. Em abril, foram encontrados os restos mortais de dois desaparecidos políticos. Na ocasião, a comissão de mortos e desaparecidos políticos e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram como sendo de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva os restos mortais encontrados em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo. Esta vala foi descoberta em 1990 e tinha restos mortais de 1.049 pessoas executadas por esquadrões da morte, indigentes e presos políticos. Tratei do assunto no post de 18 de abril PL da anistia de Bolsonaro mexe na ferida aberta pelo golpe militar de 1964. Ainda existem muitos desaparecidos políticos no país. Um deles é o deputado Rubens Paiva (1929–1971), que foi cassado, preso e morto em 1971. É justamente a história de Paiva que é contada no filme de Salles. Citei os casos dos desaparecidos políticos na abertura do post de abril porque na ocasião deputados e senadores bolsonaristas no Congresso tentavam enfiar garganta abaixo dos brasileiros o PL da Anistia, apelido dado pela imprensa ao Projeto de Lei 2.858/2022. Em resumo, a proposta é anistiar o ex-presidente e seus seguidores por terem montado uma organização criminosa com a finalidade de dar um golpe de estado. O objetivo era evitar que assumisse a Presidência da República o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PL), 79 anos, e o seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), 72 anos. Os golpistas tinham um plano para assassinar Lula, Alckmin e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que na época era o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, 63 anos. Toda esta história é contada nas mais de 800 páginas do relatório final do inquérito da Polícia Federal (PF) que investigou e indiciou 34 pessoas pela tentativa de golpe. E nas 272 páginas do relatório do procurador-geral da República Paulo Gonet, 63 anos, que denunciou os indiciados pela PF ao STF. O ministro Moraes retirou o sigilo dos dois relatórios, que podem serem encontrados nos sites do Judiciário. Atualmente, o PL da Anistia repousa na gaveta do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), 35 anos. Um dos motivos de estar engavetado é que, segundo pesquisas, 56% dos brasileiros são contra a anistia aos golpistas indiciados pela PF. Aqui termina este capítulo da tentativa de enfiar a anistia aos golpistas pela garganta abaixo dos brasileiros.

Vamos seguir em frente com a nossa conversa. Aqui começa o novo capítulo sobre a tentativa de anistia. Em março de 2025, Eduardo Bolsonaro, 47 anos, um dos filhos do ex-presidente, licenciou-se por 120 dias do seu mandato de deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro e mudou-se para os Estados Unidos com a missão de convencer o governo Trump a se envolver na pressão a favor da anistia a seu pai e seus seguidores. Eduardo e seus aliados tiveram sucesso na sua missão. Em 9 de julho, Trump comunicou que as exportações brasileiras para os Estados Unidos seriam taxadas em 50% a partir de 1º de agosto. E advertiu o governo Lula que qualquer negociação sobre as tarifas passaria pela anistia a Bolsonaro e seus seguidores. Aqui tem um detalhe que a imprensa que faz a cobertura diária do caso está deixando passar batido. Trump é arrogante, bravateiro e provocador nato. Mas não é estúpido. Só para lembrar. Ele é um dos maiores bilionários do planeta. Portanto, sabe que o Brasil é uma democracia e os poderes são independentes. Então, por qual motivo age como se não soubesse? A resposta é simples. O assunto está mantendo o seu nome nas manchetes dos jornais ao redor do mundo. O que, em última análise, é o seu maior interesse. O que talvez Trump não saiba é que sua insistência na anistia a Bolsonaro ativou na memória dos brasileiros os horrores do golpe militar de 1964. Esta memória vem sendo passada de geração para geração em filmes como Ainda Estou Aqui, livros, documentários e reportagens. E esta memória, somada às leis brasileiras, não permitirá a anistia aos golpistas. Frente a esta realidade, sem dar uma de vidente, podem acontecer duas coisas. A primeira é o presidente americano esquecer a anistia para evitar problemas internos no seu governo e deixar os bolsonaristas agarrados no pincel.

A segunda coisa que pode acontecer é o governo americano radicalizar e consolidar a China como a maior parceira econômica do Brasil. O que temos de concreto? Na sexta-feira (18), o ministro Moraes decidiu pela colocação de uma tornozeleira eletrônica em Bolsonaro para evitar a sua fuga do país. Em represália, Trump decidiu cancelar o visto americano de Moraes e de outros sete ministros do STF, além do procurador-geral Gonet, e de seus familiares. Isto nunca tinha acontecido nos dois séculos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Para fechar a nossa conversa. Tudo que escrevi não é opinião. São fatos que estamos noticiando. A novidade é que puxei para a conversa detalhes desta história que estão sendo deixados de lado, como os horrores de 1964. O que o presidente dos Estados Unidos está propondo para os brasileiros é a volta dos golpistas ao poder. Isto não acontecerá. Porque a ferida aberta pelo golpe de 1964 ainda lateja.

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