
Dei-me ao luxo de ler com a mesma tranquilidade de quem aprecia cada gole de um vinho tinto o livro Paulo Sant’Ana – o gênio indomável, do escritor e jornalista Márcio Pinheiro, 58 anos, publicado pela Editora AGE. Muitas das 284 páginas eu reli por duas ou mais vezes, na busca do detalhe utilizado pelo autor para emendar um ao outro os parágrafos e os capítulos. Márcio usa para fazer esta ligação uma novidade sobre a história, como se fosse uma notícia nova. Isso dá à narrativa a dinâmica de um filme passando diante dos olhos do leitor. Essa maneira de contar a história não deixa o leitor entediado. Muito pelo contrário, ele fica curioso para saber o que vem pela frente. Não é fácil usar esta técnica para contar uma história. Exige um profundo conhecimento dos fatos. A maneira como Márcio descreve o cotidiano do seu personagem dá a ideia de um eletrocardiograma de um coração agitado. Vou fazer um comentário para ajudar o leitor que não é gaúcho a se contextualizar. A história do Rio Grande Sul é cheia de episódios de revoluções paridas em brigas políticas envolvendo famílias de criadores de gado. Por muitos anos, elas guerrearam nas coxilhas gaúchas divididas em dois grupos políticos: os maragatos, que se identificavam pelo uso de lenços vermelhos em volta do pescoço, e os chimangos, que usavam lenços brancos.
Entre as famílias de chimangos e maragatos não existia namoro e muito menos casamento. Eles não caminhavam pela mesma calçada nas cidades. Nas lutas, os vencidos eram degolados. No Rio Grande do Sul, a disputa sempre foi polarizada: na política, no futebol e em quase todos os setores do dia a dia. E era neste ambiente polarizado entre os dois principais times do estado, o Grêmio e o Colorado, que na década de 70 Paulo Sant’Ana usava os seus espaços no jornal Zero Hora, na Rádio Gaúcha e na RBS TV para defender o seu time do coração: o Grêmio. Ele foi muito corajoso. Eu e meus irmãos torcemos para o Colorado. Lembro-me que quando Sant’Ana aparecia na tela, meus irmãos desligavam a TV ou mudavam de canal. Para ser justo. Ele defendia o seu time. Mas também era implacável quando apontava os erros do Grêmio. Como disse o Márcio, o seu personagem era um gênio. E soube se fazer respeitar por todos. Era um homem da noite, amigo de Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974), que dispensa apresentações. Aliás, Márcio descreve os botecos e os cabarés da Porto Alegre antiga com uma incrível riqueza de detalhes. Sant’Ana também era viciado em jogo, cigarro, bebidas, belas mulheres e pela redação dos jornais da época das máquinas de escrever. O autor conta as histórias do seu personagem nestes diferentes mundos sem torná-lo um herói ou vilão. Apenas o descreve como um passageiro destes diferentes mundos. A conclusão que tirei é que a genialidade do personagem o tornou respeitado pelos seus amigos e inimigos. Coisa rara no território gaúcho. A diagramação do livro também ajudou a contar a história. É atraente e facilita a vida do leitor. Os capítulos não são longos e há um detalhe, o qual descrevo como uma grande sacada. Existe um quadrinho com título, no canto da página, chamado de “Definições de Paulo Sant’Ana”. Assim ele define Saudade. “A saudade se situa numa faixa de terreno entre o deleite e o amargor na alma humana”. E a Amizade: “Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos e, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus verdadeiros amigos”. Esses quadrinhos dão uma impulso muito legal à narrativa.
Sou um repórter, portanto, um contador de histórias. Daí ter optado por falar do trabalho do Márcio analisando a estrutura usada para apresentar ao leitor Paulo Sant’Ana – o gênio indomável. O trabalho foi apresentado de uma maneira inovadora, tanto no texto quanto nas fotos e na diagramação. Não são estruturas diferentes, elas conversam entre si. No meu andar de repórter pelo mundo tenho conversado com professores de jornalismo, pesquisadores da arte da reportagem e muitos colegas nas mesas dos botecos sobre as transformações que estão acontecendo na maneira de se escrever uma história. Estas mudanças não começaram hoje, sempre existiram na nossa lida. Só que, diferentemente do que aconteceu com a minha geração de repórter (comecei em 1979), que teve tempo de amadurecer na redação e aprender com as “putas velhas”, como chamávamos os repórteres antigos e experientes, as “manhas” da profissão, nos dias atuais isso não acontece mais. A carreira de um jovem repórter pode durar uma semana. Tal é a enxurrada de trabalho que atiram no seu colo. A maneira como Márcio conta a história é interessante e pode ajudar os que estão começando na profissão. Trabalhei como repórter especial de Zero Hora de 1983 a 2014. Ficava pouco na redação porque me especializei em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras, o que me mantinha sempre viajando. Vou contar duas histórias em que usei o prestígio do Sant’Ana em meu benefício. Nos anos 80, sempre que acontecia uma ocupação de terra pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Brigada Militar montava barreiras nas estradas. Eu tinha pressa para chegar à área invadida porque representava o jornal local. Era uma questão de honra não levar um “furo” de um colega de outro estado. Aliás, por ser do jornal local, os policiais militares eram mais detalhistas comigo e a minha equipe. Naquela época não existia internet. Logo, o que saía nos jornais de fora do estado não interessava muito. Foi em uma dessas correrias que um jovem oficial da BM me perguntou se eu conhecia o Sant’Ana. Assim respondi ao jovem oficial: “É meu amigo, falamos quase todos os dias. Vou dizer para ele que falei com o senhor”. Depois que comecei a usar o prestígio do Sant’Ana a minha vida foi facilitada nas barreiras policiais. A outra história, não lembro exatamente o ano, mas creio que foi em 1988, aconteceu no interior do município de Taquari, a pouco mais de 100 quilômetros de Porto Alegre. Fui lá fazer uma reportagem sobre um grupo de crianças que dizia ter visto uma aparição de Nossa Senhora, perto de uma pequena árvore chamada chá de bugre. A história rolou a semana inteira. Um dia, eu estava na redação fechando uma matéria e o Sant’Ana se aproximou e me perguntou sobre a história da santa. No domingo, logo cedo, eu e o fotógrafo estávamos no local da suposta aparição para fazer a cobertura. Havia muita gente. No meio da multidão estava o Sant’Ana. De maneira discreta, fez as suas orações e voltou para Porto Alegre.
Para arrematar a nossa conversa. A maneira como Márcio conta a história do Sant’Ana merece ser estudada e refletida, em especial pelos jovens repórteres. Ela pode ser usada tanto para fazer um livro quanto uma notícia do dia a dia. Apesar de todas as novas tecnologias que povoam o dia do jornalista, a maneira de contar a história faz a diferença entre o sucesso e o fracasso na profissão. Boa leitura.