
A arte de mentir é uma arma muito poderosa. Não por outro motivo que é uma importante disciplina ensinada nas academias militares ao redor do mundo. Foi largamente utilizada pelos serviços de espionagem durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e na Guerra Fria (1947 – 1991), o confronto ideológico que contrapôs os países capitalistas, Estados Unidos e aliados, e os comunistas, a União Soviética e o bloco do Leste europeu. Nas últimas duas décadas, a extrema direita se reorganizou ao redor do mundo valendo-se de uma receita muito simples: usou as novas tecnologias da comunicação para espalhar a sua versão da realidade em textos e vídeos em que mentiras e fatos são misturados de uma maneira muito sutil, formando as fake news. Os jornalistas americanos foram apresentados às fake news no primeiro mandato de Donald Trump (republicano), 79 anos, na presidência dos Estados Unidos (2017 – 2021). E os brasileiros no governo (2019 – 2022) de Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, um seguidor político de Trump.
Eu abri a nossa conversa contando esta história por entender que é a melhor maneira de chamar a atenção dos colegas e leitores para uma oportunidade que surgiu para aprendermos como funcionam as entranhas da máquina de mentiras. Vamos à história. No início do ano, em um relatório de 884 páginas, a Polícia Federal (PF) indiciou o ex-presidente Bolsonaro e outras 36 pessoas (sendo 27 militares da ativa, reserva e reformados) por cinco crimes, sendo um deles a formação de uma organização criminosa para dar um golpe de estado. O cartão de apresentação da tentativa de golpe foram os eventos de 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas que estavam acampados na frente de quartéis militares quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF), na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). A Primeira Turma do STF aceitou a denúncia feita pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, 64 anos, e tornou réus os 37 indiciados pela PF. Os réus foram divididos em quatro núcleos. O primeiro, chamado de núcleo crucial, que incluía Bolsonaro e outras sete pessoas, foi julgado em setembro. Todos foram condenados pelos cinco crimes. Bolsonaro, como chefe da organização criminosa, recebeu uma pena de 27 anos de cadeia. O ex-presidente aguarda em prisão domiciliar transitar em julgado a condenação. Na terceira semana de outubro, terça-feira (21), foi concluído o julgamento do chamado núcleo da desinformação, que usava notícias falsas para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Este núcleo é formado por sete pessoas e todas foram condenadas. Cinco dos condenados são do Exército. São eles: Ailton Barros (major da reserva), Ângelo Denicoli (major da reserva), Giancarlo Gomes Rodrigues (subtenente), Guilherme Marques de Almeida (tenente-coronel), Reginaldo Vieira de Abreu (coronel). Os outros dois condenados são Marcelo Bormevet, que é policial federal, e Carlos Cesar Rocha, presidente do Instituto Voto Legal. Os integrantes dos outros dois núcleos irão a julgamento em novembro.
Os detalhes do julgamento dos dois núcleos estão sendo divulgados online pela imprensa. Vou fixar a nossa conversa em um detalhe sobre o julgamento do núcleo da desinformação que a cobertura diária deixou passar batido. O evento abriu uma grande oportunidade para nós jornalistas entendermos como funciona a indústria das fake news. Vejam bem, os condenados montaram uma “guerra informacional”, na linguagem do procurador da República, para desacreditar a democracia brasileira. A comparação agora é minha. Foi como colocar uma carga explosiva na viga mestra que sustenta um prédio. Ao detonar o explosivo, o prédio cai. Este e outros eventos, como a tentativa de explodir um caminhão-tanque com 60 mil litros de combustível para avião no Aeroporto Internacional de Brasília, tinham como objetivo criar uma realidade falsa de que tudo estava desabando no país, para incentivar os seguidores de Bolsonaro a irem para a rua. Tiveram sucesso: eles foram e quebraram tudo em 8 de janeiro de 2023. O voto do ministro Alexandre de Moraes, 56 anos, relator do caso, tem muitos detalhes sobre como as fake news foram usadas para desacreditar a disputa eleitoral. E também para atacar os oficiais do Exército que não aderiam ao golpe. Há muitos detalhes também nos votos dos outros ministros da Primeira Turma: Cristiano Zanin, 49 anos, Cármen Lúcia, 71, Flávio Dino, 57, e Luiz Fux, 72. E nos relatos dos advogados de defesa dos réus. Além, claro, do relatório de 884 páginas da PF. Estou falando de um enorme volume de informações que podem serem garimpadas e transformadas em conhecimento para os jornalistas sobre como funcionam as “fábricas de fake news”. Aqui é o seguinte. É importante atrair os professores das faculdades de jornalismo para o garimpo das informações sobre as notícias mentirosas no julgamento do núcleo da desinformação. Se o professor informar os seus alunos como o sistema de mentiras funciona, ele terão melhores condições de não pisar nas cascas de banana deixadas no caminho da apuração dos fatos.
Vou relatar um fato do passado que considero importante para o nosso assunto. Na década de 80, eu fazia cobertura dos conflitos agrários que começavam a brotar nos rincões do Brasil com a decadência do regime militar (1964 – 1985). Na época, os serviços de contrainformação do governo agiam distribuindo informações falsas para rádios, jornais e TVs. Eram notícias grosseiras. Lembro de uma. Espalharam que guerrilheiros da Nicarágua estava vindo de ônibus para Bagé, cidade gaúcha na fronteira com o Uruguai, para se juntar ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Uma notícia absurda, mas que acabou ganhando espaços nos jornais da época. As fake news, nos dias atuais, são bem-feitas, tanto o texto como a imagem, e para reconhecê-las é necessário ter cuidado e saber procurar as pistas que denunciam se tratar de uma mentira. Entrei em redação de jornal em 1979 e sai em 2014. Tive tempo e condições técnicas (salários, carga de trabalho e viagens). Atualmente, a carreira de um repórter pode terminar na sua primeira semana de redação tal é a velocidade que as coisas acontecem, somada à falta de condições de trabalho. Portanto, eu prego que é necessário o profissional ter acesso às novas técnicas de contar uma história. O processo contra a tentativa de golpe de estado gerou uma enormidade de informações que precisam ser analisadas por aqueles que estudam e pensam as técnicas de apuração utilizadas pelos repórteres. Usando o linguajar dos comentaristas esportivos. O repórter cresce nas bolas divididas.