Como os eleitores de Trump reagirão a uma guerra prolongada com o Irã?

O ministro de Israel aposta em um Irã dividido, Trump só quer alguém para negociar Foto: EBC

Nos próximos dias deverá se ter uma ideia do rumo que vai tomar a guerra dos Estados Unidos e seu aliado Israel contra o Irã. Independentemente do desdobramento do conflito, Trump já está sendo acusado de ter colocado os interesses de Israel acima dos Estados Unidos. Pesquisas mostram que os americanos reprovam o confronto com o Irã porque temem que ele se torne mais uma “guerra interminável” no Oriente Médio. Ainda têm na memória a invasão do Iraque, que começou em 20 de março de 2003, se estendeu por outros países da região e só terminou oficialmente mais de oito anos depois, em dezembro de 2011, com a retirada das últimas tropas americanas. Entrou para a história como a “Guerra ao Terror”, que os americanos deflagraram após os ataques de 11 de setembro de 2001 realizados por 19 terroristas suicidas da Al-Qaeda, a organização comandada pelo saudita Osama bin Laden (1957 – 2011). Os terroristas sequestraram quatro aviões com passageiros, jogaram dois deles contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e um no prédio do Pentágono, a sede do Departamento de Defesa e do comando militar dos Estados Unidos, em Washington (D.C.) No último avião, que provavelmente seria jogado contra a Casa Branca, os passageiros entraram em luta corporal contra os sequestradores e a aeronave acabou caindo em um campo na Pensilvânia. Naquele 11 de setembro morreram 2.605 americanos, além de 372 cidadãos de várias nacionalidades, num total de 2.977 pessoas.

Na longa Guerra ao Terror morreram 7 mil soldados americanos. Uma boa parte dos eleitores de Trump votou nele porque acreditou na promessa de que os soldados americanos não se envolveriam em outra guerra sem fim. Não foi por outro motivo que o primeiro-ministro de Israel, o experiente político Benjamin Netanyahu, 76 anos, na quarta-feira declarou que o conflito com o Irã “não será uma guerra sem fim”. Vários secretários (ministros) de Trump disseram que o presidente estava no controle da situação. Aqui há um fato que os colegas repórteres precisam levar em conta. No primeiro mandato (2017 – 2021), Trump foi boicotado por uma aliança entre pessoas do seu partido e funcionários de carreira do governo. Para evitar que isso se repetisse no segundo mandato, ele tomou o cuidado de só colocar em postos-chave da administração quem é fiel a suas ideias. Resultado: o presidente não tem quem discorde dele no seu governo. Seja qual for a sua ação, mesmo que contestada pelos eleitores, de imediato um secretário vem a público defendê-lo e elogiá-lo. Tratei do assunto no post de 30 de janeiro Truculência dos agentes da Imigração pode custar a Trump a maioria do Congresso? Tenho acompanhado o passo a passo do confronto pelas redes sociais, jornais e noticiários de TV e trocado ideias com colegas repórteres. A tese defendida por Trump e pelo primeiro-ministro de Israel aposta que a oposição aos aiatolás que governam o Irã vai aproveitar a confusão criada pelos bombardeios e tomar o governo. Dificilmente isso acontecerá. Por quê? O aparato de repressão do regime ainda está intacto. Nas últimas manifestações, os policiais mataram muitas pessoas – matérias na internet. Do lado dos aiatolás, a guerra tem como objetivo acabar com Israel e os Estados Unidos. Do lado de Trump e Netanyahu, o objetivo é dar um fim nos aiatolás. Duas posições extremadas. O Irã é governado pelos aiatolás desde a Revolução Islâmica de 1979. No último sábado, (28) aviões americanos e israelenses bombardearam a capital Teerã e vários outros alvos, e mataram o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, 86 anos. Os dirigentes iranianos estão em um processo de escolha do sucessor, que deverá ser o filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei (56 anos). Os militares israelenses já avisaram que ele será eliminado.

O primeiro-ministro de Israel aposta na divisão entre os iranianos. Trump teme a divisão e alega que é abrir caminho para que assuma o poder alguém ainda mais radical que os aiatolás. Ele lembra o que aconteceu no Iraque. Lá, os americanos derrubaram o ditador Saddam Hussein (1937 – 2006) e depois a Justiça iraquiana o condenou à forca, deixando um vazio no poder que serviu de combustível para o surgimento de grupos radicais como o Estado Islâmico – há abundância de informações sobre o assunto na internet. Um vazio no governo do Irã, que é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, traria muitos problemas para todos os países. Daí a preocupação do presidente americano com quem irá governar o país. Claro, ele não poderá repetir a solução que encontrou para substituir o governo da Venezuela. Mandou uma frota naval cercar o país, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, e depois enviou forças especiais furtivamente ao território venezuelano para prender o presidente Nicolás Maduro, 64 anos, e sua esposa Cilia Flores, 69 anos, que foram levados presos para Nova York, para serem julgados por tráfico de drogas. Maduro era um ditador, ficou no governo de 2012 até 2025. No seu lugar, Trump colocou a vice-presidente Delcy Rodriguez, 56 anos, mantendo praticamente intacta a estrutura do governo. Até agora, a solução está funcionando. No Irã, a história é outra. Vou repetir. Os aiatolás são contra a existência de Israel e descrevem os Estados Unidos como o “grande satã”. São clérigos de alto escalão, especializados na sharia (lei islâmica), e as autoridades máximas do Islã são consideradas “sinais de Deus”. Portanto, não tem negociação. Como disse, enquanto o primeiro-ministro Netanyahu aposta em um Irã dividido, Trump só quer alguém no governo com quem possa negociar. Por quê? Simples, a guerra eleva o preço do petróleo, que causa inflação. Portanto, coloca o seu governo em risco. Como a situação será resolvida? Saberemos logo. Li um comentário importante de um colega especializado em armamentos. Ele chamou a atenção para o seguinte: americanos e israelenses gastam milhões de dólares com mísseis de última geração para destruir drones (veículos aéreos sem piloto) suicidas disparados pelo Irã, que custam pouco mais de 300 dólares.

Para arrematar a nossa conversa. Os eleitores de Trump já deram sinal de que estão descontentes com o fato dele ter colocado os interesses de Israel acima dos americanos. Embora os secretários de Trump neguem que ele seja manipulado pelo primeiro-ministro de Israel, o fato é que ninguém pode afirmar até quando vai o atual conflito. Aliás, Trump tem dito que não tem prazo para acabar. Netanyahu não fala em prazo. Mas em objetivos. O maior dele é destruir o governo de aiatolás. Essa história vai longe.

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