O “novo normal do clima”, a falta de energia elétrica e as redações dos jornais

Fiscalização da execução das podas evitaria muitos problemas Foto: EBC

A segunda-feira (15) começou como um típico dia de final de primavera em Porto Alegre (RS): quente e de céu limpo. Na semana anterior, os gaúchos e o restante do país assistiram perplexos aos relatos nos noticiários das vítimas da devastação causada por um ciclone extratropical que varreu a cidade de São Paulo, deixando um saldo de destruição. Só para os registros: na quarta-feira (10), mais de 2,2 milhões de lares paulistas estavam sem a energia elétrica fornecida pela Enel, uma multinacional italiana. Muitos consumidores ficaram sem luz por mais de cinco dias. Uma situação inimaginável para os moradores de São Paulo, principal cidade da América do Sul e um importante centro econômico do mundo. Inimaginável, mas muito conhecida dos gaúchos. Em maio de 2024, chuvas e ventos destruíram cidades inteiras no Rio Grande do Sul. A Região Metropolitana de Porto Alegre, formada por 34 municípios onde vivem 4,1 milhões de habitantes, foi devastada. Inúmeras áreas permaneceram alagadas durante semanas, e boa parte da população ficou dias sem energia elétrica, que na região é distribuída pela CEEE EquatorialNo final de 2023, outras duas enchentes de grandes proporções já haviam atingido 478 municípios dos 497 gaúchos. O saldo dessas três catástrofes: 186 mortes, 27 desaparecidos e bilhões de reais de prejuízos provocados pela destruição da infraestrutura rodoviária, fábricas, casas, lavouras e outros patrimônios. A tragédia gaúcha esculpiu quatro palavras nas manchetes dos jornais: “novo normal do clima”, que significa que eventos climáticos extremos, antes escassos, se tornaram rotina devido as alterações no clima, provocadas pela destruição do meio ambiente.

As primeiras vítimas do “novo normal do clima” foram os consumidores de energia elétrica, que são abastecidos por sistemas de distribuição antigos, carentes de manutenção e com muitos outros problemas. Citei a Enel e a CEEE Equatorial por serem as duas mais faladas na imprensa. Mas elas são apenas a ponta de um enorme e complexo iceberg. Claro que os problemas climáticos trazem outras dores de cabeça. Mas a energia elétrica é a que mais incomoda por ser a viga que sustenta todo o nosso modo de vida. Sejamos práticos. Adianta nós jornalistas centrarmos a nossa atenção para cobrar de vereadores, prefeitos e outras autoridades planos de obras grandiosas para solucionar os problemas causados na distribuição de energia pelo “novo normal do clima”? Não podemos deixar de cobrar. Mas lembro que as grandes obras demandam tempo, e tempo é tudo que não temos. Vou contar uma história. Lembram que abri a nossa conversa citando a segunda-feira, 15 de dezembro? Pois bem. Naquele dia, eu estava escrevendo uma matéria quando o alarme da Defesa Civil tocou no meu celular. Eram 15h30min. O texto dizia o seguinte: “Alerta Severo. Defesa Civil RS: Alerta Vermelho para tempestade com rajadas de vento acima de 90 km/h na próxima hora. Abrigue-se longe de árvores, placas e postes de energia”. Assim que o alarme parou de tocar olhei em direção ao Leste e vi que o céu estava limpo, sem nuvens. Achei que o vento não passaria pela área da cidade onde fica a minha casa, na zona Sul de Porto Alegre. Estava enganado. Meia hora depois de receber o aviso escutei o rugido do vento e corri para as janelas da frente da casa, que dão vista para o Noroeste. Da janela, olhei para o lado do Guaíba e vi o céu encoberto por nuvens pretas. E logo começou a soprar um vento que me obrigou a correr para fechar as janelas e portas. Não sei a que velocidade a ventania passou. Mas foi grande e durou cerca de meia hora. A minha grande preocupação era com a energia elétrica. Tive sorte por não ter tido problemas. Mas muitos tiveram na área de concessão da CEEE Equatorial. No pico da ventania, pelos menos 254 mil clientes foram afetados. Nas 24 horas seguintes, a falta de energia foi resolvida. Não sabemos quando vai acontecer o próximo evento climático severo. Só temos uma certeza: ele vai acontecer. Então? O que nós jornalistas podemos fazer para pressionar pela diminuição da vulnerabilidade do sistema de distribuição de energia elétrica?

Os técnicos aconselham a tornar as redes elétricas subterrâneas. Como disse, esta é uma obra de longo prazo. E não sabemos quando acontecerá a próxima tempestade. Portanto, temos que encontrar uma solução rápida. É o seguinte: tanto em São Paulo quanto em Porto Alegre e nas outras capitais e cidades de grande e médio porte, o problema das redes elétricas é a falta de manutenção adequada. Existem muitos postes antigos que sustentam um emaranhado de fios. Também não há planos eficientes para a poda das árvores que cercam as redes elétricas. Se fossem cumpridos os programas de podas muitos problemas seriam evitados. Quem duvidar, basta olhar as imagens deixadas pelos rastros das tempestades. Podemos ajudar também não deixando desaparecer das páginas dos jornais o acompanhamento das obras de reconstrução dos estragos feitos pelos desastres climáticos. Vou citar um caso que considero fundamental para a segurança de Porto Alegre. O sistema contra as cheias da capital gaúcha foi construído no início da década de 1970 e se estende por 68 quilômetros. É formado por diques de contenção e o muro da Avenida Mauá (uma parede de concreto de três metros de altura com 2,6 quilômetros de extensão, com 14 comportas que são fechadas na subida das águas do Guaíba, protegendo a área central da cidade) e 23 estações de bombeamento de água. Funciona assim: os diques, o muro e as comportas mantêm as águas do Guaíba fora da cidade, e as casas de bombas mandam para o Guaíba as águas da chuva e dos esgotos pluviais. Em 2024, o Guaíba subiu de 5,37 metros, sua nova máxima histórica, bem acima da maior até então registrada, na enchente de 1941, quando subiu 4,76 metros. Em 2024, a soma da enchente inédita e a falta de manutenção dos equipamentos causou o colapso do sistema contra as cheias. Reparos estão sendo feitos e até algumas modernizações. A pergunta que ainda não foi respondida: os consertos realizados conseguem suportar a próxima cheia? Lembro que o colapso do sistema alagou o Centro Histórico da Capital durante dias, causando muitos prejuízos. Pela importância do assunto, merecia ser mais lembrado pelos jornais.

Para arrematar a nossa a conversa. Trabalhei em redação de 1979 a 2014. Fiz muitas coberturas de grandes calamidades climáticas e sei muito bem como é a correria dentro das redações. Nos dias atuais, continuo andando pelas estradas dos sertões em busca de histórias para contar. E estou do outro lado do balcão, entre os leitores, portanto posso ver no meio das vítimas o drama causado por esses eventos. Nunca as pessoas dependeram tanto das redações para pressionar pelos seus direitos. Toda essa situação é uma grande oportunidade para a imprensa mostrar a sua relevância para os leitores. Para finalizar o papo. Um repórter das antigas que fazia cobertura de assuntos policiais me lembrou o seguinte. Se o apagão em São Paulo, causado pelo “novo normal do clima”, tivesse acontecido na semana das eleições influenciaria o resultado das urnas. Ele tem razão. Pesquisas mostram que muitos eleitores escolhem em quem votar no caminho até a urna. Normalmente são partes importantes desses votos que decidem a eleição.

Deixe uma resposta