
Indicado para concorrer em quatro categorias do Oscar 2026, saiu sem prêmio o filme brasileiro O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, 57 anos, estrelado pelo ator Wagner Moura, 49 anos. Faz parte do jogo, como diria o Capitão Nascimento, personagem muito popular do filme Tropa de Elite, interpretado pelo mesmo Wagner Moura. A 98ª cerimônia do Oscar foi assistida por milhões de pessoas ao redor do mundo e aconteceu no Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia (EUA), no domingo (15). Além da indicação ao Oscar, O Agente Secreto vem circulando há um ano pelo roteiro dos festivais internacionais de cinema, nos quais ganhou muitos prêmios. Toda a história do filme nos festivais vem sendo contada pelos jornais. Não vou “chover no molhado”, como se dizia nos tempos das barulhentas máquinas de escrever nas redações, e repeti-la.
Vou aproveitar o gancho do Oscar para conversar com os leitores e os colegas repórteres sobre a história que o filme conta. Ela é ambientada em um dos períodos mais sangrentos da ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985. E relata a pressão mental exercida pelo regime sobre as pessoas que conviviam com o medo de serem denunciadas aos agentes da repressão, presas e mortas. Eu vivi aquele tempo. Tenho 75 anos, quase meio século exercendo a profissão de repórter. Convivi com este medo na adolescência, na juventude e nos meus anos iniciais na redação do jornal. Tive colegas de escola e amigos presos. Em 1975, a perseguição do regime à imprensa resultou na prisão e assassinato do jornalista Vladimir Herzog (1937 – 1975) nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, órgão de inteligência, repressão, tortura e assassinato dos inimigos do regime. Não foi por acaso que o filme foi ambientado em 1977 pelo autor e diretor Kleber Mendonça. O que aconteceu naquele ano? A ditadura endureceu o regime com o “Pacote de Abril”, que fechou o Congresso, criou os senadores “biônicos” (indicados pelo governo, sem serem eleitos) e adiou a abertura política. Houve uma intensa mobilização estudantil, com a invasão da PUC-SP, entre outros acontecimentos. O enredo do filme é enxuto e criativo. Um ex-professor de tecnologia chamado Marcelo (Moura) foge de um passado violento em São Paulo (SP) e se refugia em Recife (PE), onde encontra o filho, um menino. Mas vive atormentado, acreditando que está sendo seguido pelos agentes da repressão. Assisti ao filme e notei que cenas e diálogos mostrados são muito fiéis ao que acontecia naqueles anos. Como disse, eu estava lá. Filmes como O Agente Secreto são importantes porque mostram para as novas gerações o horror que foram os 21 anos da ditadura militar. Nada é mais eficiente para contar uma história do que o cinema. No ano passado, o filme Ainda Estou Aqui, dirigido pelo cineasta Walter Salles, 69 anos, revelou a história real do deputado federal Rubens Paiva, do PTB. Cassado pelos militares logo após o golpe de 1964, Paiva foi preso em janeiro de 1971 e sumiu. Recebeu o Oscar de melhor filme internacional. Na ocasião, Salles dedicou o prêmio à viúva do deputado, Eunice Paiva, que criou os cinco filhos e nunca deixou de buscar o paradeiro do marido. As atrizes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro representaram o papel de Eunice.
Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto e outros filmes, documentários e livros são importantes para mostrar os horrores da ditadura militar. E para não permitir que 1964 se repita. Conversei sobre isso no domingo, por telefone, com um colega repórter, um veterano das editorias de política do final dos anos 1980. Claro, a conversa começou sobre a disputa do Oscar e o enredo de O Agente Secreto. E acabou migrando para as lembranças da redação daquela década de 80. Creio que por estarmos a poucos meses do primeiro turno as eleições de 2026, marcadas para 4 de outubro, quando serão eleitos presidente, governadores, deputados (estaduais e federais) e 54 senadores. Falamos por uma hora. Depois de desligar o telefone, fiquei pensado como eram as coisas na redação naquele início da redemocratização do país, um longo processo que culminou com a publicação da atual Constituição, em 6 de outubro de 1988. Na época, em anos eleitorais, a principal pauta dos jornais era se as eleições iam ou não acontecer. Vez ou outra surgiam boatos de que os generais estavam se organizando para voltar ao poder. Nos meses que antecederam o primeiro turno da eleição presidencial de 1989, em 15 de novembro, a boataria nas redações era de que o pleito “poderia não acontecer”. Aconteceu, e no segundo turno foi eleito Fernando Collor de Mello, 76 anos (idade atual). Em 1992, acusado de corrupção e outros crimes, Collor sofreu impeachment. Os boatos então eram de que o vice, Itamar Franco (1930 – 2011), não assumiria. Muitos lembravam um episódio que, em última instância, deu origem ao golpe militar de 1964. Em 1961, o presidente Jânio Quadros (1917 – 1992) renunciou ao cargo apenas sete meses após tomar posse, alegando que “forças terríveis” o impediam de governar. Houve uma mobilização da extrema direita, aliada com militares golpistas, para impedir que o vice-presidente, João Goulart (1919 – 1976), o Jango, gaúcho de São Borja, do antigo PTB, assumisse. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (1922 – 2004), iniciou um movimento civil e militar que ficou conhecido como Campanha da Legalidade, para garantir que a Constituição fosse cumprida. O movimento foi bem-sucedido, Goulart tomou posse, mas foi plantada a semente do golpe que o derrubaria alguns meses depois – há matérias e documentos disponíveis na internet.
No impeachment de Collor, o vice Itamar assumiu e fez um bom governo, elegendo o seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, 94 anos (idade atual). Com o passar dos anos, os boatos sobre a realização ou não das eleições desapareceram das redações. Mas outros surgiram. No auge da boataria, eu lembrava os editores que a grande notícia seria quando a cobertura eleitoral não fosse notícia. Com o tempo, perfilei-me entre os jornalistas que apostavam que nunca mais haveria um golpe de estado no Brasil. Tanto que, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, capitão do reformado do Exército, pregava a volta de 1964, eu dizia que era uma bravata. Estava enganado. Em 2022, após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, na sua tentativa de reeleição, Bolsonaro liderou um grupo de 36 pessoas da sua confiança que planejaram um golpe de estado. O golpe previa a realização de vários atos, que se iniciaram em novembro de 2022 e tiveram o seu ápice em 8 de janeiro de 2023, quando mais de mil seguidores do ex-presidente invadiram e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso, em Brasília (DF). Foram julgados, condenados e atualmente a maioria cumpre pena, inclusive Bolsonaro, sentenciado a 27 anos de cadeia. Não dá para relaxar.