
Vamos direto ao assunto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 81 anos, foi reeleito no segundo turno das eleições do último domingo (25), derrotando o senador Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos. Em números redondos, Lula teve 64,2 milhões de votos válidos (51,79%) e Flávio, 59,8 milhões (48,21%), uma diferença de 4,4 milhões. A disputa entre os dois candidatos foi acirrada desde dezembro de 2025, quando o pai do senador, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, o escolheu para substituí-lo na disputa presidencial de 2026. A substituição ocorreu porque Bolsonaro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e posteriormente condenado a 27 anos de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por se envolver em uma tentativa de golpe de estado. No primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, contrariando as pesquisas eleitorais que indicavam a vitória de Lula, Flávio chegou na frente, com 47,1% dos votos válidos, contra 45% do atual presidente. Uma diferença de 2 milhões de votos.
Por ter perdido o primeiro turno, Lula reformulou toda a sua campanha, e o que aconteceu foi acompanhado pela imprensa diária – basta “dar um Google” para obter mais informações. No domingo (25), foi a vez de Lula virar sobre o senador, que liderava as pesquisas, Flávio caiu atirando. Acusou a Justiça Eleitoral de ter feito “sacanagem” contra a sua candidatura e não reconheceu a vitória de Lula – toda a história está nos noticiários diários. O meu relato até aqui é do que aconteceu e ainda está rolando. A imprensa está fazendo uma grande e diversificada cobertura online. Vamos falar sobre outro assunto. Na sexta-feira passada (23), publiquei o post Eleição de 2030 começa nos segundos seguintes ao anúncio do novo presidente. Pois bem, já começou. Comecemos pelo que já está definido. No Brasil, existem duas lideranças nacionais consolidadas: Lula, que agrega as forças de esquerda, centro e a direita democrática. E o ex-presidente Bolsonaro, que criou o bolsonarismo, um movimento que soma as forças da extrema direita e outros movimentos radicais. Vamos começar esmiuçando os rumos que o bolsonarismo poderá tomar. O senador Flávio foi escolhido para substituir o pai com três missões: primeira, preservar na família o patrimônio político de Jair Bolsonaro, tornando-se uma referência na oposição. Segundo, fazer uma superbancada no Congresso Nacional e aumentar o número de governadores. E, por último, ganhar a Presidência da República, se possível. Ele tornou-se um candidato competitivo, ajudando seu partido a eleger 150 parlamentares (deputados federais e senadores) e seis governadores. Perdeu a eleição presidencial e seu mandato, que acaba no fim do ano. Mesmo sem mandato, ele será o líder da oposição, mantendo-se na “vitrine” e batendo na tecla de que houve “sacanagem” na eleição de Lula? Mais ainda: há uma fila considerável de investigações policiais e processos contra o senador, como o “Caso Vorcaro, do Banco Master”, envolvendo o filme Dark Horse, o Azarão, que conta a história de eleição do seu pai a presidente, em 2018, e que foi financiado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, 43 anos, do Banco Master, que está preso por fraudes ao sistema bancário e tráfico de influência. A respeito do poder que terá a superbancada de parlamentares bolsonaristas é preciso esperar para ver como irá funcionar. Resumindo: Flávio estará muito ocupado cuidando da sua própria sobrevivência para se envolver com outros problemas.
O ex-presidente tem duas opções substituí-lo. A primeira delas é seu filho número dois, Carlos Bolsonaro (PL-SC), 43 anos, que se elegeu senador por Santa Catarina. Durante o governo Bolsonaro (2019 – 2022), Carlos era vereador no Rio de Janeiro e fez parte do Gabinete do Ódio, como foi apelidado pela imprensa um grupo de pessoas que “detonava” os adversários políticos do ex-presidente pelas redes sociais. A segunda opção é sua mulher, Michelle Bolsonaro, 44 anos, que se elegeu senadora por Brasília (DF). Ela é uma liderança entre as mulheres evangélicas. O meu voto é que Flávio será substituído por Carlos. Como disse, teremos que esperar para ver como essa equação será resolvida. Os caminhos que Lula irá percorrer no seu quarto mandato são mais tranquilos. Mas não menos complicados. Pretende ingressar na galeria dos governantes brasileiros que têm um lugar na história. Eles são poucos, como é o caso de Getúlio Vargas (1822 – 1954), gaúcho de São Borja que governou o Brasil de 1930 a 1945 e de 1950 a 1954. Na noite de domingo, durante as comemorações da vitória, Lula adiantou alguns detalhes de como será sua maneira de governar. Tenho amigos e colegas que trabalham com o presidente. Não vejo dificuldades para tocar o seu quarto governo. O problema será indicar o seu substituto para 2030. Essas articulações já começaram há um bom tempo e devem se acelerar agora no quarto mandato. Historicamente, o PT tem diversas correntes políticas. Uma coisa é certa: há uma abundância de candidatos. Mas o escolhido será uma opção pessoal de Lula. Digo uma coisa. Durante a reação da esquerda no segundo turno houve um movimento popular que há muitos anos não acontecia. Acrescento mais: essa movimentação não será diluída porque se manterá ativa pelo trabalho feito nas mídias sociais pelo deputado André Janones (Rede-MG), 42 anos. Ele montou um exército digital de 10 milhões de pessoas. Além disso, há uma geração nova de parlamentares do PT, como Ana Elisa (PT-MG), 21 anos, eleita com 544 mil votos e com 1,9 milhão de seguidores nas redes sociais. Ela e a “turma do digital”, como são conhecidos pela imprensa, terão uma grande influência na escolha do candidato a presidente da República do PT em 2030. Podem apostar.
Não sou especializado em política. Minha especialidade são conflitos agrários, migrações internas e crime organizado nas fronteiras. Preciso ficar atento para saber como as coisas acontecem nos bastidores da disputa política porque, de uma maneira direta ou indireta, o que acontece lá acaba refletindo nos movimentos sociais, nas organizações não governamentais (ONGs) e em outros setores por onde os meus assuntos transitam. O que temos de concreto é que Lula venceu e Flávio perdeu. Mas teve o voto de 59 milhões de brasileiros. O resto será preciso esperar para ver.