
Ainda que tenha sido julgado, condenado a 27 anos de prisão e esteja cumprindo a sentença em uma cela na Polícia Federal, em Brasília (DF), o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, vai influenciar as eleições presidenciais de 2026 e muitas outras que virão pela frente. Essa influência decorre dele e seus seguidores terem conseguido se organizar e manter operantes as linhas políticas de extrema direita defendidas por importante parcela das Forças Armadas que ainda simpatiza com as ideias que levaram ao golpe de 1964, quando os militares derrubaram o governo do presidente João Goulart (1919 – 1976), o Jango, de São Borja, do antigo PTB. Os generais governaram o país com mão de ferro até 1985, deixando um rastro de prisões ilegais, torturas, violência e uma bagunça econômica que resultou na hiperinflação dos anos 80. Com a redemocratização do Brasil e a publicação da atual Constituição, em 1988, as forças políticas e econômicas de 1964 saíram dos holofotes. Mas permaneceram articuladas e operando nas sombras. Ressurgiram em 2018, na eleição de Bolsonaro.
Conversamos sobre esse assunto na semana passada, sexta-feira (28), no post Prisão de Bolsonaro aumentou ou diminui a polarização com Lula? A polarização deverá continuar por um prazo indeterminado. O que está acontecendo é o seguinte. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, ex-ministro e afilhado político de Bolsonaro, é atualmente o indicado não oficial para substituir o ex-presidente na disputa de 2026 contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que tentará a reeleição. Mesmo antes de começar a cumprir a sua pena, em 2023, Bolsonaro tinha sido declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – matérias na internet. Na ocasião, vários candidatos se perfilaram para receber a indicação do ex-presidente. Apenas um deles, o governador paulista, se consolidou como candidato. Durante todo este tempo, a indicação de Tarcísio vem sendo mantida em banho-maria pela cúpula do bolsonarismo. Há várias explicações para essa espera. A mais popular é que optaram por forçar a barra no Congresso para passar uma lei de anistia ampla, geral e irrestrita aos envolvidos na tentativa de golpe. Não conseguiram, e se tivesse conseguido o Supremo Tribunal Federal (STF) teria julgado a medida ilegal. Enquanto isso, o governador segue fazendo a sua campanha presidencial de maneira “clandestina”. Oficialmente, diz que vai concorrer à reeleição para o governo de São Paulo e que só irá se declarar candidato a presidente com o aval de Bolsonaro. Por muito tempo, estive perfilado entre os repórteres que acreditavam que Tarcísio estava exagerando na dose da sua fidelidade ao ex-chefe. Estava enganado. Por uma soma de motivos, atualmente 30% dos 150 milhões de eleitores brasileiros são fiéis ao ex-presidente. Lula sabe desta realidade. E foi justamente este um dos motivos do seu problema com o presidente do Senado, David Alcolumbre (União Brasil-AP), 48 anos. O senador defendia a indicação do seu colega Rodrigo Pacheco (PSD-MG), 49 anos, para ocupar a vaga aberta no STF pela aposentadoria do ministro Roberto Barroso. Lula indicou Jorge Messias, 45 anos, advogado-geral da União. Essa indicação foi feita por dois motivos: para se reeleger, Lula precisa dos votos de Minas Gerais, que é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. O presidente acredita que Pacheco poderá ajudar na sua reeleição se candidatando a governador de Minas.
O segundo motivo da indicação de Messias para o STF é que Lula tem problemas para conseguir os votos dos evangélicos, onde é enorme o domínio do ex-presidente e seus seguidores. Messias é evangélico da Igreja Batista e sua palavra pode ajudar o presidente. Lembro que, em 2021, o então presidente Bolsonaro indicou para ministro do STF, e o Senado aprovou, o pastor presbiteriano André Mendonça. Outra área da disputa eleitoral que o ex-presidente tem influência e ainda terá por muitos anos é a da segurança pública. Vou citar um episódio recente que também terá repercussão nas eleições de 2026. Em outubro, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), 46 anos, colocou na rua a Operação Contenção, contra a facção criminosa Comando Vermelho (CV). Foi a maior e mais letal operação da história das polícias Civil e Militar do Rio, que resultou na morte de 122 pessoas, sendo cinco policiais. Falei sobre o episódio no post A imprensa e o encaixe da disputa Lula versus Bolsonaro no caso do governador do Rio de Janeiro. Uma pesquisa revelou que a operação teve apoio de 67% dos cariocas. Dias depois da Contenção, o governo federal respondeu enviando para a Câmara o Projeto de Lei (PL) 5.582/2025, apelidado de PL Antifacção. Elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o objetivo do PL Antifacção é endurecer as leis contra as organizações criminosas. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), 36 anos, colocou como relator do projeto o deputado Guilherme Derrite (Progressistas-SP), 41 anos, ex-secretário de Segurança do governador Tarcísio, o provável adversário de Lula em 2026. Motta foi duramente criticado pelo líder da bancada do PT, Lindbergh Farias, 55 anos, pela escolha do relator. Ficou indignado e rompeu relações com Lindbergh. Derrite fez seis relatórios sobre o projeto antifacção. O último conseguiu ser aprovado no plenário da Câmara e foi mandado para o Senado. Segundo especialistas, o relatório tem vários problemas legais. Ou seja, esta história não terminou. Muita água ainda vai passar por debaixo da ponte, como se diz nos sertões do Brasil.
Há uma tendência na questão da segurança pública: os seguidores do ex-presidente estão investindo em grandes operações envolvendo policiais em confrontos com as facções. E o governo federal em operações de inteligência, como foi o caso da Carbono Oculto, feita em parceria entre a Polícia Federal (PF) e outros órgãos federais e o governo de São Paulo. A operação descobriu a presença da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) lavando dinheiro do tráfico de drogas e outros crimes por meio de corretoras de valores e fintechs que atuam na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, o maior centro financeiro da América do Sul. Resumindo a nossa conversa. Em todos os setores onde acontecerá a disputa política em 2026 os bolsonaristas têm os seus seguidores, que defenderão as ideias da extrema direita. Muito embora exista uma disputa pelo legado político do ex-presidente dentro da sua família, grupos ligados aos parlamentares do Centrão e outros apoiadores e a palavra do Bolsonaro têm peso de decisão. Lembro aqui o seguinte. Nas eleições de 2018 e 2022, o prestígio político do ex-presidente elegeu muitos parlamentares e governadores. Como será em 2026?