
Considerando o potencial que tinha para dar um “grande rolo”, até que saiu barato o tamanho do desgaste provocado na candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, a homenagem que recebeu da escola de samba Acadêmicos de Niterói, na noite de domingo (15), no sambódromo da Marquês do Sapucaí, no Rio de Janeiro (RJ). O enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o operário do Brasil” contou a história da família e da carreira política de Lula. Antes do desfile, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou dois pedidos de liminares dos partidos Novo e Missão, que alegavam que a homenagem era propaganda política. A relatora, a ministra Estela Aranha, 48 anos, disse não era possível deferir o pedido tendo em vista que o fato ainda não tinha acontecido. Mas advertiu que sua decisão não impede que no futuro os ministros possam vir a analisar a conduta dos citados. O governo tomou várias medidas para evitar problemas. Por exemplo, proibiu ministros de participar do desfile, estendendo o veto à primeira-dama Rosângela Lula da Silva, 59 anos, a Janja. O presidente esteve na Sapucaia, mas também visitou outros desfiles de Carnaval pelo país.
Na teoria, todos os arranjos foram feitos para evitar uma ação no TSE pedindo a impugnação da candidatura de Lula por propaganda eleitoral antecipada. Foi o que ouvi de deputados e líderes do PT com quem conversei na terça-feira (17), durante a 48ª Romaria da Terra, no Santuário do Caaró, em Caibaté, pequena cidade agrícola da região das Missões, noroeste do Rio Grande do Sul. Ali, entre o final do século 17 e meados do século 18, jesuítas espanhóis e guaranis fundaram os Sete Povos das Missões, comunidades autônomas, com produção agrícola, pecuária, oficinas artesanais e escolas onde os índios eram alfabetizados e catequizados no catolicismo. A Romaria da Terra é um evento religioso e social anual que defende a reforma agrária e a agricultura familiar. O tema deste ano foi “Os 400 anos de Evangelização Missioneira: Terra sem Males e Ecologia Integral”. Concordei com o que ouvi das lideranças do PT sobre os arranjos para evitar uma possível ação da oposição na Justiça Eleitoral porque assisti ao desfile pela TV e acompanhei pela imprensa toda a história. Na terça-feira, depois de participar da Romaria, percorri 500 quilômetros de volta a Porto Alegre, onde cheguei ao anoitecer. Para minha surpresa, começava a ganhar corpo nas redes sociais e nos noticiários a reação da oposição contra uma das alas que a escola de samba levou para a avenida, chamada “Família em Conserva”, que teria sido ofensiva às famílias da direita e aos evangélicos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, até agora o principal adversário de Lula na corrida presidencial, e seus seguidores batiam forte na tecla do desrespeito aos evangélicos, que representam cerca de 30% do eleitorado. É de conhecimento geral que Lula tem menos votos entre os evangélicos que o pai do senador, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. Preso em uma cela na “Papudinha”, uma unidade prisional que fica dentro do 19° Batalhão de Polícia Militar, no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF), onde cumpre uma pena de 27 anos por ter comandado uma organização criminosa que tentou dar um golpe de estado, o ex-presidente transferiu o seu legado político para Flávio. Acompanhei por algumas horas os noticiários e cheguei à conclusão que a história da “família em conserva” era “fogo de palha” e não se sustentaria por muito tempo. Principalmente porque Lula era convidado da escola, não tinha ingerência no enredo.
Cansado da viagem, fui dormir. Na manhã seguinte (quarta-feira, 18 ), descobri que estava enganado com o vigor da notícia. A história continuava ocupando espaço nobre dos noticiários. Lá pelo meio-dia a ideia que se tinha era de que Lula tinha sido engolido pelo episódio. Liguei para um amigo e repórter de São Paulo para ouvir a opinião dele. “Lembra dos plantões nos feriadões no teu tempo de redação?”, ele começou. “Era um desespero encher o jornal do dia seguinte porque nada acontecia. Agora, imagina: naquele tempo, nós só tínhamos a edição do próximo dia para preencher. Hoje, os plantonistas precisam ter matérias em cinco ou seis plataformas de comunicação que operam online. Em parte, essa repercussão deve-se ao desespero dos colegas em conseguir assunto para publicar. Tem que deixar a poeira baixar para saber exatamente o que aconteceu e o potencial que tem para causar problemas para Lula na campanha eleitoral”. Ele tem razão. Trabalhei em redação de 1979 a 2014. Lembro-me que, à medida que a digitalização avançava nos jornais, surgiam mais e mais plataformas que precisavam de manchetes e matérias. Agora, há um detalhe neste episódio que merece toda a nossa atenção. A estrutura de comunicação da oposição está organizada e trabalhando. Por que faço tal afirmação? Eles apostaram que Lula ia se complicar e deixar “uma bola picando” com a questão da propaganda eleitoral antecipada. Isso não aconteceu. Então ficaram atentos a outras oportunidades de complicar a vida de Lula e encontraram a história da “família em conserva”. Este caso ficou ocupando os espaços nobres dos noticiários até o final da tarde de quarta-feira, quando saíram os resultados da apuração dos desfiles das escolas da samba do Rio de Janeiro. Ganhou a Unidos do Viradouro. Este era o desfile de estreia da Acadêmicos de Niterói entre as escolas do Primeiro Grupo. Ela ficou em último lugar e foi rebaixada para o Segundo Grupo. Os bolsonaristas aproveitaram a derrota da escola para colar em Lula o título de “pé-frio”. O governo justificou que, das escolas que sobem para o Primeiro Grupo, 75% voltam para o Segundo Grupo. Por vários motivos, entre eles a falta de estrutura.
Antes de arrematar a nossa conversa, uma ironia da história. O construtor do sambódromo da Sapucaí foi o gaúcho Leonel Brizola (1922 – 2004), durante o seu primeiro mandato como governador do Rio de Janeiro (1983 a 1987; ele voltaria a governar o Rio entre 1991 e 1994). No segundo turno das eleições presidenciais de 1989, Brizola, que era mestre em colocar apelidos, anunciou o seu apoio a Lula, que concorria contra Fernando Collor de Mello, da seguinte forma: “Vou engolir o Sapo Barbudo”. Collor ganhou as eleições, e Lula, o apelido pelo qual, por muitos anos, foi lembrado por amigos e adversários. À sua maneira, Brizola e Lula eram “camaradas”. Collor também ganhou um apelido de Brizola naquela companha de 1989: “Filhote da Ditadura”. A máquina bolsonarista para publicar nas redes a sua versão dos acontecimentos sempre foi mais ágil e eficiente que a dos seus adversários, em especial o PT. Lembro o leitor que durante o governo Bolsonaro (2019 – 2022) funcionava no Palácio do Planalto uma central de fake news muito eficiente que foi apelidada pela imprensa de Gabinete do Ódio. A crença entre os jornalistas é que o Gabinete do Ódio voltou a operar. As eleições são em outubro: no dia 4, o primeiro turno, e no dia 25, o segundo. Até lá, muitos “rolos” vão acontecer. Mas serão aqueles rolos que acontecerem às vésperas das eleições que definirão quem será o próximo presidente do Brasil. Porque os eleitores que decidem as eleições escolhem em quem vão votar a caminho da urna.