Clima foi tenso nas famílias no primeiro Natal do governo Bolsonaro. Como será no de Lula?

Qual será o tom da discussão sobre as eleições municipais na ceia de Natal ? Foto: Reprodução

Foi preciso escolher as palavras para evitar confusão com os parentes e amigos nas tradicionais festas familiares de Natal e Réveillon. Essa foi a marca deixada ao final do primeiro ano de mandato do então presidente da República Jair Bolsonaro (PL). Na época (2019), era o auge do bolsonarismo, um movimento que reunia a direita democrática, a extrema direita, nazistas, terraplanistas, ocultistas e oportunistas de todos os quilates. E como serão as festas familiares no fim do primeiro ano de mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)?

Não tem como responder com exatidão a essa pergunta porque os tempos são outros na disputa política. Mas podemos especular com base nos fatos que estão sendo publicados diariamente nos noticiários. Vamos a eles. O bolsonarismo está em queda devido a um conflito interno entre os dois maiores grupos políticos que apoiaram o ex-presidente: a direita e a extrema direita – há uma abundância de matérias sobre o assunto na internet. Somam-se a esse fato outros três episódios que estão drenando o prestígio do ex-presidente, sendo que ele mesmo já reconheceu o prejuízo várias vezes. O primeiro foram as imagens dos enterros em covas coletivas, durante a pandemia, das vítimas da Covid. A Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19 (CPI da Covid), em relatório de 1,3 mil páginas, colocou as digitais do governo Bolsonaro nas mortes de 700 mil brasileiros pelo vírus. O segundo são as imagens da tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro, quando bolsonaristas quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF). E, por último, as cenas das joias que foram presenteadas ao Brasil e que o ex-presidente tentou se apropriar e mandou vender, como relatou em sua delação premiada à Polícia Federal (PF) o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid. Acrescente-se o fato do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter declarado o ex-presidente inelegível por oito anos. Valdemar da Costa Neto, 74 anos, experiente político e presidente do PL, acredita que Bolsonaro pode estancar a hemorragia do seu prestígio viajando pelo país fazendo campanha nas eleições municipais do próximo ano para eleger os candidatos do partido. Como disse, Costa Neto é um político cascudo. Ele sabe que a eleição municipal é a disputa mais acirrada no calendário eleitoral brasileiro. Portanto, é uma boa oportunidade de reacender a polarização entre o ex-presidente e Lula.

A estratégia de reativar a polarização entre Bolsonaro e Lula tem ocupado lugares nobres nos noticiários. Tenho as minhas dúvidas se vão conseguir reavivá-la durante as eleições municipais. Por quê? Viajando durante quatro décadas como repórter de lado a lado e de ponta a ponta pelo Brasil, fazendo reportagens, aprendi que as eleições municipais, sejam nas cidades pequenas, médias ou nas capitais, são dominadas pelos grupos políticos locais, que fazem as suas alianças sem levar em conta os interesses nacionais dos partidos. E não será a presença de Bolsonaro ou Lula no palanque que vai mexer nessas alianças. Sempre foi assim. Mas continuará sendo? Nessa situação, o manual do bom jornalismo manda que se vá a campo verificar. E uma boa oportunidade é durante as festas familiares de Natal e Réveillon do primeiro ano do atual mandato de Lula. Nessas ocasiões existem três assuntos que sempre aparecem: futebol, política e fuxicos. Lembremos que durante as festas do primeiro ano do governo Bolsonaro a barra pesou devido à polarização e foi necessário medir as palavras para evitar uma discussão com os parentes. Tudo indica que neste ano o ambiente estará mais leve. Mas como é véspera de eleições municipais, sempre é bom pegar leve porque é comum os vários grupos políticos locais terem representantes na mesma família. Antes de seguir a nossa conversa vou comentar uma crítica que ouvi de um pesquisador de estrutura de textos jornalísticos. Ele disse que nós jornalistas descrevemos os cenários onde acontecem os fatos de uma maneira que passa ao leitor a ideia de que aquela situação nunca vai mudar. Ele tem razão. Fazemos assim por muitos motivos, sendo o principal a questão de espaço, já que os noticiários são disputados por várias matérias. O que acontece realmente, todos nós repórteres sabemos, é que os cenários mudam a todo momento. Ainda mais em política, onde quem é adversário hoje pode ser um aliado amanhã. E o contrário também vale. O aliado de hoje pode ser o adversário de amanhã. Certa vez ouvi de um antigo político de Passo Fundo, importante cidade do interior gaúcho, que nos anos 50 as famílias não permitiam o namoro, muito menos o casamento, dos seus filhos com os “do outro lado”, como descreviam o partido adversário. A situação é inimaginável nos dias atuais.

Seja lá qual for o perfil político municipal que vai emergir nas próximas eleições a democracia brasileira está suficientemente organizada para lidar com eventuais excessos. Como ficou demonstrado no 8 de janeiro, em que os responsáveis pela tentativa de golpe de estado foram presos e as instituições continuaram funcionando. Arrematando a nossa conversa. O fato é o seguinte: desde a redemocratização, em 1985, quando terminou a ditadura militar que havia se instalado em 1964, as instituições democráticas vêm se fortalecendo no país. O que é um bom sinal. A liberdade de imprensa nesse processo é fundamental para manter os leitores informados do que acontece entre as quatro paredes dos poderes da República e seus arredores.

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