
Desde que comecei a trabalhar como repórter cultivo um hábito que já me rendeu grandes reportagens e até livros. O de tempos em tempos sair a viajar pelo interior do Brasil e “jogar conversa fora” com as pessoas que encontro ao acaso pelo caminho e saber das suas preocupações. Claro que seria mais simples e produtivo analisar as pesquisas de opinião. Mas nada substitui um bom papo. Nos últimos 45 dias, fiz duas viagens pelo interior do Rio Grande do Sul. Andei pelas Missões e pelo Planalto Médio, duas regiões que se perfilam entre as mais produtivas do agronegócio brasileiro.
No atual momento, a grande preocupação é com os rumos que vão tomar a guerra dos Estados Unidos e seu aliado Israel contra o Irã. Uma das razões é que o Brasil importa entre 80% a 90% do adubo que consome, que vem da Rússia, China, Canadá e Estados Unidos. Qualquer problema com as rotas marítimas significa acréscimo no preço. A preocupação se estende ao transporte da produção, principalmente carne de frango, para clientes espalhados pelo mundo, em especial os que ficam na área de conflito. Em um restaurante, puxei assunto com um senhor. Conversa vai, conversa vem, descobri que trabalhava em uma grande empresa de grãos. O que ele falou achei muito interessante. Lembrou que existe uma competição muito grande entre os produtos agrícolas do Brasil e dos Estados Unidos. E que a confusão causada pela guerra nas rotas marítimas pode beneficiar os concorrentes. Também fiquei atento ao preço dos combustíveis. Em um posto, perguntei a um jovem que estava abastecendo como estava o preço. Disse que “normal”. Mas existe a preocupação que possa disparar ou haja escassez caso a guerra se prolongue. Na segunda-feira (9), jornais e agências de notícias destacaram que um impasse entre a Petrobras e as distribuidoras sobre o preço do diesel está reduzindo a oferta em estados como Rio Grande do Sul e Mato Grosso e paralisando a colheita de arroz e soja, que tem o seu pico entre março e abril. Para a maioria dos jornais, entretanto, o reflexo da guerra no agronegócio vem se limitando à análise de especialistas, sem o envio de repórteres ao interior, para conversar com os produtores. O que torna a cobertura discreta. Por tudo que temos publicado, esta semana será decisiva para o conflito no Oriente Médio. Nesta segunda-feira, os mercados financeiros tiveram um alívio após o presidente americano, Donald Trump (republicano), 79 anos, afirmar em entrevista à CBS News que a guerra está “praticamente no fim”. Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, 76 anos, têm ideias diferentes sobre o destino do conflito, principalmente no que se refere à substituição do líder máximo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, 86 anos, morto no ataque inicial de americanos e israelenses. Netanyahu aposta em um Irã politicamente dividido. Trump quer um Irã governado por alguém com quem ele possa negociar. O fato é o seguinte. A guerra está se alastrando por vários países da região. O que pode ser devastador para a economia mundial.
Outra conversa que começa a ganhar corpo pelo interior gaúcho é sobre as eleições de outubro. Só para esclarecer. Não perguntei para as pessoas em quem elas vão votar. Tal pergunta acabaria na hora com qualquer conversa espontânea. Porque eu precisaria revelar que sou repórter. Prefiro que o papo role livremente e lá pelo meio eu digo que trabalhei 40 anos em redação de jornal e que agora ando por aí procurando boas histórias para contar. E acrescento que escrevi alguns livros, sendo que o mais popular é O Brasil de Bombachas, que narra a saga dos colonos gaúchos pelas fronteiras agrícolas brasileiras. Na maioria das vezes não preciso fazer este discurso porque a conversa flui ao natural. Essas são as melhores. Pelo que percebi, os candidatos e seus assessores já andam pelo interior, principalmente nos fins de semana, quando os agricultores costumam se reunir para almoços coletivos e partidas de futebol, bolão e outros esportes. O gaúcho gosta de política, essa a minha opinião. E pelo que ouvi, ele anda procurado novos nomes para votar. Todos os partidos têm candidatos estreantes para deputado (estadual e federal). Falei com um jovem em um posto de combustíveis. Enquanto abastecia a sua moto, ele explicou: “O deputado representa a região, é o cara onde vamos bater à porta para resolver nossos problemas”. Quis saber se ele estava fazendo campanha para alguém. Respondeu que “sim.” Perguntei-lhe então se estava acompanhando o caso do Banco Master. Disse que este tipo de assunto é mais comum nas zonas urbanas. Na roça, a conversa gira sobre o preço da soja, dos insumos, do pedágio e outros assuntos ligados ao dia a dia do produtor. Andei pelas cidades pequenas e médias das Missões e do Planalto Médio e, realmente, a história do Master está circulando nos pontos tradicionais de encontro, aqueles onde se discute política entre goles de café e de chimarrão. Para lembrar o caso. No final do ano passado foi descoberto que o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, 42 anos, tinha causado um prejuízo de mais de R$ 50 bilhões para seus clientes e o setor bancário. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. Revelou-se que Vorcaro havia montado uma rede de influência e proteção que incluía políticos, jornalistas e até ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tratei do assunto, em 27 de janeiro, no post Recado do caso Master para as redações é repensar a cobertura da economia. Na última semana, foi noticiado que Vorcaro tinha a seu serviço Luiz Phillipi Mourão, 43 anos, conhecido como Sicário. Aqui uma explicação. Originário da palavra latina sica, uma pequena adega, o termo sicário modernamente designa os pistoleiros de aluguel dos cartéis mexicanos de drogas contratados para eliminar adversários e executar outros “serviços sujos”, como atacar jornalistas, furtar dados sigilosos do governo e por aí afora. Como seus pares mexicanos, Mourão também fazia alguns serviços sujos a mando de Vorcaro. Preso pela Polícia Federal (PF) na quarta-feira (4), ele enforcou-se horas depois numa cela da superintendência da PF em Belo Horizonte (MG) e teve morte decretada na sexta-feira (6). Há um inquérito em andamento sobre o suicídio e muitas matérias publicadas. Vorcaro está preso na Penitenciária de Segurança Máxima Federal, em Brasília (DF). Uma das justificativas para a prisão é que ele tem muita influência e pode atrapalhar a investigação.
Para concluir o nosso papo. A guerra do Irã e o caso Banco Master são assuntos que circulam com força nas rodas de conversa no interior. Lembro que quando comecei a trabalhar em redação, em 1979, as notícias chegavam ao interior pelos jornais impressos, levados da capital aos mais remotos municípios no bagageiro de ônibus, e pelas “rádios cachaça”, emissoras clandestinas, que operavam sem autorização legal, mas que em muitos casos eram as únicas fontes de informação de uma localidade. Hoje, basta tocar a tela do celular para ter acesso a imagens, sons e textos sobre qualquer assunto. Mas uma coisa não mudou. Nos casos de grande popularidade, como o escândalo do Master e a guerra no Irã, as novidades são contadas nas rodas de chimarrão e nos cafés como se fossem capítulos de uma novela.