
De tempos em tempos circulam nas redações dos jornais ditos populares que de tanto serem repetidos pelos veteranos mais calejados acabam sendo assimilados pelos jovens repórteres. Lembro-me de um que eu ouvia sempre de um editor quando tentava propor, eufórico, uma pauta sobre conflitos agrários. Ele dizia: “Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, acrescentando um “Wagner, te acalma”. A prudência da “chefia” devia-se ao contexto político da época. Na década de 80, os conflitos sociais eclodiam por todos os lados e inundavam as páginas dos jornais. O regime militar que se instalara no poder com o golpe de estado de 1964 estava em acentuada decadência, mas a censura prévia à imprensa ainda vigorava. Lembrei-me dessa história devido a avalanche de notícias sobre o iminente esfacelamento do núcleo familiar que lidera o movimento bolsonarista, após a derrota do senador Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos, nas eleições presidenciais que conduziram Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 81 anos, para o seu quarto mandato na Presidência da República. Também estaria pesando para esse desmanche a bem articulada operação de fuga do senador com a família (esposa e duas filhas) para os Estados Unidos, com o objetivo de escapar dos inquéritos judiciais que tramitam contra ele no Supremo Tribunal Federal (STF), um deles envolvendo sua ligação com os ruidosos escândalos financeiros relacionados ao “Caso Vorcaro, do Banco Master” – toda a história está disponível “a um Google”.
O que vai acontecer daqui para frente no bolsonarismo não é tão simples como vem sendo noticiado. A situação é mais complexa e, portanto, merece ser melhor explicada para o leitor. Essa foi a segunda derrota do bolsonarismo para Lula. A primeira ocorreu em 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, concorreu à reeleição e perdeu por uma diferença de 2,2 milhões de votos válidos. Após a eleição, Bolsonaro articulou-se com alguns seguidores numa fracassada tentativa de golpe de estado. Todos foram condenados, inclusive o ex-presidente, que atualmente cumpre uma pena de 27 anos de prisão. Preso e declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro escolheu Flávio, o filho mais velho, para concorrer a presidente em 2026. Muitos jornalistas, entre os quais me incluo, não acreditavam que o ex-presidente conseguisse transferir na totalidade o seu prestígio político para Flávio. Conseguiu e o tornou competitivo na disputa com Lula. Como conseguiu? Vou citar dois motivos. O primeiro é que durante o seu governo (2019 – 2022) ele estruturou o movimento bolsonarista, colocando em postos-chaves e estratégicos pessoas da sua absoluta confiança. O segundo motivo é que ensinou aos saudosistas do golpe militar de 1964 e a outros extremistas que eles tinham o direito de defender em público as suas ideias. Essa estratégia deu capilaridade ao bolsonarismo. Em 2022, o ex-presidente elegeu 114 parlamentares para o Congresso Nacional (senadores e deputados federais) e 13 governadores. Em 2026, foram eleitos 150 parlamentares e seis governadores. Nas duas ocasiões, a maioria dos eleitos não tinha militância política anterior, portanto era desconhecida do eleitor. Tornaram-se conhecidos e se elegeram quando entraram no movimento bolsonarista. A cota do Fundo Eleitoral do principal partido bolsonarista, o PL, foi de R$ 881,6 milhões em 2026 – triplicou em relação a 2022.
A aposta da imprensa é que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 51 anos, será o candidato do bolsonarismo à Presidência da República em 2030. Tarcísio era um dos que disputavam a indicação de Bolsonaro para concorrer no seu lugar em 2026. Foi deixado de lado quando outro filho do ex-presidente, o ex-deputado federal por São Paulo Eduardo Bolsonaro (PL), que se autoexilou nos Estados Unidos, convenceu o pai que seu legado político deveria ficar na família e indicou o irmão Flávio para concorrer contra Lula. A situação do senador é delicada. Caso os democratas, adversários do presidente Donald Trump (republicano), 80 anos, vençam as eleições presidenciais em 2028, é real a possibilidade de que ele e outros brasileiros do movimento bolsonarista que se refugiaram nos Estados Unidos sejam colocados em um avião pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) e mandados de volta para o Brasil. Além de Flávio, lá estão refugiados, entre outros, o irmão Eduardo, o ex-deputado, delegado da Polícia Federal e diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem (PL), 54 anos, e o jornalista Paulo Renato de Oliveira Figueiredo, neto de João Baptista Figueredo, o último dos generais-presidentes da ditadura militar. A presença do grupo nos Estados Unidos já foi assunto dos democratas nas eleições deste ano, conhecidas como “meio do mandato”, e tudo indica que voltarão a ser usadas como tema de campanha em 2028. Para concluir, digo que a situação do movimento bolsonarista é complicada. Mas tem opções para continuar na disputa, porque tem capilaridade e estrutura financeira. E o maior argumento de todos. Quem elege os parlamentares é Bolsonaro. Supor que irá simplesmente abrir mão desse poder é esquecer o histórico do ex-presidente. Todos os aliados que o desafiaram tiveram vida curta na política e hoje não se elegem nem para síndico de condomínio. A situação do senador Flávio é muito difícil, principalmente depois que publicou uma carta considerada golpista pela imprensa e a maioria dos parlamentares, inclusive do seu partido. Seja lá qual for a saída para a situação, ela passa pelo crivo do ex-presidente. Todos os envolvidos sabem disso. E a imprensa precisa deixar muito clara essa questão para os leitores.
Para arrematar a nossa conversa. A disputa política no Brasil está polarizada entre Lula e Bolsonaro. Os dois principais candidatos nas próximas eleições presidenciais terão que passar pelo crivo deles. É simples assim. Resta saber se o movimento bolsonarista tem alguma carta na manga para 2030.