
Há duas perguntas que os repórteres deveriam fazer aos candidatos a presidente da República que são as seguintes: qual é o seu plano para modernizar as Forças Armadas? E o que pretende fazer com a indústria bélica nacional? Geralmente, estes dois assuntos ficam de fora do debate político. Pensei neles porque na terça-feira (24) os jornais foram inundados por reportagens lembrando e avaliando os quatro anos da guerra provocada pela invasão da Ucrânia por tropas da Rússia, em 24 de fevereiro de 2022. O presidente russo, Vladimir Putin, 73 anos (cujo mandato vai até 2030), acreditava que a operação militar seria rápida e fácil. Enganou-se e entrou em um atoleiro que já custou 2 milhões de mortos, feridos e desaparecidos. Qual a relação da lembrança dos quatro anos de guerra na Ucrânia com as perguntas que devem ser feitas aos candidatos à Presidência da República? Vamos falar sobre o assunto.
A guerra entre Rússia e Ucrânia é um divisor de águas na história dos conflitos bélicos, têm afirmado especialistas no assunto. Tanto no uso de tecnologias de baixo custo, mas altamente eficientes, como é o caso dos drones (veículos aéreos não tripulados), quanto no emprego de novas técnicas de ataque e defesa. Por conta desse conflito, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, consolidou a sua posição de não se responsabilizar mais pela defesa dos territórios dos seus aliados, como os americanos vinham fazendo desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Vamos começar a conversa por Trump. Ele deixou bem claro que, a partir de agora, cada país precisa cuidar da sua segurança. Quem não levar a sério as palavras do presidente americano pode estar cometendo um erro. Não é por outro motivo que os 32 dirigentes dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) aumentaram os investimentos nas suas forças armadas. Os Estados Unidos são o principal membro da OTAN, a aliança militar fundada em 1949 para fazer frente ao Pacto de Varsóvia, liderado pela extinta União Soviética. Lembro que no seu primeiro mandato (2017 – 2021) Trump já tinha cogitado que cada país cuidasse da sua defesa. Na época, o tema não prosperou. Ao assumir o segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, voltou ao assunto. Agora com maior ênfase, estimulado pela guerra na Ucrânia. Desde o início do conflito, a OTAN, incluindo os Estados Unidos, na época ainda sob a presidência de Joe Biden (democrata), 82 anos, fornece equipamentos e ajuda econômica aos ucranianos. Ainda durante campanha eleitoral, em 2024, Trump prometeu para o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, 48 anos, acabar com a guerra com um telefonema para o seu amigo Putin. Após as eleições, a conversa do presidente americano com seu colega ucraniano mudou de rumo. Algumas semanas depois da posse, em 28 de fevereiro de 2025, Trump e o vice-presidente J. D. Vance, 41 anos, tiveram uma áspera reunião de 45 minutos com Zelensky no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, D.C.
Os 10 primeiros minutos de conversa foram normais. Mas o restante foi ocupado por um intenso bate-boca. Diante da imprensa, Trump e Vance acusaram Zelensky de estar iniciando a Terceira Guerra Mundial. Falando em um tom duro, os dois tentaram convencer o ucraniano de que não havia como derrotar as tropas russas. E o avisaram que a Ucrânia tinha uma dívida com os Estados Unidos de 300 bilhões de dólares pelo fornecimento de equipamentos, munição e outros produtos. Assisti ao bate-boca pela televisão e confesso que não acreditava que aquilo estava realmente acontecendo. Trump é amigo e admirador de Putin e tem feito inúmeras reuniões tratando da paz com os dirigentes russo e ucraniano. Até agora, foi só conversa jogada fora. O caso é o seguinte. Independentemente de Trump eleger ou não o seu sucessor à Casa Branca nas eleições de 2028, a história dos americanos não pagarem mais pela segurança dos seus aliados veio para ficar, é a opinião dos especialistas. Argumentam que esse compromisso tinha razão de ser durante a Guerra Fria (1947 – 1991), quando o mundo era dividido em dois blocos: o comunista, liderado pela União Soviética, e o capitalista, capitaneado pelos Estados Unidos. Usando o linguajar da época, o Brasil era “satélite” dos Estados Unidos. Nos anos 90, aconteceu a globalização da economia e a integração dos mercados. Atualmente, as maiores potências militares e econômicas são Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia (27 países). Resumindo a conversa. Na Guerra Fria, os países eram ligados por ideologia, e foi esse o principal motivo que levou os Estados Unidos a financiar vários golpes de estado na América do Sul. Inclusive no Brasil (1964 – 1985), onde a ditadura militar deixou um rastro de torturas, mortes, desaparecidos e uma bagunça na economia que resultou na hiperinflação dos anos 80. Nos dias atuais, os países são unidos por interesses econômicos. O Brasil é dono de um manancial respeitável de água potável, petróleo, minerais (segundo do mundo em terras raras) e um parque industrial diversificado.
Para encerrar a nossa conversa. Não é a primeira vez que falo sobre a necessidade da imprensa pautar a questão da modernização das Forças Armadas no debate político. Tratei do assunto em setembro de 2025 no post Imprensa sabe quais são as carências de equipamentos das Forças Armadas? Surgiu uma oportunidade e voltei a tratar do assunto. É improvável que uma tropa estrangeira tente retirar as riquezas do país na “mão grande”. O inimigo é outro. São as organizações criminosas brasileiras, aliadas com as estrangeiras, que estão montando pequenos territórios nas grandes cidades do país e nas zonas de fronteira. Há locais na Floresta Amazônica em que, para transitar, é necessário ter autorização destas organizações. As polícias civil, militar e federal não têm como garantir a segurança das nossas fronteiras. Eu conheço bem o problema. Organizações criminosas estabeleceram naquelas regiões grandes depósitos de cocaína, munição e armamentos pesados, e de lá abastecem quadrilhas espalhadas pelo Brasil e outros países. Portanto, é do interesse de todos conhecer o plano dos presidenciáveis para a defesa do território nacional.