
Nos primeiros meses de 2023, os noticiários ao redor do mundo foram inundados por imagens de mulheres grávidas, crianças e velhos da tribo yanomami transformados pela fome em pele e osso, perambulando pelas margens dos rios contaminados pelo mercúrio usado pelos garimpeiros que invadiram o seu território, uma área de 9,6 milhões de hectares na fronteira de Roraima com a Venezuela, nas profundezas da Floresta Amazônica. Na reserva vivem 30 mil índios. A presença de garimpeiros explorando ilegalmente a área vem de longe. Mas aumentou drasticamente com o sucateamento propositado das agências e órgãos federais que fiscalizam o meio ambiente durante o governo (2019 – 2022) do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. Isso facilitou uma das maiores invasões de garimpeiros a terras indígenas das últimas décadas. Financiados por organizações criminosas locais e pessoas de posse das cidades vizinhas, eles contaminaram os rios, os peixes e tudo o mais que encontraram pela frente na busca por ouro, bauxita e outros minerais preciosos. Quem não lembra do episódio basta apertar um botão no teclado do computador para encontrar fotos, vídeos, jornais e outras mídias contando a tragédia dos yanomami. O governo federal tem feito várias ações de saúde e de destruição de equipamentos dos garimpos. Estas operações determinaram uma mudança para melhor na qualidade de vida dos índios e a preservação do ambiente. Mas surgiu uma oportunidade para a Polícia Federal (PF) colocar as mãos nos financiadores dos garimpos nas terras yanomami. Vamos falar sobre o assunto.
O desafio do governo federal é acabar com “ciclo macabro dos garimpos nas terras indígenas”, como é conhecida pelos ambientalistas a rotina dos financiadores dos garimpeiros. Sempre que assume um presidente da República comprometido com o meio ambiente, eles congelam as suas operações e “ficam na moita”, esperando uma nova oportunidade. Ela surgirá quando assumir um governo sem compromissos ambientais. Essa estratégia é uma cópia do que acontecia nos conflitos pelo poder nos países africanos, onde surgiram e tornaram-se populares ao redor de mundo “os diamantes de sangue”, que eram extraídos por trabalhadores escravizados nas regiões de conflitos para financiar a compra de armas, guerras e a matança de civis. Para terminar com essa prática foi criado o Processo de Kimberley, um sistema internacional de certificação que eliminou do mercado as “pedras de sangue”. Toda essa história é muito bem resumida no filme Diamantes de Sangue (2006), estrelado pelos atores Djimon Hounsou, Jennifer Connelly e Leonardo Di Caprio. No início dos anos 2000, eu pesquisei profundamente a história dos “diamantes de sangue” e publiquei no jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS), a série de reportagens “As pedras manchadas de sangue”, assim dividida: “Diamantes que matam”, “Do subsolo da Amazônia brotam conflitos sangrentos”, “O valor das pedras brutas é definido por cartel” e “O Brasil sofre pressões das organizações mundiais”. Na ocasião, andei pelos principais garimpos brasileiros, incluindo os de Minas Gerais. Conversei com moradores das cidades ao redor, com gente “dos tempos que o garimpeiro entrava mato adentro na sorte e na coragem em busca de ouro”. Também com o pessoal que trabalha no garimpo e, finalmente, com os financiadores dos garimpeiros, homens de muitos negócios e pouco diálogo.
Como disse na abertura do segundo parágrafo. O desafio do governo federal é descobrir quem é quem na estrutura criminosa dos garimpos. Para saber como lidar com o problema. Creio que surgiu uma oportunidade. Em agosto, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu 103 quilos em barra de ouro nas estradas de Roraima. Em outubro, outras três apreensões somaram 58 quilos. No início de novembro, nova apreensão, essa de 52 quilos. Somando as cinco apreensões, chegamos a 213 quilos em barras de ouro, no valor aproximado de R$ 150 milhões. Aqui o interessante não é o valor do ouro. Mas as novas tecnologias que a perícia da PF está usando para determinar uma espécie de DNA do ouro. Ou seja, é possível identificar de qual garimpo saiu o metal. Essa informação é preciosa porque coloca a digital do financiador no ouro. Ora, todo mundo sabe quem são os financiadores dos garimpos. Mas saber é uma coisa, como me explicou um delegado da PF. Provar, é outra. Conheço os principais garimpos do Brasil e tenho um conhecimento razoável de como operam. Caso as autoridades tenham sorte de conseguirem desarticular os financiadores é real a possibilidade de reduzir significativamente a atividade garimpeira. Se isso acontecer, o desmatamento diminui sensivelmente e a grilagem de terras também irá sofrer uma queda. Por quê? A atividade garimpeira é a que entra primeiro e derruba a floresta. O resto vem atrás. Estranhei a quantidade de cargas de barras de ouro que foram apreendidas em Roraima. Uma ou duas é normal. Mas cinco desperta a curiosidade. Perguntei para fontes que tenho na região, especialmente entre os pilotos dos garimpos, quem estava comprando ouro. Ouvi que “todo mundo”. Perguntei se o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de janeiro, estavam comprando ouro. Essas duas facções operam na região transportando cocaína da Colômbia, do Peru e da Bolívia para o Brasil e outros países. Recebi como resposta que “eles adoram é comprar joias, especialmente cordões”.
Para arrematar a nossa conversa. “Os diamantes de sangue” foram varridos do mercado legal graças à pressão de várias entidades. Acredito que a exploração garimpeira na Floresta Amazônica siga o mesmo rumo. Para acompanhar esta história é necessário que a imprensa se reorganize para focar os seus investimentos em reportagens investigativas. Olha, uma reportagem investigativa é cara em qualquer lugar do planeta. Na Amazônia, é muito mais cara porque o principal meio de transporte são os pequenos aviões, e o piloto cobra conforme a cara do freguês. Os grandes jornais brasileiros focaram os seus investimentos nos colunistas. E o número de repórteres nas redações diminui violentamente. Apesar desse quadro, há muitas agências e organizações não governamentais apostando na investigação jornalística. É um bom sinal. O resto é suor, trabalho e uma cerveja gelada no final do dia.