No Caribe, furacão Erin adia a guerra de Trump contra os cartéis de droga

A história do pastor Malafaia com a PF vai longe Foto: Reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, recolocou nas manchetes ao redor do mundo o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, 62 anos, que governa o país desde 2013. Maduro andava sumido dos noticiários desde que foi reeleito, em agosto de 2024, numa eleição fraudulenta que deu o que falar. O seu ressurgimento se deu por conta do início da guerra contra o tráfico de drogas deflagrada por Trump, que enviou uma pequena frota para o Mar do Caribe com a missão de combater os cartéis que usam a região para abastecer de cocaína o maior e mais rico mercado consumidor do planeta, os Estados Unidos. Na quarta-feira (20), navegavam rumo à costa venezuelana três destróieres americanos (o USS Gravely, o USS Jason Dunhan e o USS Sampson) armados com mísseis de última geração e levando uma tropa de 4 mil marinheiros e fuzileiros. Além dos destróieres, aviões espiões e outros navios e equipamentos militares foram deslocados para o Caribe. Por seu lado, Maduro convocou 4,5 milhões de milicianos para resistir a uma eventual invasão do território venezuelano. Lembro que faz parte do roteiro do enfrentamento entre dois países, antes de dispararem o primeiro tiro, inundar a imprensa com informações sobre a letalidade dos seus armamentos e combatentes. Não foi por outro motivo que Trump reforçou a oferta de uma recompensa de 50 milhões de dólares por informações que levem à prisão de Maduro, a quem chama de “chefe de cartel de drogas”. Porém, o início da guerra precisou ser adiado pela fúria dos ventos e das chuvas do furacão Erin, que varre a região com extrema violência. Os navios, os aviões e as tropas voltaram para suas bases nos Estados Unidos.

O furacão Erin tirou o lugar de Trump e Maduro nas manchetes. Mas, como o presidente americano prometeu durante a sua campanha eleitoral, em 2024, a guerra contra os cartéis vai acontecer. Sabemos que usar forças militares no combate ao tráfico de drogas não funciona. Por vários motivos. Um deles é que os traficantes estão misturados à população civil. Mas essa é outra conversa. O fato é o seguinte. O uso das forças armadas americanas contra os cartéis de drogas tem como objetivo manter Trump nas manchetes, da mesma forma como no caso das tarifas sobre as importações, na caça aos imigrantes ilegais (deportações) e nas tentativas de acabar com as guerras entre Israel e o Hamas e entre a Rússia e a Ucrânia. Todos estes episódios estão recebendo a cobertura diária da imprensa. Trump assumiu o seu segundo mandato em 20 de janeiro. Em número redondos, completou na última quarta-feira 240 dias de governo. Mas pela quantidade de confusões que já protagonizou ao redor do mundo, parece que ocupa o cargo há muitos anos. Tudo indica que a próxima grande confusão será a sua tentativa de derrubar a 22ª Emenda da Constituição americana, que proíbe o terceiro mandato de um presidente. Já há até um boné vermelho com a inscrição “Trump 2028”, referindo-se ao ano da próxima eleição presidencial, sendo vendido por US$ 50 (cerca de R$ 285). Uma manobra para driblar a lei seria Trump se eleger como vice e assumir o cargo com a renúncia do presidente eleito. Por hora, a história da reeleição está em “banho-maria”, uma expressão que se usava nos tempos das máquinas de escrever para se referir a uma situação de espera. Conversei com vários colegas que conheci na década de 80 fazendo reportagens sobre conflitos agrários nos sertões do Brasil e em países vizinhos sobre os rolos armados por Trump. Um deles o descreveu como “semeador de confusões”. A conclusão do nosso papo foi que a imprensa mundial é refém do presidente americano. Não tem como não publicar o que ele diz. Afinal, governa o país mais poderoso do planeta.

No Brasil, Trump irá influenciar nas eleições de 2026. A disputa será impactada pelo tarifaço de 50% aplicado aos produtos exportados para os Estados Unidos. Na quarta-feira (20), uma pesquisa de opinião pública da Quaest mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos, recuperou a sua popularidade graças ao tarifaço. Vou destacar um detalhe da pesquisa. O fato de que 69% dos brasileiros culpam o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) pelo tarifaço contra o Brasil. Eduardo mudou-se no início do ano para os Estados Unidos, onde montou um eficiente lobby na Casa Branca que conseguiu convencer Trump a somente negociar o tarifaço se o Brasil anistiar o pai do deputado, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e os seus seguidores que estão sendo julgados por terem tentado dar um golpe de estado. A pesquisa da Quaest também mostrou que o tarifaço vem desidratando o movimento bolsonarista. Com Bolsonaro declarado inelegível até 2030 pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE), quatro governadores estão disputando o seu espólio político: Romeu Zema (Novo), 60 anos, de Minas Gerais, Ratinho Júnior (PSD), 44 anos, do Paraná, Ronaldo Caiado (União Brasil), 75 anos, de Goiás, e Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, de São Paulo. A pesquisa mostrou que os quatro estão perdendo votos e, por estarem tentando se afastar do ex-presidente, foram chamados de “ratos” por um dos filhos de Bolsonaro, Carlos, 42 anos, vereador do Rio de Janeiro. No governo Bolsonaro, Carlos cuidava das mídias sociais do pai e era o responsável pelo Gabinete do Ódio, como a imprensa apelidou um grupo que atacava tanto adversários quanto aliados do ex-presidente.

Para arrematar a nossa conversa. No final da tarde de quarta-feira, a Polícia Federal (PF) enviou para a Primeira Turma do STF o relatório do inquérito que investigou a atuação de Eduardo Bolsonaro contra os interesses brasileiros nos Estados Unidos. Ele e o ex-presidente, que financia a estadia do filho no território americano, foram indiciados pelos crimes de coação no curso do processo e tentativa de abolição do Estado de Democrático de Direito, por meio da restrição ao exercício dos poderes constitucionais. O ministro do STF Alexandre de Moraes, 56 anos, enviou o relatório da PF para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Neste inquérito também está sendo investigado o polêmico pastor Silas Malafaia, 66 anos, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. É acusado de ter colaborado com o ex-presidente e seu filho Eduardo. Na quarta-feira, Malafaia foi detido pela PF ao desembarcar Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Prestou depoimento e teve o celular apreendido. Na saída do depoimento, deu uma rápida entrevista na qual disparou vários insultos contra o STF. A história de Malafaia com a PF está apenas começando. Ela vai longe, podem anotar. O fato é o seguinte. A cada dia que passa, fica mais complicada a situação econômica e política dos países atingidos pelo tarifaço. Trump se comporta como se tivesse sido eleito “presidente do mundo”. Até quando esta situação vai durar? Difícil dizer. Mas é certo que pode dar um “baita rolo”, como dizem os jornalistas gaúchos pelas mesas dos botecos.

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