A imprensa e as histórias dos dias seguintes ao tarifaço de Trump ao Brasil

Não vai rolar a anistia para os golpistas porque o Brasil não é uma República de Bananas Foto: EBC

Então vai ser assim. Em uma das manhãs desta semana, o presidente americano, Donald Trump (republicano), 78 anos, no café da manhã, o famoso breakfast, tomará a decisão sobre o destino do tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. No início da segunda semana de julho, Trump comunicou pelas suas redes sociais e em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos, e a quem mais interessasse, que a partir do 1º de agosto as exportações brasileiras para o território americano serão taxadas em 50%. O Brasil exporta cerca de 40 produtos para os Estados Unidos, entre eles aviões e três dos principais itens que fazem parte do breakfast: café, suco de laranja e frutas. Ao contrário dos outros tarifaços aplicados pelo governo americano a países dos quatro cantos do mundo, o brasileiro veio acompanhado de uma exigência política. A anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e a 33 ex-ministros, generais e funcionários de primeiro escalão do seu governo que estão sendo julgados pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por terem montado uma organização criminosa com o objetivo de dar um golpe de estado. A anistia também inclui os envolvidos no quebra-quebra em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023. Acrescente-se que o Brasil é um dos escassos países com quem os americanos têm superávit no comércio.

Por vários motivos, dois em especial, a anistia não vai rolar. Primeiro, porque o Brasil não é uma República de Bananas, como era apelidados, nos anos 1950, os pequenos e corruptos países latino-americanos que dobravam a coluna vertebral com facilidade às pressões dos colonizadores. Segundo, porque para acontecer a anistia proposta por Trump seria necessário passar por cima da jovem e forte democracia brasileira. O primeiro obstáculo é a barreira erguida contra a derrubada da democracia pelas memórias deixadas nos brasileiros pelo golpe militar de 1964. Foram 21 anos de assassinatos de presos políticos, tortura e outros crimes contra a humanidade – há farto material disponível na internet. O caso é o seguinte. Na última semana, viajei para a região da soja do Rio Grande do Sul e fiquei “de orelha em pé”, como se dizia nas redações nos tempos das barulhentas máquinas de escrever quando o repórter ficava atento aos acontecimentos ao seu redor. O que notei é que, independentemente do destino que terá o tarifaço de Trump, as conversas que estão rolando são sobre a influência que a medida, confirmada ou não, terá na disputa eleitoral de 2026. Foi assim que os acontecimentos desta história foram simplificados por uma boa parte dos moradores do interior. Os seguidores do presidente Lula batem na tecla de que o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ), 41 anos, filho do ex-presidente que se licenciou do seu mandato e mudou-se para os Estados Unidos, conseguiu convencer Trump e seus aliados a chantagear o governo brasileiro usando o tarifaço para anistiar o seu pai e seus seguidores na aventura da tentativa de golpe. Os bolsonaristas pregam que o culpado é Lula, que provocou o presidente dos Estados Unidos ameaçando trabalhar pela troca do dólar por outra moeda no comércio internacional. Claro, o rolo é bem maior que as duas versões simplificadas do episódio contam. Mas são elas que estão correndo de boca em boca. Liguei para fontes que tenho entre os produtores rurais de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. E também por lá o que circula são estas duas versões simplificadas. Também tive o cuidado de ouvir algumas pequenas emissoras de rádio de cidades do interior, que ficaram conhecidas como “rádio cachaça”.

Na época do apogeu das “rádio cachaça”, nos anos 70, essas emissoras eram as únicas de suas cidades, a maioria delas carentes de tudo. Nas últimas décadas, o agronegócio transformou a panorama econômico destas cidades e grande parte dos moradores ascendeu à classe média. Aqui é o seguinte. Ao contrário do que muitos colegas escrevem, o agronegócio não pode ser definido como sinônimo de grandes plantações de soja e vastos rebanhos de gado. Muito pelo contrário. Inclui pequenas e médias propriedades rurais que lidam com a produção de suínos, frangos, leite e outros alimentos. Não vou dar um carteiraço nos colegas. Mas vou lembrar que desde que iniciei na profissão, em 1979, perambulo pelo interior do Brasil fazendo reportagens e livros, como O Brasil de Bombachas e Brasiguaios: homens sem pátria. Portanto, sei do que estou falando. Aqui nasce uma pergunta. Por que a população rural brasileira foi deixada de lado pela cobertura da grande imprensa sobre o tarifaço de Trump? Simples. As redações foram desmontadas com as demissões em massa dos últimos anos. O número de repórteres nas estradas, percorrendo o país em busca da opinião de quem vive no interior, pode ser contado nos dedos de uma mão. A grande imprensa virou um território de colunistas. Nada contra os colegas colunistas. Mas é essencial o trabalho do repórter documentando os fatos. Observo que uma coisa é fazer uma reportagem ouvindo a opinião de parlamentares ligados à agropecuária ou líderes sindicais. Outra coisa é bater da porta da casa do produtor e conversar com a família. Tenho consciência que os tempos da fartura de dinheiro para viajar e de repórteres para trabalhar nas redações acabaram e não voltam mais. Mas isso não significa que tenhamos que aceitar a situação de braços cruzados. Nos dias atuais existem as novas tecnologias da comunicação, como o celular, que nos permite consultar uma fonte a centenas de quilômetros de distância. Sei que é um baita esforço procurar e ligar para estas fontes. Mas vivemos tempos esquisitos, em que o discurso da mentira avança a uma velocidade espantosa. Portanto, vale a pena o esforço na busca da verdade.

Nas conversas que tive com moradores do interior um amigo de Palmeiras das Missões (RS) perguntou se eu tinha visto alguma matéria sobre a opinião dos militares e policiais parlamentares a respeito da intenção do presidente Trump de passar por cima da soberania nacional. “Afinal, eles juraram defender o país”, acrescentou. Lembrei que uma significativa quantidade de eleitos, em torno de 38 no pleito de 2022, e 158, nas eleições municipais de 2024, pegaram carona no prestígio político do ex-presidente Bolsonaro. Vasculhei a imprensa em busca de matérias com militares que foram eleitos parlamentares. Encontrei uma com o general reformado Hamilton Mourão (Republicanos), 71 anos, que foi vice de Bolsonaro (2019 – 2022) e atualmente é senador eleito pelo Rio Grande do Sul. O repórter perguntou para o senador a sua opinião sobre a intenção de Trump de passar por cima da soberania do Brasil. Ele respondeu que foi um militar profissional comprometido com a defesa do país. Mourão não falou bem e muito menos mal do ex-presidente e seu filho Eduardo. Ficou em cima do muro. Caso Trump decrete o tarifaço no dia 1º de agosto, esta história não terá mais muro.

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