
Por conta das eleições de 2026 houve um recrudescimento da polarização entre o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. O quadro atual está sufocando uma tradição da política brasileira, que é a migração dos parlamentares do Centrão de um lado para o outro, conforme os seus interesses econômicos e políticos. Nos dias atuais, estes parlamentares são descritos pela imprensa de maneira pejorativa como “políticos que não têm adversários nem aliados. Só negócios”. O surgimento do grupo não tem nada a ver com a sua fama atual. Com a redemocratização do país e a instalação da Assembleia Constituinte, o Centrão nasceu em 1987 da união de vários partidos de direita que tentavam barrar as propostas progressistas do presidente da Constituinte, o deputado Ulysses Guimarães (1916 – 1992), do antigo MDB. Publicada a Constituição, em 1988, o Centrão seguiu atuando no Congresso e teve o seu auge durante a polarização entre PSDB e PT (1995 a 2011). Nos anos seguintes, a disputa política mudou. O PSDB entrou em decadência e foi engolido pela extrema direita, que estava se articulando ao redor do mundo. Ainda assim, na campanha presidencial de 2018, o Centrão apoiou o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, 72 anos, deixando Bolsonaro de lado. A decisão provocou a reação de um dos apoiadores mais próximos do ex-presidente, o general Augusto Heleno, 77 anos, que se inspirou no samba Reunião de Bacana, de Ary do Cavaco e Di São João, para atacar o Centrão: “Se gritar pega ladão, não fica um, meu irmão”.
Bolsonaro assumiu o seu mandato em 2019 e o general engoliu as suas ofensas dois anos depois. Em 2021, o então presidente da República começou a dar cargos no seu governo para o Centrão, com a intenção de barrar os mais de 300 pedidos de impeachment feitos pela oposição. Em 2022, Bolsonaro concorreu à reeleição contra Lula e perdeu. Em outros tempos, o Centrão migraria em massa para o governo eleito. Não foi o que aconteceu desta vez. Só foram para o governo Lula parlamentares de grupos que não tinham participado do governo Bolsonaro. Por que o contingente do Centrão do governo Bolsonaro não migrou para o de Lula, como sempre acontecia? A resposta é a seguinte. O ex-presidente perdeu a eleição. Mas o seu prestígio político elegeu mais de 100 parlamentares e governadores. A maioria dos eleitos são quadros da extrema direita, pessoas organizadas, agressivas e com uma bem lubrificada e competente máquina de fake news para atacar os adversários e os companheiros que desertarem. Assumiram os seus mandatos prometendo “esmagar o governo Lula”. E fizeram do Centrão “um puxadinho” do bolsonarismo. Mas as coisas começaram a dar erradas para Bolsonaro. Em 31 de outubro de 2023, ele foi considerado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Atualmente, cumpre prisão domiciliar enquanto espera transitar em julgado a condenação a 27 anos de cadeia que lhe foi imposta pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), onde foi julgado, com 37 ministros e funcionários de primeiro escalão do seu governo, por cinco crimes, um deles, a formação de uma organização criminosa para dar um golpe de estado. Os parlamentares e governadores eleitos pelo prestígio do ex-presidente estão tentando resolver o problema de duas maneiras: uma é enfiar garganta abaixo do Congresso um projeto de anistia ampla e geral para Bolsonaro e seus seguidores que se envolveram na tentativa de golpe. Não vai rolar por dois motivos: primeiro, porque 67% da opinião pública é contrária. Depois, porque, caso o projeto da anistia passe no Congresso, os ministros do STF vão vetá-lo, por ser inconstitucional.
A outra estratégia é o ex-presidente indicar o seu substituto na eleição presidencial do próximo ano. Há vários candidatos à indicação, sendo o mais cogitado o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, que foi ministro de Bolsonaro e é seu afilhado político. Apareceu um fato complicador para o lado do governador. Um dos filhos do ex-presidente, o deputado federal por São Paulo Eduardo Bolsonaro (PL-SP), 40 anos, licenciou-se do seu mandato e mudou-se para os Estados Unidos. Lá, montou um bem-sucedido esquema de lobby junto ao presidente americano Donald Trump (republicano), 79 anos, para que exigisse a anistia do seu pai e dos seus seguidores como condição para negociar o tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos. Ele teve sucesso no lobby, mas rachou politicamente o bolsonarismo. Em outros tempos, o Centrão aproveitava a confusão entre os bolsonaristas para pular do barco em busca de um lugar mais seguro. Por que continua lá? Porque um dos seus líderes, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), 56 anos, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, viu na atual situação uma oportunidade de ser indicado para concorrer como vice do governador paulista, caso seja ele o indicado por Bolsonaro. Eduardo é contra a indicação de Tarcísio. Inclusive, ameaçou lançar-se candidato a presidente caso o governador paulista seja o escolhido por seu pai. O presidente do PL, o experiente ex-deputado Valdemar da Costa Neto, 76 anos, disse acreditar que Trump conseguirá que Bolsonaro e seus seguidores sejam anistiados. Lula já avisou que “a soberania nacional não é negociada”.
A vida dos parlamentares do Centrão que estão com Lula também não anda fácil. No início do mês, quarta-feira (8), na Câmara dos Deputados, os bolsonaristas e seus aliados derrotaram por 251 votos a 193 a Medida Provisória (MP) 1303, do governo federal, que substituía o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). A derrota da MP 1303 significa que faltarão R$ 35 bilhões para o governo fechar as contas. O governo demitiu 120 pessoas que ocupavam cargos no serviço público federal e haviam sido indicadas por parlamentares da sua base de apoio, que inclui deputados do Centrão. Lembro o seguinte. Em outros tempos, a menos de um ano para o primeiro turno das eleições o Centrão estaria unido se posicionando ao lado do provável ganhador. Ouvi de um colega que considero um bom analista político que na década de 90 o governo federal controlava uma enormidade de cargos, com bons salários, porque existiam muitas empresas estatais. Isso acabou, porque a maioria das estatais foi privatizada. Para concluir a nossa conversa, vou resumir tudo que falamos em uma curta frase. A exigência feita pelo governo e a oposição bolsonarista de fidelidade aos seus apoiadores prejudica a migração do Centrão. Não escrevi nem uma, nem duas, mas dezenas de vezes, que seja lá quem for eleito presidente da República, o Centrão estará no governo. A polarização vai acabar com isso?