Mourão assume o discurso de Bolsonaro para não ser chamado de conspirador

Quem esperava que Mourão tivesse um discurso independente na reunião com os investidores sobre a devastação da Floresta Amazônica quebrou cara, ele se alinhou a política ambientalista do Bolsonaro. Foto: Reprodução

Um boa parte dos jornalistas brasileiros esperava que o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, tivesse um discurso mais afunilado com o pensamento mundial a respeito da preservação da Floresta Amazônica durante a videoconferência da qual participou na quinta-feira (9/07) com representantes de fundos de investimentos estrangeiros, que representam um capital de R$ 20 trilhões. Mourão não só defendeu a política do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como ainda elogiou o trabalho do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, uma figura odiada pelo movimento ambientalista internacional. A política de Bolsonaro para a preservação da floresta e da população indígena da região é considerada genocida pelos ecologistas do mundo inteiro. É justamente por causa disso os fundos deram um ultimato ao Brasil. O dinheiro desses fundos é essencial para a reativação da economia nacional pós-pandemia. Então, por que Mourão apagou fogo com gasolina?


Antes de responder à pergunta, vamos lembrar que no primeiro ano de governo o vice, que é general da reserva do Exército, na maioria das vezes explicava para os jornalistas os absurdos proferidos por Bolsonaro – há muitas matérias na internet. Durante a campanha, ele havia prometido ser o “escudo do capitão” – Bolsonaro é oficial da reserva do Exército. Logo que tomou posse, Mourão falava com agressividade. Mas depois foi baixando o tom e caiu no agrado dos jornalistas pela paciência que demonstrava na hora de explicar o que acontecia entre as quatro paredes do governo. Não foram uma nem duas. Mas por diversas vezes lembrou que os militares que faziam parte do governo eram da reserva. Não tinham mais nada a ver com as Forças Armadas. Mesmo quando, em meados do ano passado, as baterias do Gabinete do Ódio, como são conhecidas as pessoas que fazem parte do círculo pessoal do presidente, abriram fogo contra ele, acusando-o de várias coisas, principalmente no campo ideológico, o vice manteve a calma. E não se furtava a falar com a imprensa enquanto o presidente atirava pedras nos jornalistas. Parecia haver dois  governos: o de Bolsonaro e o de Mourão.


Agora respondendo à pergunta. Vamos lembrar que, em janeiro, Bolsonaro começou a perder prestígio político junto aos seus eleitores e sofreu um processo muito acelerado de desgaste de imagem devido às brigas que teve com os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, do Senado, Davi Alcolumbre, e com vários ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Mais de 30 pedidos de impeachment do presidente já foram apresentados na Câmara. Na época também se acelerava a investigação sobre corrupção no gabinete do então deputado estadual do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro, filho do presidente e que hoje é senador. O caso é conhecido como “rachadinha” – o chefe do gabinete de Flávio, Fabrício Queiroz, exigia que os funcionários devolvessem uma parte dos seus salários. Queiroz é, para a família Bolsonaro, o que Paulo César Farias, o PC, foi para o então presidente da República Fernando Collor de Mello (1990 a 1992) – matéria na internet.    Logo se acelerou o ataque do coronavírus e o país entrou em emergência sanitária. Depois de um logo processo de fritura, o presidente demitiu o ministro da Saúde, o médico Luiz Henrique Mandetta, que seguia as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para lidar com o vírus. Mandetta era mais popular que o presidente.

Depois forçou o pedido de demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, o símbolo da luta contra a corrupção. O auge desse período foram as manifestações feitas nos finais de semana de apoiadores do presidente que pediam a volta da ditadura militar e o fechamento do STF, da Câmara e do Senado – na internet. Chegamos aos xis da nossa história. À medida que o prestígio de Bolsonaro caía, Mourão afinava o seu discurso em defesa do governo. Vejam bem, meus colegas. Ele não aproveitou a oportunidade para consolidar o seu prestígio e com isso acelerar um pedido de impeachment. Por quê?


É simples. Ele seria chamado de conspirador e golpista pelos bolsonaristas. Temos um exemplo recente na história política do Brasil: o caso do ex-presidente Michel Temer (MDB-SP). Vice de Dilma Rousseff (PT-MG), organizou uma conspiração que resultou no impeachment da presidente (2016). O governo do Temer foi um inferno. Ele passou a maior parte do tempo encurralado, precisando negociar com os deputados do Centrão para não sair do Palácio do Planalto algemado pela Polícia Federal (PF). Seja qual for o futuro do mandato de Bolsonaro, Mourão vai estar nele, ou como vice ou substituindo o presidente. Aqui, quero falar com os meus colegas repórteres, especialmente os mais jovens. Dias interessantes virão por aí. Podem apostar.

Deixe uma resposta