A longa “caminhada” pelos sertões do jornalismo do repórter Zuenir Ventura

O caso Chico Mendes despertou a atenção para a devastação da Floresta Amazônica Foto: Reprodução

Sempre que surge uma oportunidade lembro-me da rede de amigos repórteres que fiz em minhas andanças pelos sertões do Brasil e países vizinhos, trabalhando na cobertura de conflitos de terra, crime organizado nas fronteiras e migrações. Foi em uma dessas coberturas que tive o orgulho de conhecer o jornalista Zuenir Ventura. Na segunda-feira (21), completei 76 anos de vida, 50 na lida de repórter, 40 em redação de jornal, ainda com fôlego para seguir rodando pelas estradas em busca de histórias para contar. Na manhã seguinte, terça-feira (22), soube da morte do Zuenir. Tinha 95 anos. A notícia me trouxe à lembrança as circunstâncias em que nos conhecemos, durante a cobertura do julgamento dos matadores do sindicalista e ambientalista Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes (1944 – 1988). Em 22 de dezembro de 1988, Chico foi emboscado e morto a tiros de escopeta disparados por Darci Alves Pereira, nos fundos da sua casa, em Xapuri, uma pequena cidade no meio da selva amazônica, no estado do Acre. O crime foi encomendado pelo fazendeiro e grileiro Darly Alves da Silva, pai do matador. Se não fosse o trabalho de investigação jornalística de Zuenir, a morte de Chico Mendes teria sido mais uma na longa lista de “assassinatos de encomenda não resolvidos” de líderes populares da Floresta Amazônica.

Antes de conhecer o Zuenir pessoalmente eu já o conhecia pelas reportagens que ele fez sobre o assassinato do sindicalista. Durante uma semana, fiquei trancado no arquivo do jornal Zero Hora, em Porto Alegre (RS), lendo as matérias que Zuenir publicou no Jornal do Brasil. Entrei para a redação como repórter em 1979. Em 1990, no julgamento dos matadores de Chico Mendes, já era um profissional calejado, com muitas coberturas de conflitos no currículo. Portanto, sabia o que era escrever um texto às pressas, enquanto os acontecimentos ainda estavam se desenrolando. Os textos de Zuenir sobre a morte de Chico transmitiam segurança e conhecimento dos fatos. Ele conseguiu encontrar uma testemunha que contou o que acontecia entre as quatro paredes da casa onde viviam o matador e seu pai. Há vários livros e farto material à disposição na internet. Assim resumo o que tornou Chico Mendes um alvo dos grileiros de terras da Amazônia, em especial de Darly. Na época, a principal atividade econômica na região de Xapuri era a coleta de látex, a matéria-prima da borracha natural, extraído da seringueira, uma árvore de grande porte nativa da Amazônia. Portanto, os seringueiros dependiam da floresta em pé para tirar o seu sustento. Os grileiros derrubavam as árvores para plantar pastagens e vender ilegalmente a gleba para criadores de gado. Chico Mendes, o sindicalista Wilson Pinheiro e os freis ligados à Teologia da Libertação aperfeiçoaram uma tática de resistência ao corte das seringueiras chamada “empate”. Consistia em reunir um grupo de seringueiros e seus familiares para abraçar as árvores que seriam abatidas e convencer os trabalhadores que iam realizar o corte a desistir da tarefa. Na época, movimentos de defesa do meio ambiente já estavam presentes e organizados em vários países. E foi através deles que o “empate” foi parar nas páginas dos grandes jornais e tornou Chico Mendes conhecido internacionalmente. Os tempos estavam mudando no Brasil em 1988. A ditadura militar chegara ao fim, uma nova Constituição fora publicada, o país se redemocratizava e censura à imprensa finalmente acabara. Mas Chico Mendes sabia que os grileiros de terra o tinham marcado para morrer e que fariam de tudo para cumprir a sentença.

