Guerras contadas pela imprensa terminam. As ignoradas não têm fim

A inflação provocada pela guerra com o Irã encurralo o Trump Foto: EBC

Meses antes de ser disparado o primeiro míssil na guerra dos Estados Unidos e seu aliado Israel contra o Irã, a notícia de que haveria o disparo já era manchete de capa nos jornais pelo mundo afora. Por que o interesse da imprensa? A lista de motivos é grande. Mas os principais são por envolver os Estados Unidos, a maior potência econômica e militar do planeta. E pela localização geográfica de Israel e Irã, que ficam numa região que concentra alguns dos maiores produtores de petróleo e por onde passam rotas comerciais marítimas essenciais para o tráfego de todo o tipo de mercadorias, sobretudo entre a Ásia e o resto do mundo. Esta fileira de fatos me fez lembrar um conceito que me fui apresentado por um colega veterano de redação, que é conhecido como “as guerras esquecidas”. São conflitos que acontecem em vários cantos e têm um alto custo humanitário, mas por terem pouca relevância geopolítica são deixados de lado pela imprensa e, por consequência, se prolongam por anos e anos. Por curiosidade, pesquisei para saber se no mundo globalizado dos dias atuais ainda existem “as guerras esquecidas”.

Descobri que não só existem como continuam matando e forçando o deslocamento de milhares de civis. Os motivos permanecem os mesmos: religião, disputa por jazidas de minérios valiosos (petróleo, ouro, diamantes e, recentemente acrescentadas à lista, terras raras) e narcotráfico. Vou citar algumas destas guerras que já duram mais de uma década: Haiti, Sudão, Iêmen, República Democrática do Congo (leste), Myanmar e Sahel Africano, como é chamada a longa faixa de semiárido que cruza o continente de leste a oeste, ao sul do deserto do Saara. Ali vivem 80 milhões de pessoas distribuídas em países como Mali, Níger, Burkina Faso, Mauritânia, Chade, Sudão e Eritreia. Os detalhes de cada um dos conflitos são encontrados com facilidade “dando um Google”. Vou citar apenas uma informação sobre o conflito religioso nos países do Sahel Africano. É considerado o “epicentro do terrorismo global” pelo Relatório do Índice Global de Terrorismo (GTI, sigla em inglês), do Instituto para Economia e Paz. Em 2025, das 7.555 mortes que ocorreram no mundo por atentados terroristas, 3.885 aconteceram nos países do Sahel Africano, com destaque para Burkina Faso, Mali e Níger. Houve um aumento de dez vezes nas mortes nos últimos cinco anos. O relatório está disponível na internet. Nos dias atuais, as novas tecnologias de comunicação possibilitam o acompanhamento do dia a dia destas áreas remotas. Agora voltando à conversa que tive com o veterano na redação nos anos 90. Uma semana depois do papo eu estava dentro de um avião da Varig (empresa aérea gaúcha que operou entre 1927 e 2010), rumando para Luanda, capital de Angola, uma ex-colônia portuguesa localizada na costa ocidental da África. Angola tornou-se independente de Portugal em 11 de novembro de 1975. No dia seguinte, começou uma guerra civil que durou até 2002. Em 1975, o mundo ainda respirava os ares da Guerra Fria, conflito ideológico e econômico que desde o final da Segunda Guerra confrontava os Estados Unidos, capitalistas, e extinta União Soviética, comunista. Dessa forma, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) era apoiado pelos soviéticos, e a União Nacional para a Independência de Angola (Unita), pelos Estados Unidos e o Brasil, então governado por uma ditadura militar (1964 – 1985) e, usando o linguajar da época, um “satélite” dos americanos. No início, o envolvimento das superpotências foi decisivo para a escalada e o interesse pelo conflito. Mas com o fim da Guerra Fria, a partir do desmantelamento da União Soviética, em 1991, Angola deixou de ter relevância e, nos anos 90, estava na lista das “guerras esquecidas”. O MPLA e a Unita procuram outros parceiros para prosseguirem com os combates. O Brasil, já um país democrático, começou a fazer negócios com o MPLA, vendendo armas, munições, remédios, novelas (que fizeram o maior sucesso entre os angolanos) e outros produtos. E também mantinha negócios com a Unita. Na década de 90, eu já era um cara experiente na lida da reportagem. Por ser especializado em conflitos agrários, havia andado pelos rincões do Brasil e dos países vizinhos. Por isso, achava que conhecia a miséria. Não conhecia. Só fui conhecer em Angola, um país rico em petróleo, ouro e terras férteis para a agricultura. Os colonizadores portugueses levaram embora o que puderam quando foram expulsos. A Angola que conheci ainda existe por lá. O veterano da redação faleceu e sinto saudade das nossas conversas. Ele era um quadro histórico do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Outro conflito gestado pela Guerra Fria foi o do Vietnã. Até 1955, o país era uma colônia francesa. Depois, dividiu-se em Vietnã do Norte, apoiado pela União Soviética, China e outros países comunistas. E Vietnã do Sul, sob influência dos Estados Unidos, Austrália e outras nações capitalistas. Esse conflito começou como uma “guerra no fim do mundo”, mas tornou-se um dos importantes do século 20 pelo envolvimento crescente dos Estados Unidos. No seu auge, mais de 500 mil soldados americanos lutavam nas planícies e florestas do Vietnã. No final, morreram 1,3 milhão de vietnamitas e 58.220 soldados americanos. O Norte comunista ganhou a guerra e unificou o país. A imprensa teve um papel fundamental nos destinos do conflito. Era permitida a presença de repórteres nas linhas de frente, junto com as tropas em combate. Isso facilitou informar a opinião pública sobre os massacres que aconteciam. E isso fortaleceu o movimento contra a guerra na população americana. A “gota da água” foram os caixões de soldados americanos sendo exibidos diariamente nos noticiários de TV. Hoje, os militares americanos não permitem mais a imprensa no campo de batalha. Aqui tem uma coisa interessante. Um dos pontos fortes da campanha do presidente Donald Trump (republicano), 79 anos, foi prometer que os soldados americanos não participariam mais de nenhuma guerra. Na ofensiva contra o Irã, o que está causando indignação no americano é a inflação que começa a pesar no seu bolso, especialmente o preço dos combustíveis. No final de fevereiro, Estados Unidos e Israel bombardearam a capital do Irã, Teerã, e mataram a autoridade máxima do país, o aiatolá Ali Khamenei, 86 anos, Em março, o posto foi assumido pelo filho do aiatolá morto, Mojtaba Khamenei, 56 anos, que é bem mais radical que o pai. Claro que as Forças Armadas do Irã não são páreo para o poder militar de Estados Unidos e Israel. Mas estão espalhando a guerra por toda a região, usando uma tecnologia barata e eficiente, os drones (veículos aéreos não tripulados). No caso, drones suicidas de 300 dólares.

Colocando um ponto final na nossa conversa. A imprensa não está acompanhando os combates junto às tropas. Mas está informando a população sobre os danos causados por esta guerra na economia, que podem ser tão fatais como uma bomba. A atenção da imprensa é fundamental para a sobrevivência dos civis e para abrir o caminho para uma negociação da paz. Como a sua omissão, no caso das “guerras esquecidas”, é fatal para o massacre de civis. É simples assim.

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