
“Não é só isso, ele tem uma carta na manga”, cometei com um amigo e repórter que conheci no começo da década 80 a respeito da ida do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, aos Estados Unidos, para tentar ser recebido na Casa Branca pelo presidente Donald Trump (republicano), 79 anos. O senador é pré-candidato a presidente da República e o principal adversário de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Flávio substitui o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos de cadeia por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Até duas semanas atrás, sua candidatura ia “de vento em popa”. Tudo mudou quando o site The Intercept Brasil revelou uma conversa telefônica em que o senador pede dinheiro para o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, 42 anos, para financiar a produção do filme Dark Horse, o Azarão, que conta a trajetória de Bolsonaro na campanha eleitoral que o elegeu presidente em 2018. Vorcaro está preso preventivamente por ter comandado um esquema fraudulento que deu um prejuízo de R$ 50 bilhões aos seus clientes e ao sistema bancário do Brasil. Ele tinha prometido contribuir com R$ 134 milhões para o filme, divididos em parcelas, cujo o número é desconhecido. Em 2025, depositou R$ 61 milhões, mas suspendeu o pagamento do restante. Na ligação, o senador reclama que o depósito das parcelas está atrasado.
Contei a história no post (09/5) O “irmão Vorcaro” de Flávio derruba o disfarce de “Bolsonaro bonzinho?”. Logo depois de se tornar pública a história das parcelas, o site Metrópoles publicou uma matéria sobre a visita que o senador fez a Vorcaro na casa do ex-banqueiro, quando ele cumpria prisão domiciliar e usava tornozeleira eletrônica. A candidatura de Flávio caiu, em média, cinco pontos nas pesquisas eleitorais feitas logo após a divulgação dos episódios. Os estrategistas da campanha apontaram a visita a Trump como uma solução para estancar o desmoronamento da candidatura e colocar Lula nas cordas. O senador venceu o primeiro desafio e foi recebido por cinco minutos pelo presidente americano. O encontro foi documentado por uma foto e não houve comentários da Casa Branca. Voltando a minha conversa com o meu amigo repórter. O resultado da visita não tinha potencial de parar a “sangria da candidatura bolsonarista”. Alertei-o que a carta na manga de Flávio eram as pessoas ao redor de Trump. Por ter sido traído no seu primeiro mandato (2017 – 2021) por assessores de confiança, aliados com funcionários de carreira do governo, Trump selecionou a dedo os seus atuais secretários e ocupantes de cargos de primeiro escalão. Todos são 100% fiéis ao presidente. E foi entre eles que Flávio conseguiu se articular e tornar a sua viagem vitoriosa. Marco Rubio, 55 anos, secretário de Estado, e o vice-presidente J.D. Vance, 41 anos, anunciaram que no próximo dia 5 de junho as duas maiores organizações criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), serão classificadas pelo governo americano como organizações terroristas internacionais. Essa história é antiga e começou nos atentados de 11 de setembro de 2011, quando 19 extremistas suicidas ligados à Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos e os jogaram contra alvos civis e militares, entre eles as Torres Gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, a sede do Departamento de Defesa e do alto comando militar americano, em Washington. Mais de 3 mil pessoas morreram nos ataques. Trabalhei na cobertura de 11 de setembro na fronteira do Brasil com o Paraguai e a Bolívia. Na época, começou a ganhar corpo uma linha de investigação que ligava os cartéis de drogas com a Al-Qaeda e outros grupos terroristas. Foi nessa ocasião que começou a se popularizar a expressão narcoterrorista.
A vinculação do PCC e do CV ao terrorismo foi um dos assuntos comentados por Trump nas semanas seguintes após assumir o seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025. As autoridades brasileiras não concordam com a vinculação porque será prejudicial ao sistema financeiro nacional e abre a possibilidade da intervenção de tropas americanas no território brasileiro – matérias disponíveis na internet. Caso se confirme, a classificação de terrorista do PCC e do CV impedirá que autoridades brasileiras e americanas troquem informações sobre estas organizações. Há três semanas, Lula teve uma reunião de três horas com Trump na Casa Branca, quando entregou um plano de combate ao crime organizado no Brasil. Na ocasião, a questão da classificação do PCC e do CV como terroristas não foi tratada. O foco dos brasileiros no combate às organizações criminosas é sufocá-las economicamente, desarticulando seus esquemas de lavagem de dinheiro. O foco de Trump é militarizar a repressão aos traficantes. Em todos os cantos do mundo onde foi tentada essa estratégia, ela não funcionou, inclusive no Brasil. O que vai acontecer depois de 5 de junho, ninguém sabe. É preciso esperar para ver. O que temos de concreto é a tentativa do senador Flávio e seus aliados de colocar Lula contra as cordas com a classificação de PCC e CV como organizações terroristas. Finalizei a conversa com o meu amigo lembrando o seguinte. A Polícia Federal (PF) já sabe que muita gente usou o Banco Master para lavar dinheiro. Há uma investigação da PF sobre a remessa de R$ 2,8 bilhões pelo Master endereçada a uma empresa suspeita de lavar dinheiro para o PCC. Pergunta: o fato de Vorcaro ter financiado o filme pode trazer problemas para a candidatura do senador caso seja confirmada a lavagem de dinheiro do PCC no Master? Também existe o livro do repórter Sérgio Ramalho, do Rio de Janeiro, Decaído, que conta a história do capitão do Bope Adriano da Nóbrega e suas ligações com a máfia do jogo do bicho, a milícia e o clã Bolsonaro. Li o livro e recomendo para os repórteres, principalmente os jovens.
Para arrematar a nossa conversa. Especialistas em campanhas políticas avaliam que, caso se confirme a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, será o início da interferência de Trump nas eleições presidenciais do Brasil. O governo brasileiro soltou uma nota oficial. O texto abre “alertando que o Brasil é uma nação soberana que tem travado combate permanente contra o PCC, CV e as demais facções e milícias que praticam terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias. Enfrentar essas organizações criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro”. Em outro parágrafo, a nota afirma: A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos”. Toda a nota tem 42 linhas e está disponível na internet.