Bolsonaro indicará um civil ou um militar para vice do seu filho contra Lula?

Em 2026, os bolsonaristas continuarão fazendo apologia aos torturadores de 64? Foto: EBC

O assunto ainda não começou a ser especulado em público pela imprensa. Mas nos bastidores já circulam três conversas bem adiantadas sobre quem será indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, para ser o vice na chapa do seu filho, o senador do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro (PL), 44 anos, que em outubro concorrerá à Presidência da República contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, candidato à reeleição. As três conversas estão bem alinhavadas. Uma delas circula entre os radicais do movimento bolsonarista, conhecidos como “raízes”, composto basicamente por militares da reserva e reformados saudosistas do golpe de 1964. Eles foram importantes na eleição de Bolsonaro, em 2018. Inclusive indicaram o vice, o general Hamilton Mourão, 72 anos, atualmente senador do Rio Grande do Sul pelo Republicanos. Pelo apoio, receberam como recompensa 6 mil cargos na administração federal, entre eles ministérios e postos de alto escalão. Bolsonaro voltou a indicar um militar para vice em 2022, quando concorreu à reeleição, o general Walter Braga Netto, 68 anos. Agora a situação mudou. A maioria dos líderes militares que estavam empregados no governo Bolsonaro integra um grupo de 37 pessoas que, chefiados pelo ex-presidente, montou uma organização criminosa que tinha como objetivo dar um golpe de estado. Todos estão sendo julgados pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), sendo que oito já foram condenados e estão cumprindo pena, entre eles Bolsonaro, sentenciado a 27 anos de cadeia, e Braga Netto, a 26 anos de prisão. Os julgamentos dos demais integrantes do grupo ainda estão em andamento.

O golpe de estado falhou por uma série de motivos – toda a história da investigação feita pela Polícia Federal (PF), que gerou um relatório final de 884 páginas, está disponível na internet. O principal motivo do fracasso foi o fato dos comandantes da época do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, 68 anos, e da Força Aérea Brasileira (FAB), tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, 65 anos, não terem concordado. Esse episódio consolidou um racha que começou a se aprofundar nas Forças Armadas em 1985, quando os militares golpistas de 1964 foram substituídos pelos civis na condução do país. A consolidação deste racha na tentativa de golpe de 2022 mostrou à opinião pública que não era verdadeira a versão que o ex-presidente apresentava das Forças Armadas como um bloco único que concordava com as suas ideias. Na verdade, nunca foram. O bloco dos militares legalistas que defendem a profissionalização das Forças Armadas só cresceu depois da redemocratização do país. A questão agora é a seguinte. Se um militar ligado aos saudosistas de 1964 for o vice do Flávio, a chapa perde os votos dos moderados. Se não tiver um deles como vice, perde os votos da extrema direita, que são significativos. Como será resolvida esta questão, saberemos com o “andar da carroça”, como dizem os agricultores sulistas. A segunda conversa sobre o vice de Flávio é de autoria do senador Ciro Nogueira (PP- PI), 57 anos, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro e figura de proa do Centrão, como é chamado o grupo partidos que fazem parte do governo federal seja quem for o presidente da República. Nogueira pregava que o ex-presidente deveria indicar para concorrer contra Lula o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos. O governador foi ministro de Bolsonaro e é seu afilhado político. O senador pretendia ser o vice de Tarcísio. Dois anos antes de ser condenado pela tentativa de golpe de estado, o ex-presidente já tinha sido declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, na ocasião, se comprometeu com os seus aliados que indicaria alguém para concorrer em seu lugar. Contrariando os aliados do Centrão e da direita democrática, Bolsonaro indicou o filho mais velho para substituí-lo. Em público, os bolsonaristas “engoliram em seco” a decisão. Nos bastidores, tentam derrubar Flávio. Mas quem vai derrubar ou consagrar a sua indicação serão as próximas pesquisas eleitorais. As primeiras foram favoráveis ao senador em relação aos demais candidatos que disputavam a indicação do ex-presidente. Talvez por isso, Nogueira já trabalha para ser o vice de Flávio.

A terceira conversa que vem tomando corpo sobre o vice de Flávio Bolsonaro tem como autor o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, 65 anos. Atual secretário de Relações Institucionais do Estado de São Paulo, Kassab defende que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), 61 anos, fique com a vaga. Também é defensor da candidatura a presidente da República do governador gaúcho Eduardo Leite (PSD-RS), 40 anos. Ele aposta que Leite pode ser o “candidato da terceira via”. O PSD também controla três ministérios no governo Lula: Minas e Energia, Pesca e Agricultura. Olhando a geografia dos interesses políticos de Kassab, a ideia que se tem é que ele ainda não apostou a suas fichas em um possível destino para o atual quadro político. E está se preparando para vários desfechos. Isso significa que, seja qual for o cenário, ele estará no governo. Há um pano de fundo nessa história. Todos sabem que vivemos um daqueles momentos na história em que a extrema direita está mostrando a sua cara nas ruas, como fizeram na Alemanha na década de 30. E que o ex-presidente aprendeu a manejar com grande habilidade o discurso da extrema direita. Vamos dar uma olhada na sua carreira profissional. Ela começa em 1977, quando entrou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Em 1987, se envolveu em uma confusão e acabou preso. No ano seguinte foi transferido para a reserva como capitão. A vida militar do ex-presidente é esmiuçada no livro O Cadete e o Capitão, escrito pelo repórter Luiz Maklouf Carvalho (1953 – 2020), uma consulta obrigatória para entender Bolsonaro. Foi eleito vereador do Rio de Janeiro (1989 – 1990) e deputado federal (1991 – 2019). Todo a carreira parlamentar do ex-presidente foi lastreada entre as famílias militares. Com grande habilidade, ele soube enaltecer os feitos dos que haviam se envolvido com o golpe de 1964. Na época, uma parte considerável das Forças Armadas aliadas à extrema direita e apoiada pelo governo dos Estados Unidos derrubaram o presidente João Goulart, o Jango, gaúcho de São Borja, do antigo PTB.

Ao contrário do que aconteceu com os militares que deram golpe na Argentina (1976 – 1983), no Chile (1973 – 1989) e no Uruguai (1973 – 1985), que foram julgados, condenados e presos, os golpistas do Brasil foram anistiados – matérias na internet. Em 1985, quando saíram do poder, começaram a conspirar contra a democracia garantida pela Constituição em 1988. Foi nesse ambiente de conspiração que a carreira política do ex-presidente nasceu e prosperou. Ganhando espaço em páginas de jornais e nos noticiários de rádio e TV fazendo a apologia a personagens da ditadura, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932 – 2015), torturador que era conhecido como Dr. Tibiriçá. Bolsonaro cumpre pena por tentativa de golpe de estado. Duvido que mude o seu discurso referente à apologia aos torturadores de 1964. Se trocar, perde importante fatia da sua base eleitoral.

Deixe uma resposta