
Não era minha intenção escrever sobre o que representa para os brasileiros a próxima semana. Mas a importância do fato fala por si só. Comecei na lida de repórter em 1979 e trabalhei em redação até 2014. Mas não parei de escrever e correr pelas estradas em busca de boas histórias para contar. Tem sido essa a minha rotina. Ora, eu não podia ficar de fora do que vai acontecer na próxima semana, né? Vamos aos fatos. Vou contar a história de maneira didática por entender que facilita o entendimento por parte do leitor e dos jovens colegas repórteres. Tudo começou em 1964. As Forças Armadas, apoiadas pelo governo dos Estados Unidos, pela extrema direita brasileira e por partes importantes da imprensa, derrubou o presidente da República, João Goulart, o Jango, gaúcho de São Borja, do antigo PTB. O que aconteceu nos 21 anos seguintes pode ser encontrado em livros, documentos, reportagens e na lembrança de muitos que estavam lá e foram presos e torturados pelos militares e seus aliados nas polícias civis e militares. No final da década de 70, o regime militar entrou em decadência e acabou em 1985. Ninguém foi julgado pelos crimes graças à Lei da Anistia, de 1979. Em 1986, foi eleita a Assembleia Constituinte.
No dia 5 de outubro de 1988, o presidente da Constituinte, Ulysses Guimarães (1916 – 1992), promulgou a nova Constituição do Brasil. No primeiro domingo de outubro, dia 5, a Constituição completa 37 anos. Se comparada com a dos Estados Unidos, a mais antiga do mundo, escrita em 1787 e em vigor desde 1789, a brasileira é jovem. Mas tem musculatura suficientemente forte para suportar os ataques dos golpistas. Voltamos aos dias atuais. Na próxima semana, terça-feira (2), inicia-se na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), presidida pelo ministro Cristiano Zanin, 49 anos, o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e de sete ex-ministros e funcionários de alto escalão do seu governo. São acusados de terem praticado cinco crimes, um deles é a formação de uma organização criminosa com a finalidade de dar um golpe de estado. Este grupo faz parte de um contingente de 34 pessoas (27 militares da ativa, reserva e reformados) que foram indiciadas pela Polícia Federal (PF) em cinco crimes. Foram divididas em quatro núcleos. O primeiro a ser sentenciado é o do ex-presidente e dos demais sete que serão julgados na próxima semana. A previsão é que as sentenças destes saíam até o dia 12, e para os outros três núcleos, até o final do ano. Há dois motivos para este julgamento entrar na história política do Brasil: o primeiro, por ser uma das raras vezes em que golpistas serão responsabilizados criminalmente. E, segundo, por estar entre os réus um general de quatro estrelas, Walter Braga Netto, 68 anos, ex-ministro da Defesa, que concorreu como vice de Bolsonaro nas eleições de 2022, quando o então presidente tentava a reeleição. Até aqui, na nossa conversa, as informações que enfileirei têm sido publicadas nos jornais.
Agora vamos falar do que aconteceu entre quatro paredes em 1985, ano em que os militares saíram do poder. Até metade da década de 90 ainda podia ser encontrada, nas máquinas administrativas municipal, estadual e federal, nas organizações policiais e nas Forças Armadas, uma figura que era descrita nas redações dos jornais como “entulho autoritário”. Antigos ocupantes de postos importantes nos governos militares, tinham como hábito fazer apologia aos torturadores, às execuções de presos políticos e outros desatinos. Mesmo com o passar do tempo, os apologistas do golpe não desapareceram. Muito pelo contrário, se multiplicaram. O ex-presidente Bolsonaro teve uma significava contribuição na multiplicação dessas figuras. No ano do golpe, 1964, ele tinha nove anos. O livro O Cadete e o Capitão, escrito pelo repórter Luiz Maklouf Carvalho (1953 – 2020), faz uma referência que, na sua adolescência, Bolsonaro espalhava boatos de que tinha contribuído com as autoridades militares na caça aos opositores do regime. Em 1977, o ex-presidente ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras. Teve uma carreira confusa – matérias na internet. Saiu das Forças Armadas em 1988 e iniciou uma carreira política de mais de 30 anos. Durante todo este tempo, pregou contra a democracia, em favor do golpe de estado e fez apologia aos torturadores dos presos políticos. Durante o seu governo (2019 – 2022), colocou mais de 6 mil militares (ativa, reserva e reformados) em postos-chave da máquina administrativa federal. Em 2022, Bolsonaro tentou a reeleição e perdeu para o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos. Mas o seu prestígio político ajudou a eleger mais de 60 militares e policiais para os legislativos e os governos estaduais. Pergunto o seguinte. Uma eventual condenação do ex-presidente acabará com os apologistas do golpe? A resposta é não. Mas o fato dos apologistas ao golpe do governo Bolsonaro sentarem no banco dos réus funciona como uma advertência de que o Brasil não é uma República de Bananas.
Para arrematar a nossa conversa. Desde 1985, as redações dos jornais conviveram com o fantasma da “volta dos militares ao poder”. Este fantasma quase se tornou realidade durante o governo Bolsonaro, quando a pregação dos golpistas era feita publicamente, incluindo as falas presidenciais. Na tentativa de golpe, acampamentos de bolsonaristas foram montados nos portões de várias unidades militares pedindo que as Forças Armadas voltassem ao poder. O plano dos golpistas era simples. Realizar uma série de atos, como tentar explodir um caminhão-tanque com 60 mil litros de combustível de avião em frente ao Aeroporto Internacional de Brasília, para espalhar o caos e forçar o governo a decretar uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que seria cumprida pelas Forças Armadas. O governo não decretou a GLO, os comandantes do Exército, general Marco Freire Gomes, e da Força Aérea Brasileira (FAB), tenente-brigadeiro Carlos Almeida Baptista Júnior, não concordaram com o golpe e a “casa dos golpistas caiu”, como diz a gíria policial. Dias muito interessantes vêm por aí.