
Vamos saber com mais detalhes, nas próximas semanas, quem planejou, financiou, organizou e executou a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos, para os Estados Unidos. Do que se sabe até agora, o rascunho da operação é o seguinte: pouco mais de 48 horas depois de ter sido derrotado nas urnas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 81 anos, que se reelegeu presidente da República, o senador, a esposa e as duas filhas do casal embarcaram em um avião em Brasília (DF) rumo a Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná. Famosa pelas Cataratas do Iguaçu, a região também é conhecida como Tríplice Fronteira, porque naquele ponto os rios Iguaçu e Paraná desenham os limites territoriais de três cidades e três países: Foz do Iguaçu (Brasil), Puerto Iguazu (Argentina) e Ciudad del Leste (Paraguai). Na noite de terça-feira (27), o senador e a família cruzaram a fronteira pela Ponte Internacional Tancredo Neves e chegaram a Puerto Iguazu. Lá, embarcaram em jatinho particular que, após uma escala para reabastecimento no Equador, pousou no aeroporto Opa-Locka, exclusivo para jatos executivos, em Miami, no estado americano da Flórida. Eram 9h30min de quarta-feira no horário local, 10h30min em Brasília.
Vamos conversar sobre o assunto. Mas antes vou lembrar que no último dia 27 publiquei o post A imprensa, a vitória de Lula, o futuro do senador Flávio e o rumo do bolsonarismo. No texto, digo que no final do ano, quando terminar o seu mandato de senador, Flávio terá à sua porta uma longa fila de processos e investigações policiais. Portanto, terá muitas preocupações que não lhe darão tempo para se tornar o líder da oposição ao governo Lula, como tinha sido planejado pelo seu pai, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (2019 – 2022). Ele nomeou o filho para substituí-lo na disputa presidencial depois de ser declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ter sido condenado a 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. No domingo (25), a reeleição de Lula foi confirmada às 21h08min, após a apuração de 97,69% das urnas, fazendo 51,79% dos votos válidos (64,2 milhões) contra 48,21% (59,8 milhões) de Flávio. Na manhã seguinte, quando o senador foi visitar o pai, que cumpre a pena em casa, foi comunicado por agentes da Polícia Federal (PF) que teria 24 horas para entregar os seus passaportes na sede da PF. Também estava impedido de deixar o país e se comunicar com o advogado Willer Tomaz, que é seu amigo e investigado pela PF. Na ocasião, ele reclamou que o despacho tinha sido assinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, 57 anos, apenas sete minutos após Lula ter sido declarado vencedor. A bronca do senador e sua família com Moraes vem de longe e o motivo é porque o ministro foi o relator do processo da Primeira Turma do STF que condenou Bolsonaro pela tentativa de golpe de estado – basta “dar um Google” para ter acesso a história. O cancelamento dos passaportes não tem nada a ver com a disputa política. Como disse lá no meio da nossa conversa, tem a ver com a fila de processos e investigações policiais contra o senador. A PF pediu o cancelamento e a entrega dos passaportes para impedir a fuga de Flávio do país. No momento da intimação, Flávio afirmou que entregaria os passaportes e não tinha intenção de sair do Brasil. Ele não só conseguiu executar com sucesso uma operação de fuga como obteve o visto para viver nos Estados Unidos do presidente Donald Trump (republicano), 80 anos.
Como disse, a fuga de Flávio não tem a ver com perseguição política. Mas com processos, casos policiais e investigações em andamento. Vou citar dois casos muito ruidosos em que a PF investiga a participação do senador e que ocuparam as manchetes dos jornais durante a campanha presidencial. O primeiro é o processo que tramita na Segunda Turma do STF: o “Caso Vorcaro , do Banco Master”, envolvendo o filme Dark Horse, o Azarão, que conta a história da eleição do ex-presidente, em 20l8. O filme foi financiado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, 43 anos, do Banco Master, que está preso por fraudes ao sistema bancário e tráfico de influência. Na época, Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões (R$ 134 milhões), divididos em parcelas, para a produção do filme. Após pagar sete parcelas, no valor de US$ 13 milhões (R$ 70 milhões), ele suspendeu os repasses. No último mês de maio, o site The Intercept Brasil publicou uma reportagem com áudios de uma ligação telefônica entre Flávio e Vorcaro, na qual o senador cobra o pagamento dos valores atrasados. Os federais querem saber onde o dinheiro das sete parcelas foi parar. Lembro que na ocasião da publicação da matéria muitos bolsonaristas ficaram surpresos com a relação de Flávio com Vorcaro. O segundo caso envolve o senador com o seu amigo, o advogado Tomaz, suspeito de evasão de divisas e lavagem de dinheiro – há matérias disponíveis sobre o caso. Aqui é o seguinte. Caso Flávio tivesse sido eleito, as investigações desses casos ficariam congeladas até o fim do mandato. O fato dele estar em território americano não interrompe as apurações policiais e os processos. No final da tarde de quarta-feira (28), o senador divulgou uma carta de três páginas classificadas pela imprensa como de “teor golpista”. Na primeira versão da carta ele se declara “presidente eleito do Brasil”. Em outra versão, troca as palavras “presidente eleito” por “líder”. Tenho 76 anos, sendo 50 como repórter, dos quais 40 vivi em redação de jornal e vi coisas que até Deus duvida. O conteúdo dessas cartas estão acima de tudo, tal é o somatório de absurdos. Além de colocar o Brasil na galeria das “repúblicas de bananas”, ele puxa para a “bronca” Trump e o presidente da Argentina, Javier Milei, 56 anos, agradecendo o apoio à sua fuga. Conversei com colegas repórteres sobre o conteúdo exótico das cartas de Flávio. Na opinião deles, trata-se de uma última e desesperada tentativa de conseguir a anistia do pai. Não concordo com o pensamento deles. Mas não posso fechar essa porta. Na política, tudo é possível.
Para concluir a nossa conversa. Outro filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, 42 anos, ex-deputado federal por São Paulo, que se encontra desde 2025 autoexilado nos Estados Unidos, vai disputar espaço político com seu irmão? Vai ser interessante ver no que vai dar essa história. Lembro que foi Eduardo quem pressionou o pai a indicar Flávio para concorrer a presidente com objetivo de manter na família o seu legado político. A fuga de Flávio abriu caminho para o crescimento político da sua madrasta, Michelle Bolsonaro (PL-DF), 44 anos, recém-eleita senadora por Brasília (DF). E, por último, o presidente Lula foi aconselhado a se afastar da história do senador, que virou um caso de polícia.