Uma semana após o crime, Darly e Darci foram presos. Em 1989, por conta da eleição do primeiro presidente da República pelo voto direto desde 1960, após o longo período de generais presidentes indicados pelo regime militar, houve um grande debate político no país. E um dos assuntos mais debatidos era o assassinato de Chico Mendes. O julgamento foi marcado para dezembro de 1990. Uma semana antes, cheguei em um voo a Rio Branco, capital do Acre. Distante 180 quilômetros de Xapuri, na época por uma estrada de chão batido que ficava intransitável quando chovia. Tomei a decisão de não alugar um carro e ir de ônibus. Caso atolasse, haveria mais gente para empurrar o veículo. Não deu outra: o ônibus atolou duas vezes até Xapuri. Antes de entrar na cidade fomos parados por uma patrulha da Polícia Militar (PM). Um policial olhou para mim com jeito desconfiado e pediu meus documentos. Disse que eu tinha cara de pistoleiro. Chegamos à noite ao centro da cidade. Os quartos dos escassos hotéis já tinham sido ocupados ou reservados por jornalistas de vários cantos do mundo. Conversei com os freis que trabalhavam no sindicato local dos trabalhadores rurais. Eles conseguiram um quarto para mim no andar de cima de uma borracharia. Dormi lá aquela noite. No dia seguinte, bem cedo, levantei-me e fui sentar em um banco na praça à espera de que abrisse um lugar onde eu poderia tomar um café. Eu estava meio zonzo, creio que pela diferença de três horas no fuso horário entre o Rio Grande do Sul e o Acre. Um colega repórter do Rio de Janeiro que passava pela praça perguntou se estava tudo bem comigo. Contei-lhe o meu problema com o hotel. Lembro-me até hoje das suas palavras: “Liga para o Zuenir, ele conhece todo mundo aqui. Vai te ajudar”. Esperei o sindicato abrir e liguei. Zuenir atendeu e me ouvi atentamente. Pediu para esperar. Dei-lhe o número do telefone onde eu estava e aguardei. Na época, as ligações eram discadas. Os primeiros celulares no Brasil haviam começado a operar no Rio de Janeiro naquele dezembro de 1990. Algum tempo depois, Zuenir retornou a ligação. Disse para que eu fosse ao Hotel Veneza e falasse com a dona. E me deu o nome da senhora, que não lembro. Aproveitei a oportunidade para uma conversa. Falei que era especializado em conflitos agrários e que tinha lido tudo que ele publicou a respeito da morte do Chico. Pedi dicas sobre que portas deveria bater na cidade para busca informações e com quem conversar para entender o rolo todo. Ficamos mais de uma hora no telefone. Ele foi muito atencioso e didático. Ali começou uma amizade. Nas várias vezes que estive no Rio de Janeiro nos anos seguintes, fazendo reportagens sobre os conflitos nas favelas, aproveitava para conversarmos. Em outras ocasiões, falávamos por telefone. Sou um repórter estradeiro e a estrada é um lugar solitário. Zuenir era o cara para quem eu ligava “pra trocar uma ideia”. Durante o julgamento, não consegui mais falar com ele porque a cobertura foi uma correria danada. Além do grande volume de informações, o fuso horário tornava a vida do repórter um inferno. A redação fechava geralmente por volta das 20h. Em Xapuri eram apenas 17h e as coisas ainda estavam acontecendo. Os réus foram condenados a 19 anos de cadeia.

Para encerrar. Sempre que recebo a notícia da morte de um colega com quem fiz amizade percorrendo os sertões do Brasil eu lembro o que me disse certa vez um desses colegas, durante a cobertura de conflito de terra nos confins do Mato Grosso do Sul. Assim resumo: “Repórter morre, mas as histórias que escreveu continuam rodando por aí”. Zuenir deixou rodando por aí um acervo de livros, reportagens e outras obras. Boa caminhada.

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