O que aprendi como repórter no dia a dia das redações dos jornais

A liberdade de imprensa não foi concedida, nós lutamos por ela todos os dias Foto: EBC

Não me lembro de detalhes. Mas me lembro do enredo da história. Comecei a trabalhar em redação em 1979. Mas bem antes de entrar na faculdade, lá por 1974, eu já frequentava os botecos de jornalistas. Eram tempos pesados para a profissão. O país era governado pelos militares que, em 1964, aliados com a extrema direita e com o apoio do governo dos Estados Unidos, deram um golpe de estado e derrubaram o presidente da República João Goulart (1919 – 1976), o Jango, gaúcho de São Borja, do antigo PTB. Não sei se foi o primeiro decreto dos militares. Mas tenho certeza que estava entre eles: a instituição da censura prévia à imprensa. Que persistia em 1985, quando acabou o regime militar, deixando um rastro de presos políticos mortos, desaparecidos e torturados e uma bagunça na economia que resultou na hiperinflação. E mesmo em 1988, apesar da publicação da Constituição ter oficializado a redemocratização, ainda sobrevivia nas redações a insegurança em saber até onde se podia ir com as reportagens. Afinal das contas, muitos dos tinham servido ao regime militar continuavam na administração do país, graças à Lei da Anistia, de 1979 – matérias na internet.

Lembro-me que, na época, ainda era comum figuras que tinham sido proeminentes no regime militar ligarem para as redações pedindo a “cabeça do repórter”, por terem entendido que uma matéria “tinha avançado o sinal”. Conheço bem esta realidade porque fazia a cobertura de conflitos agrários, um assunto considerado “explosivo” pelos militares. Portanto, a minha cabeça era muito cobiçada. O caminho percorrido pelas redações rumo aos novos tempos de liberdade de imprensa foi documentado em muitos livros, artigos e lembranças que sobrevivem principalmente na memória dos velhos repórteres. Um dos melhores livro que li e que recomendo é Todo Aquele Imenso Mar de Liberdade: A dura vida do jornalista Carlos Castelo Branco, escrito por Carlos Marchi (1930 – 2004). Castelo Branco, o Castelinho (1920 – 1993), como era conhecido, foi um ícone entre os comentaristas políticos brasileiros. Na década de 80, fui receber um prêmio de jornalismo em Brasília e a solenidade atrasou uma hora e pouco. Fiquei a maior parte deste tempo conversando com o Castelinho. Saí da conversa com “as baterias carregadas”. Como disse, por lidar com assuntos da reforma agrária, o meu cotidiano de repórter era complicado. Nos últimos 37 anos, a democracia brasileira se consolidou e as redações tornaram-se um lugar fértil para se discutir e transformar em matérias e livros todos os temas que surgirem. Sou testemunha disso. Ficou mais fácil trabalhar.

Entendi que estávamos vivendo novos tempos com o desfecho dos acontecimentos que envolveram o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e 36 ex-ministros e funcionários de alto escalão do seu governo que foram investigados e indiciados pela Polícia Federal (PF) por uma série de eventos que se iniciaram em novembro de 2022 e terminaram em 8 de janeiro de 2023 e tiveram como objetivo dar um golpe de estado. Bolsonaro concorreu à reeleição em 2022 e foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Toda a história é contada nas 884 páginas do relatório final da investigação da PF. Os 37 indiciados se tornaram réus e estão sendo julgados pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). As sentenças de oito, incluindo o ex-presidente, já transitaram em julgado e sete estão presos, cumprindo as penas. Um deles, o ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro e ex-delegado da PF Alexandre Ramagem, 53 anos, condenado a 16 anos de cadeia, está foragido nos Estados Unidos. O julgamento do restante dos envolvidos na tentativa de golpe está em diferentes estágios. A condenação de Bolsonaro, de generais (e militares de outras patentes) e de policiais (civis, militares e federais) pela Primeira Turma inaugurou uma nova era na política do Brasil, que pode ser resumida em poucas palavras: atentar contra a democracia dá cadeia. Estas prisões consolidaram nas redações a ideia que nós jornalistas não só podemos escrever sobre todos os assuntos como temos o dever de ficarmos atentos aos acontecimentos. Lembro que, nos dias atuais, na maioria das redações os repórteres enfrentam problemas de falta de pessoal, verbas para viajar, supercarga de trabalho e salários baixos. Mas estão conseguindo dar conta do recado. E 2026 não será um ano fácil para trabalhar na redação devido a polarização entre Lula, que concorre à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, que substitui o pai como candidato do bolsonarismo – além de preso, o ex-presidente foi declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mas os jornalistas vão se sair bem na cobertura das eleições porque têm a principal ferramenta de trabalho: a liberdade de imprensa. Ela não nos foi dada de graça. Foram longos 61 anos de lutas, em que colegas perderam seus empregos, foram presos, torturados e mortos. Essas palavras não foram soltas no ar para impressionar. Saíram da convivência com os colegas na redação e nas mesas dos botecos. Nos dias de hoje, muitos cientistas estão estudando as entranhas do jornalismo. Há uma questão na nossa profissão que merecia ser melhor pesquisada: a paixão que temos pelo jornalismo. É ela que nos dá força para pegarmos a caneta e os nossos bloquinhos de anotações e irmos à luta. Sempre que tenho oportunidade eu lembro da paixão que temos pela nossa lida.

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